Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

São Paulo já transfere pacientes do interior do Estado para a capital

Gestão Bruno Covas (PSDB) quer evitar que pacientes a mais entrem na conta da lotação de vagas de UTI e tire liberação da cidade para abertura de comércio; cidades do interior têm feito transferências no entorno para garantir atendimento

Bruno Ribeiro e José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2020 | 12h00

Pacientes de covid-19 que precisam de internação no interior do Estado já têm sido transferidos para hospitais da cidade de São Paulo, que vive uma estabilização do número de novos casos, em uma inversão da situação que ocorreu ao longo do mês de maio.

A Central de Regulação de Oferta dos Serviços de Saúde (Cross), órgão do governo do Estado que controla a oferta de vagas de internação para direcionar a demanda aos locais adequados, já trabalhava com a previsão de que essa situação poderia ocorrer, e informa que, com os arranjos necessários, até o momento nenhuma pessoa que precisou de internação em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) ficou sem vaga.

Só neste domingo, em Campinas, a 97 quilômetros da capital, por exemplo, o governo do Estado informa ter recebido 40 pedidos de internação de pacientes vindos da rede municipal. Destes, três foram encaminhados para a capital.

“Temos uma ‘grade’ de rede de referência, que é regionalizada. Por exemplo: se temos um paciente em Sertãozinho, a referência é Ribeirão Preto. Valinhos, é Campinas. O paciente em Tatuí, vai para Sorocaba. É uma grade com que a gente trabalha há muitos anos”, disse o gerente médico da Cross, Domingos Guilherme Napoli. “Eventualmente, a gente tem de expandir essa grade”, explica.

Napoli ressalta que as transferências acima dos 40 quilômetros de distância são raras e não devem ocorrer com frequência. Destaca ainda que cidades menores, como Jaboticabal, Sertãozinho, Batatais e Monte Alto receberam recentemente respiradores, reforçando as redes locais, para evitar transferências. “Com isso, criou-se mais leitos de UTIs, expandindo a possibilidade de leitos de UTI na própria região. Não vou trazer pacientes de Ribeirão Preto para São Paulo. Agora, Campinas é mais perto”, afirma.

Há três regiões que, segundo Napoli, exigem maior atenção, devido ao maior número de pedidos por vagas para internação: Ribeirão Preto, Campinas e Sorocaba, nesta ordem.

Segundo dados da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade), o número de internações na semana passada na capital, na comparação com a última semana de maio, caiu 10,26%. No caso de Ribeirão, o número aumentou 146%, de 221 para 546 internações. Na média do Estado, o aumento foi de 9,21%. São Paulo tem, ao todo, 8.915 leitos de UTI exclusivos para atendimento da covid-19.

Uma das preocupações relatadas na capital por técnicos da área da Saúde é que, caso o município de São Paulo, que tem 3774 leitos de UTI (somando as redes pública, filantrópica e privada), passe a receber muitos pacientes do interior, a cidade poderia voltar à classificação “laranja” do Plano São Paulo, que determina o fechamento de bares, restaurantes, barbearias e salões de beleza. O percentual de lotação das UTIs é um dos critérios para a classificação por cor, e haveria temor de que o dado da capital poderia ficar artificialmente elevado, inflado por pacientes de outras cidades.

O médico Napoli, entretanto, afirma que o número de pacientes que a capital já recebeu ou deverá receber ainda é muito pequeno ante a infraestrutura instalada, e afasta essa possibilidade.

Cidades do interior também fazem transferências para outros municípios

Na sexta-feira, 26, Jonas Donizette informou ter enviado um pedido ao governo estadual para que as cidades da região pudessem absorver parte dos pacientes da covid-19 que moram em municípios do entorno de Campinas. O objetivo seria evitar que o envio desses pacientes para hospitais estaduais em Campinas, como o Hospital das Clínicas e o Ambulatório Médico de Especialidades, causasse sobrecarga na rede hospitalar da cidade, que é polo regional.

Donizette lembrou que a cidade já havia socorrido a Grande São Paulo quando a pandemia era mais forte no entorno da Capital. “Lá atrás vocês lembram quando São Paulo passou apuros, Campinas recebeu pacientes de Ferraz de Vasconcelos e de Franco da Rocha, cidades da Região Metropolitana. Nós estamos pedindo agora uma via de mão dupla.” Se houver a ajuda, Campinas pretende usar os leitos do HC e AME também para moradores da cidade.

Nesta segunda, Campinas tinha lotação em torno de 90%, com 39 leitos de UTI desocupados. Segundo o secretário Carmino de Souza, a média de permanência em UTI, que era de 20 dias no início da pandemia, caiu para 14 dias. Conforme o secretário, a Secretaria da Saúde do Estado ofereceu leitos em São Paulo para pacientes de Campinas, porém, para a transferência desses pacientes seria necessário um sistema de transporte sanitário exclusivo. Na semana passada, com os leitos da cidade lotados, a prefeitura de Sorocaba transferiu cinco pacientes de covid-19 para hospitais da capital paulista.

Com todos os leitos de UTI para pacientes com coronavírus ocupados, a prefeitura de Sorocaba recorreu a um intercâmbio com Itu, cidade vizinha, para atender um paciente que precisou de internação, na semana passada. Conforme o município, a prefeitura de Itu havia encaminhado dias antes um paciente morador de lá para um hospital público de Sorocaba. Assim, não houve dificuldade em conseguir a troca, com a oferta de uma vaga para o paciente sorocabano na Santa Casa de Itu. Conforme a prefeitura, a busca pelas vagas é feita através do sistema Cross (Central de Regulação de Oferta de Serviços de Saúde) do Estado.

Esse fluxo acontece desde antes da pandemia, mas agora se tornou intenso e cercado de maiores cuidados, por se tratar de doença altamente contagiosa. Por isso a opção é por transferências regionais, de menor distância. Na mesma semana, quando chegou a ter 100% dos leitos de UTI ocupados, Sorocaba havia conseguido a liberação de sete vagas para pacientes na capital e em Itapevi, na região metropolitana de São Paulo, mas não houve a necessidade de transferência, pois surgiram vagas em hospitais da cidade e da região.

Com 98,2% dos leitos de UTI para a covid-19 ocupados nesta segunda-feira, 29, a prefeitura de Ribeirão Preto recorreu ao Cross para transferir um paciente para um hospital de Jaboticabal, na região norte do Estado. Um dia antes, um paciente de Jaboticabal havia sido encaminhado para um hospital de São José do Rio Preto. Em Rio Preto, apesar do aumento no número de casos, a situação hospitalar ainda é considerada estável, com menos de 50% de ocupação dos leitos de UTI.

Entre hospitais de Botucatu e Bauru também houve trocas de pacientes com coronavírus. O intercâmbio é maior entre hospitais estaduais, mas acontece também entre unidades hospitalares mantidas pelos municípios. A ocupação de leitos pelos pacientes da covid-19 acabou deixando na fila de espera portadores de outras doenças, que não encontram vagas pelo sistema Cross. Só em Bauru, nesta terça-feira, 30, havia 24 pacientes nessa fila, um deles - uma idosa de 61 anos - estava há seis dias esperando uma vaga para neurocirurgia.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.