São Paulo recolhe 1,3 milhão de contraceptivos

Um terço das amostras de anticoncepcionais analisadas pela Secretaria de Saúde estava comprometida: a maioria por falhas na composição

Felipe Oda, Jornal da Tarde

01 Julho 2011 | 09h20

Pelo menos 1,3 milhão de anticoncepcionais irregulares que seriam distribuídos pelo Programa de Saúde da Mulher, da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, foram recolhidos nos últimos quatro anos pela Vigilância Sanitária. Quase um terço do medicamentos analisados (28%) apresentaram problemas na quantidade do princípio ativo, o que pode comprometer a eficácia do contraceptivo - e alguns (1% da amostra) tiveram falhas de rotulagem.

A secretaria não informou se medicamentos com qualidade comprometida chegaram a ser entregues às mulheres no período. Foram identificados com problemas 34 lotes de Noregyna, do laboratório Cifarma; Norestin, da Biolab Sanus; Nociclin e Contracep, do EMS. Por meio de nota, os fabricantes afirmaram ao JT que os lotes foram recolhidos e não chegaram ao varejo.

A situação mais grave foi encontrada entre os anticoncepcionais injetáveis: a maioria das amostras analisadas (55%) apresentou problemas. Já entre os comprimidos, 10% das pílulas analisadas tinham algum tipo de irregularidade. Coordenadora das análises, a pesquisadora Blanca Markman, do Adolfo Lutz, ressalta que os "desvios mais sérios" foram observados na "composição físico-química" dos medicamentos.

Volume menor

"Registramos contraceptivos com volume menor que o adequado (no caso dos injetáveis)", afirma Blanca. Para garantir a quantidade correta do medicamento injetável, os fabricantes devem colocar um pouco a mais na ampola ao declarado na embalagem. "O volume declarado é de 1 milimetro, mas o fabricante deve colocar 1,15 ou 1,18 milimetro. É uma margem de segurança para evitar que o líquido se perca na agulha. Em outras situações, a ampola era tão pequena que impossibilitava a ‘agitação’ da substância."

Os contraceptivos injetáveis também apresentaram problemas de aspecto da substância, com a presença de nódulos. "É outro problema de má formulação do produto. A substância pode entupir a agulha ou ocasionar graves lesões após a aplicação, como necrose muscular", fala Blanca.

As pílulas também tiveram problemas de dosagem. "No ensaio (teste) de dissolução (dos comprimidos), que avalia a liberação do fármaco em determinado tempo, os lotes insatisfatórios não liberaram a quantidade certa", detalha Blanca. Segundo ela, as falhas inutilizam o princípio ativo dos anticoncepcionais. "Com a liberação menor, a absorção do organismo também será menor. Pode comprometer a eficácia terapêutica."

Blanca explica que as caixas dos anticoncepcionais reprovados não informavam o nome genérico da substância ativa nem o telefone do Serviço de Atendimento ao Consumidor (SAC) dos fabricantes. Ao todo, de 2007 a 2010, o Instituto Adolfo Lutz analisou 154 amostras de anticoncepcionais - entre injetáveis, de emergência e pílulas tradicionais.

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