WILTON JUNIOR / ESTADAO
WILTON JUNIOR / ESTADAO

São Paulo e Rio estudam flexibilizar exigência de máscara diante de avanço da vacinação

Cidades planejam tirar obrigatoriedade de proteção em ambientes ao ar livre; especialistas dizem que medida precisa de planejamento, comunicação e análise de dados

Paula Felix e Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

05 de outubro de 2021 | 16h35
Atualizado 05 de outubro de 2021 | 17h26

O avanço da vacinação e a queda de casos de covid-19 desencadearam anúncios e estudos para flexibilizar o uso de máscaras em locais abertos e livres de aglomerações, como no Rio. O prefeito Eduardo Paes (PSD) informou nesta segunda-feira, 4, que o fim da obrigatoriedade da proteção já pode ocorrer no dia 15 deste mês. Em São Paulo, a questão ainda é alvo de estudos e a liberação deve ocorrer com índices de vacinação acima dos 90%.

Especialistas ouvidos pelo Estadão apontam que esta é uma questão que deve considerar planejamento, dados sobre o avanço da pandemia e cautela dos gestores. A discussão ocorre em um momento em que já é possível ver uma parcela da população abdicando do uso da proteção facial nas ruas. 

A declaração de Paes levou como base a ata da reunião do Comitê Científico da prefeitura, realizada no começo de agosto, que permite a flexibilização no cenário de 65% da população completamente imunizada. Com 75% da população vacinada, a proteção só será exigida em ambientes hospitalares e no transporte público.

Em São Paulo, a situação ainda não está definida, mas já começou a ser analisada. Segundo o secretário municipal da Saúde de São Paulo, Edson Aparecido, estudos já foram iniciados e devem ser finalizados em duas semanas.

A liberação depende de critérios como: 90% da população com a segunda dose tomada, 100% da população com mais de 60 anos com a dose de reforço e baixos índices de internações e mortes. Segundo balanço divulgado nesta segunda-feira, 4, 81,75% da população com mais de 18 anos está com o esquema vacinal completo.

"O prefeito Ricardo Nunes (MDB) nos pediu exatamente que nós pudéssemos fazer uma avaliação, em função dos dados de que a pandemia evolui na cidade, sobre essa questão do uso da máscara”, afirmou Aparecido em coletiva de imprensa nesta terça-feira, 5.

“O uso da máscara na cidade de São Paulo foi absolutamente decisivo para o controle da pandemia, quando o prefeito Bruno Covas (PSDB) tornou obrigatória a sua utilização”, destacou. “E a adesão da população foi muito grande. Portanto, o uso da máscara, mesmo com o avanço da vacinação, é muito importante”, disse.

“Nós, obviamente, temos alguns dados que vamos levar em consideração. A expectativa é que, até o dia 15 de outubro, 90% da população tenha tomado a segunda dose da vacina. Até o final de outubro, chegaremos a 100% da população com a segunda dose. Até meados de outubro, teremos dado a dose de reforço à toda população com mais de 60 anos. Hoje, temos uma média móvel de 15 óbitos a cada sete dias, ou seja, algo em torno de dois óbitos por dia”, continuou. “Isto tudo será analisado para a eventualidade, inclusive, desta questão de não se utilizar a máscara.”

Em nota, o governo do Estado disse que "os municípios têm autonomia para definição de estratégias locais de combate à pandemia e devem prezar pela segurança da população", mas ressaltou que segue vigente a obrigatoriedade do uso de máscaras.

Gestores deveriam reforçar fiscalização em ambientes fechados, aponta especialista

Pós-doutorando na Faculdade de Medicina na Universidade de Vermont, o físico e membro do Observatório Covid-19 BR Vitor Mori diz que o debate é complexo, mas que o primeiro passo natural na flexibilização da máscara é tirar a obrigatoriedade do uso em ambientes ao ar livre. 

"Com o passar do tempo, com a vacinação e a desaceleração da pandemia, o uso da máscara não será necessário em todos os ambientes. Para mim, seria interessante que, junto à flexibilização nos ambientes abertos, passassem a fiscalizar mais os ambientes fechados, oferecessem máscaras melhores, como a PFF2, no transporte público. Isso faz mais sentido do que a população ficar com a mesma máscara folgada em todos os ambientes."

