Epitácio Pessoa/Estadão
Epitácio Pessoa/Estadão

SP amplia uso de planta medicinal e distribui 6,7 milhões de fitoterápicos

Fornecimento cresceu 662% entre 2015 e 2019 na cidade de São Paulo; pacientes usam medicamentos para tratar gastrite, ansiedade e outros problemas

Priscila Mengue e Paula Felix, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2020 | 05h00

SÃO PAULO - O potencial de plantas no tratamento de doenças e sintomas tem ganhado reconhecimento na área de saúde, fazendo delas aliadas da medicina convencional. Industrializadas ou manipuladas e em formatos que vão de cápsula a comprimido e gel, ganhando o nome de fitoterápicos, 12 plantas estão entre os 184 medicamentos indicados em programas de atenção primária do Ministério da Saúde

Na cidade de São Paulo, o fornecimento de fitoterápicos cresceu 662% no ano de 2019 em relação a 2015. Desde 2006, o Brasil tem a Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos (PNPMF), que prevê a oferta de plantas in natura ou secas e de fitoterápicos, além de criação de hortas municipais de plantas medicinais. O ministério também instituiu, em 2010, o programa Farmácia Viva, que compreende o cultivo de plantas medicinais a fim de serem distribuídas ou preparadas como fitoterápicos.

No Estado de São Paulo, por exemplo, a Secretaria de Agricultura e Abastecimento mantém um horto em Campinas, no interior paulista, com plantas matrizes para fornecimento de mudas para unidades de saúde da cidade e projetos comunitários. De acordo com o Ministério da Saúde, dos 90 projetos de assistência farmacêutica em plantas medicinais e fitoterápicos apoiados pela pasta, oito estão no Estado.

Na capital, cerca de 200 unidades básicas de saúde (UBSs) da Prefeitura de São Paulo oferecem medicamentos fitoterápicos mediante prescrição médica. No ano passado, 6,702 milhões foram fornecidos. Em 2015, quando a oferta na rede municipal teve início, eram 878 mil unidades. 

Os números se referem a quatro tipos de medicamentos: a isoflavona-de-soja, indicada para o climatério, transição que a mulher passa da fase reprodutiva para a pós-menopausa, a garra-do-diabo, anti-inflamatório e analgésico, a espinheira-santa, para tratar gastrite e indigestão, e a valeriana, para casos leves de depressão e ansiedade.

O município também mantém hortas medicinais em aproximadamente 100 UBSs, destinadas a projetos educativos. Um dos casos é a UBS Barragem, em Parelheiros, extremo sul paulistano, que tem um espaço batizado de “Cantinho da Vovó”. Entre as plantas que profissionais de saúde da rede costumam recomendar a pacientes, estão o boldo, o gengibre e o maracujá.

O aposentado Josué Rodrigues da Silva, 71 anos, recorda-se da mãe usando plantas para resolver problemas de saúde. Morador do bairro há 25 anos, é adepto das ervas medicinais e retira fitoterápicos na unidade de saúde. “No meu terreno, eu planto as ervas medicinais. Tenho hortelã, poejo, guaco, capim santo. Tenho diabete e pego todos os meus remédios lá (na UBS). A médica visitou a minha casa e falou que eu tenho tudo para ter uma vida saudável”, conta. 

Silva diz que, embora já tivesse noções dos benefícios das plantas medicinais, foi na UBS que ampliou seus conhecimentos e aprendeu como usá-las. Todos os meses ele vai à unidade para consultas. “Aproveito e passo na horta também.”

“Muitas vezes, a gente está tomando um remédio e não sabe. Eu uso as ervas quando estou com gripe, uma dor de estômago ou quando como algo que não cai bem. Aprendi como faz chá com boldo-do-chile. É só amassar as folhas dele em um copo, colocar a água e esperar. Não é muito bom (por causa do sabor), mas resolve.” 

Coordenador do programa de Práticas Integrativas e Complementares em Saúde da Prefeitura, o médico Emílio Telesi Júnior comenta que os fitoterápicos, até o fornecimento pela rede em 2015, eram restritos aos poucos profissionais de saúde que tinham interesse no tema. Ele ressalta, por exemplo, ações realizadas para difundir as plantas medicinais e os fitoterápicos entre os servidores. 

“As faculdades de Medicina nem ensinam os profissionais a prescrever fitoterápicos, ensinam a prescrever drogas das farmácias e, de um modo geral, médicos recebem muita propaganda de medicamentos químicos e são muito influenciados por isso.”

Produção

Segundo a Associação Brasileira das Empresas do Setor Fitoterápico, Suplemento Alimentar e de Promoção da Saúde (Abifisa), o setor cresce, em média, 10% ao ano em valores e cerca de 2% em unidades nos últimos cinco anos.

