Marcelo Chello/CJPress
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São Paulo tem 12 mil testes aguardando análise para o novo coronavírus

De acordo com a Secretaria Estadual da Saúde, desse total, 500 testes são de pacientes graves

Fabiana Cambricoli, Giovana Girardi, Paloma Cotes e João Ker, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2020 | 14h15
Atualizado 22 de julho de 2020 | 09h50

SÃO PAULO - Estado brasileiro mais afetado pelo surto de novo coronavírus, com 1.517 casos e 113 mortes, São Paulo tem 12 mil testes parados no Instituto Adolfo Lutz aguardando análise. Sem capacidade para fornecer rapidamente o resultado do crescente número de exames recebidos, o laboratório tem levado até 15 dias para emitir os laudos. A epidemia, portanto, já deve ter alcançado números muito maiores sem que muitos casos entrem nas estatísticas oficiais.

O número de testes aguardando análise foi informado pelo secretário estadual da Saúde, José Henrique Germann, em coletiva de imprensa na tarde desta segunda-feira. Fontes da pasta ouvidas pelo Estado afirmam que é alto o volume de amostras que chegam a cada dia e o número de exames represados já chegou a 20 mil.

A situação tornou-se crítica porque o número médio de testes recebidos pelo Adolfo Lutz diariamente equivale ao triplo da capacidade do laboratório de análise. Até a semana passada, o órgão conseguia processar 400 exames por dia, mas vinha recebendo 1.200 amostras. Agora, segundo Germann, o Adolfo Lutz passou a analisar mil amostras diariamente – ainda inferior à demanda diária.

O cenário faz pacientes com sintomas esperarem indefinidamente pelo resultado. O porteiro Eduardo Correia de Melo, de 30 anos, levou dois dias e três idas ao hospital para conseguir passar pelo teste. Quando finalmente o fez, no dia 21 de março, teve a informação de que o resultado demoraria pelo menos dez dias. “Eu já melhorei, piorei, melhorei de novo e ainda não sei o que tenho. Mandei minhas filhas para a casa de parentes por precaução, estou afastado do trabalho sem saber se realmente é a covid. Dá uma agonia”, conta Melo, que fez o teste em um hospital público da zona leste de São Paulo.

A editora Lívia (nome fictício), de 29 anos, fez o teste em um hospital privado, mas, como a amostra também precisa passar pela análise do Adolfo Lutz, ela espera há 15 dias pelo resultado e não tem nem previsão de quando irá recebê-lo. “Eu ligo lá no Adolfo Lutz, a secretária me transfere, mas ninguém atende”, conta.

Ao Estado, a sanitarista Ana Freitas Ribeiro, do Instituto Emílio Ribas, comentou que agora estão saindo resultados de amostras que foram enviadas quando o protocolo ainda era testar somente síndrome gripal em viajantes ou em quem tinha tido contato com alguém confirmado. A estratégia mudou há mais de dez dias para incluir somente casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG). “Houve pedido para dar prioridade a esses casos internados e os de óbito suspeito agora”, disse.

Casos graves

De acordo com a Secretaria Estadual da saúde, 500 dos 12 mil testes ainda em análise são de pacientes com quadro grave. O restante seriam casos considerados leves. “Entre os casos graves, a possibilidade de ter um resultado positivo é alta. Entre os leves, a positividade é bem menor”, disse o secretário Germann. 

Independentemente da gravidade do caso, ter diagnósticos rápidos é fundamental para identificar os pacientes contaminados e isolá-los, segundo especialistas. É essa estratégia que poderia desacelerar a epidemia. “Deveríamos ter diagnósticos disponíveis para qualquer um que procura. Só com essa ampliação poderíamos ter uma ideia real do porcentual de casos positivos e saber se a curva de novos casos está mesmo achatando. Tendo maior disponibilidade de teste e do resultado, daria para fazer uma estratégia de quarentena específica para áreas e pessoas de risco”, diz Expedito Luna, professor de epidemiologia do Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo (FMUSP).

Questionado sobre a demora nos resultados dos testes, o secretário não respondeu. Germann reafirmou apenas que a capacidade do Adolfo Lutz de exames passou de 400 para mil exames por dia. Segundo ele, dentro da rede que vem sendo montada pelo governo do Estado, a partir de hoje serão 3 mil testes por dia, com o apoio também do Instituto Butantã e universidades. A partir do dia 10 de abril, serão 8 mil exames dia, segundo o secretário.

Luna afirma que outros laboratórios pelo Brasil provavelmente estão passando pelo mesmo problema. “Até antes do surto de coronavírus, só três laboratórios públicos do País faziam testes para vírus respiratórios. Agora fizeram uma capacitação para mais laboratórios, mas isso precisa ser validado”, diz. Segundo o Ministério da Saúde, cada laboratório de referência estadual tem feito uma média de cem testes por dia.

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