766E3C01-53A8-483E-9B06-CCE0C7108013
Seria interessante que, junto à flexibilização nos ambientes abertos, passassem a fiscalizar mais os ambientes fechados, oferecessem máscaras melhores, como a PFF2, no transporte público
E0EAB005-9061-4B3D-86B9-AEB61693E313
Vitor Mori, Membro do Observatório Covid-19 BR

Mori diz que a comunicação correta sobre os cuidados nas exposições ao ar livre e em locais fechados é fundamental para que os planos de flexibilização não sejam impactados por altas nas infecções pelo vírus.

"Nessa atual fase da pandemia, é importante que se tenha uma abordagem de redução de danos, conversar com a população, explicar como fazer as coisas de forma mais segura, como ter um encontro familiar com mais segurança, que será um encontro ao ar livre, com pessoas mais próximas. Se for em espaço fechado, deve usar máscara. Alguém mais vulnerável deve estar com PFF2."

Ainda de acordo com Mori, a definição não será feita com base na decisão do gestor, mas de uma série de indicadores. "É preciso analisar números de casos, de SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave), internações, óbitos, porcentagem de vacinados, situação regional", enumera.

Rio vê 'cenário epidemiológico favorável', mas médica diz que é 'muito cedo para cantar vitória'

Em nota, a prefeitura do Rio informou que o planejamento levou em consideração "o cenário epidemiológico favorável, o aporte adequado de vacinas pelo Programa Nacional de Imunizações, a alta performance de vacinação da população e a alta cobertura vacinal completa acima de 60 anos e com comorbidades".

Disse ainda que a cobertura da população total com esquema vacinal completo está em 56,5% e a da população adulta (a partir de 18 anos) é de 72,2%. "Todos os índices de monitoramento da pandemia (taxas de transmissão, médias móveis de casos e óbitos, taxas de ocupação de leitos, etc) estão em baixa no município e a rede SUS tem o menor número de pacientes internados por covid-19 desde abril do ano passado, 369 pessoas".

Para a médica epidemiologista Denise Garrett, vice-presidente do Instituto Sabin de Vacina, a máscara deveria ser a última proteção a ser retirada, pois a pandemia ainda não está controlada e porque ainda há lacunas no conhecimento sobre o novo coronavírus e suas variantes.

766E3C01-53A8-483E-9B06-CCE0C7108013
Com a pandemia, não tem como fazer uma previsão longa e com certeza. A máscara, juntamente com a vacina, é uma das medidas mais importantes de controle da pandemia
E0EAB005-9061-4B3D-86B9-AEB61693E313
Denise Garrett, Médica epidemiologista e vice-presidente do Instituto Sabin de Vacina

"Esta é uma certeza que não é adequada no momento e pode levar a um comportamento da população que pode custar vidas. Aqui nos Estados Unidos, alguns meses atrás, achamos que a gente tinha vencido a pandemia, porque estava no nível mais baixo de mortes e casos desde o início da pandemia, menos de 15 mil casos e menos de 300 mortes. Era o nosso nível mais baixo, vacinação avançando e verão, quando as pessoas estão mais ao ar livre. O país estava pronto para virar a página da covid, ninguém mais queria ouvir nada ao contrário disso. Vejo que essa é a mesma situação do Brasil", descreveu.

"Foi uma questão de semanas que os casos decolaram, vimos a subida exponencial de casos, internações e mortes. A gente se viu na onda da Delta. Com a pandemia, não tem como fazer uma previsão longa e com certeza. A máscara, juntamente com a vacina, é uma das medidas mais importantes de controle da pandemia", acrescentou ela.

Segundo Denise, a eficácia da máscara na proteção já foi comprovada em estudos. "É algo simples, que comprovadamente funciona, estudos sólidos e deve ser a última medida de controle a ser retirada em qualquer lugar fechado, seja condução, loja, shopping. A única exceção onde o uso de máscara pode não ser necessário é do lado de fora, em um ambiente aberto, longe das pessoas ou entre pessoas que moram no mesmo domicílio."

Ela também questiona anúncios de eventos que mobilizam multidões, caso do carnaval, algo que tem sido anunciado tanto pelo Rio quanto por São Paulo, que estima uma festa com público de 15 milhões de pessoas e sem restrições.

"Qualquer pessoa que venha a público agora com certezas e fazendo afirmações sejam elas em qual direção for, se pode ou não pode fazer algo, mostra que não entende dessa pandemia. Não tem como ter certezas agora, estamos em uma situação que é muito fluida, que pode mudar a qualquer momento. É impressionante a dificuldade do Brasil de aprender com os exemplos de países que estão à frente, que removeram a máscara precocemente, por exemplo. Estamos em uma média de dois a três meses atrás dos Estados Unidos. É muito cedo para cantar vitória."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.