“O uso de medicamentos fitoterápicos tem crescido mundialmente e não é diferente aqui no Brasil. A população vem buscando um estilo de vida mais saudável para a manutenção da saúde e do bem-estar, soluções mais naturais de alimentação e de cuidados em geral, o que contribui para a expansão da fitoterapia, que, em geral, oferece opção terapêutica menos agressiva que os produtos sintéticos. O mercado de fitoterápicos faturou R$ 2,3 bilhões em 2018, representando participação de 2,2% do mercado farmacêutico total”, diz Gislaine Gutierrez, presidente do conselho diretivo da Abifisa. Segundo Gislaine, os principais fitoterápicos usados no Brasil são feitos com maracujá, hera, castanha da Índia, ginkgo biloba e guaco (expectorante).

Conselho de medicina ‘vê com cautela’ prescrições sem respaldo

Enquanto os fitoterápicos são tema de cartilha temática que está na 4ª edição pelo Conselho Regional de Farmácia (CRF) de São Paulo, o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) diz que “vê com cautela a prescrição de fitoterápicos sem respaldo científico” e que, do que chama de terapia alternativa, só reconhece a acupuntura e a homeopatia – “desde que sejam praticadas por médicos”.

Professora da especialização em Fitoterapia da Universidade Federal de São Carlos (UFScar), a farmacêutica Patrícia Correa Dias considera que a área tem crescido “muito” nos últimos anos, tanto na rede pública quanto privada. “Essa demanda surge muitas vezes da própria população, que busca uma possibilidade natural de tratamento, até para minimizar efeitos colaterais da medicina tradicional.”

Para ela, a comunidade científica tem se debruçado mais sobre o tema, reforçando e comprovando usos, em áreas como Medicina, Fisioterapia, Nutrição, Enfermagem e Farmácia. “Hoje a gente consegue fazer uma dobradinha da tradicionalidade associada à ciência.”

“Nós temos princípios ativos naturais hoje capazes de trazer soluções e tratamentos para doenças de diferentes sistemas do organismo, com cura ou redução de sintomas”, comenta.

“Há vários países em que a fitoterapia tem destaque, na Europa e Ásia. No Brasil, acredito que as políticas públicas são favoráveis, mas os programas ainda precisam ser melhorados para que tenham avanço mais efetivo”, analisa a professora.

Assim como Patrícia, a farmacêutica Ana Flavia Marçal Pessoa, pesquisadora do Departamento de Cirurgia da Faculdade de Medicina da USP, também considera que a formação sobre fitoterápicos ainda é muito restrita aos profissionais de Farmácia. “Dependendo da classe do profissional, tem certo preconceito, principalmente na médica. Percebo que há uma falta de conhecimento e, quando o profissional não conhece, acaba olhando de uma forma negativa”, diz. “É estranho porque a gente tem uma diversidade tremenda de biodiversidade, que poderia ser melhor aproveitada”, afirma.

A pesquisadora ressalta, contudo, que os fitoterápicos não estão isentos de efeitos colaterais e que é necessário avaliar interações medicamentosas e as doses corretas. “Tem sim contraindicação. O medicamento fitoterápico tem um máximo de utilização de três meses.” O Ministério da Saúde, questionado sobre o tema, recomenda que a população utilize apenas produtos com segurança e eficácia comprovadas. “Também deve ser respeitadas a dose, posologia e a forma de uso”, afirma a pasta.

Conheça 12 fitoterápicos:

Doze fitoterápicos estão na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (Rename) de 2020, do Ministério da Saúde. São indicados na rede de atenção básica do SUS e achados em formatos diversos, como gel, cápsula e comprimido. Veja quais são:

  • Alcachofra

    Reduz sintoma de “males do fígado” e induz produção de bile

  • Aroeira

    Cicatrizante e para inflamação no colo do útero e mucosa vaginal

  • Babosa (Aloe Vera)

    Cicatrizante, alivia a dor e reduz a inflamação; tratar queimaduras

  • Cáscara-sagrada

    Ação laxante, mas - em altas doses - se torna purgante

  • Espinheira-santa

    Ajuda a regular funções estomacais e protege a mucosa gástrica

  • Garra-do-diabo

    Usado contra dor na região lombar, de ação anti-inflamatória

  • Guaco

    Expectorante e broncodilatador

  • Hortelã

    Tratamento da síndrome do cólon irritável e previne espasmos

  • Isoflavona-de-soja

    Alivia sintomas do climatério, transição do período reprodutivo para o não reprodutivo da mulher

  • Plantago

    Usado em constipações e contra a síndrome do cólon irritável

  • Salgueiro

    Anti-inflamatório e antitérmico; contra gripe e resfriado

  • Unha-de-gato

    Contra artrite e anti-inflamatório, por exemplo

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