Saúde da família: residência tem 25% das vagas ocupadas

Índice reflete desinteresse dos recém-formados pela área causado pela falta de status da especialidade, que tem 6% das bolsas do País

Adriana Ferraz e Daniel Trielli, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2013 | 02h09

No Brasil, as leis de mercado ajudam a explicar a falta de profissionais capacitados para atuar como médicos da família. A baixa procura pela residência na área gera pouca oferta nas universidades e, consequentemente, déficit de mão de obra nas unidades públicas de saúde. E, como se não bastasse, as matrículas não preenchem as vagas. A taxa de ociosidade chega a 71%. Na prática, só uma em cada quatro vagas é ocupada.

O índice reflete a realidade de algumas faculdades de São Paulo. O programa de residência da Santa Casa de Misericórdia, por exemplo, tem oito bolsas autorizadas para Medicina de Família e Comunidade, mas só duas estão preenchidas. "Não abrimos todas porque não há procura", diz o presidente da comissão de residência, Rogério Pecchini.

Em outras escolas, como o Instituto Sírio-Libanês de Ensino e Pesquisa, a especialidade nem é oferecida como residência médica, apesar de o hospital comandar parte das equipes de saúde da família da Prefeitura de São Paulo. A demanda por profissionais especializados na área deve forçar a instituição a criar vagas de ensino, mas a expectativa de procura é baixa.

"A atenção básica não oferece status. Os recém-formados buscam isso em especialidades, como cancerologia ou radiologia, em que temos 55 candidatos por vaga. Espero que o Mais Médicos ajude a mudar esse quadro", diz o diretor Roberto de Queiroz Padilha. O programa federal usa a falta de interesse dos brasileiros para justificar a importação de profissionais formados no exterior.

A valorização de especialidades como neurologia e cirurgia plástica provoca uma discrepância na oferta de bolsas para saúde comunitária até onde a demanda por esse profissional é alta. O mapa da distribuição das vagas de residência em Medicina de Família e Comunidade mostra que todos os anos são abertas 702 vagas - só 6% das 11.383 bolsas oferecidas aos formandos de Medicina.

Em quantidade absoluta, Minas Gerais tem o maior número de matrículas nesse tipo de residência: 126. Já no levantamento per capita, Roraima é o primeiro do ranking, com 1,8 vagas por 100 mil habitantes. Na contramão, a chance de achar um médico de família no Piauí, Rondônia e Amapá é zero - não existe ensino específico nos três Estados. Hoje, há 3.253 médicos de família no Brasil - o que representa 0,9% do total de profissionais com registro.

Futuro. Uma das explicações é a falta de perspectiva da carreira. Apesar de alguns locais pagarem salários altos, que chegam a R$ 30 mil mensais para segurar um médico da família, as poucas chances de progresso do serviço público afastam candidatos. Há ainda incertezas sobre a possibilidade de transferência para cidades maiores.

"O Programa Saúde da Família é pouco atrativo. E não se trata de salário. O médico que aceita trabalhar em locais de difícil acesso se sente sozinho. Não há respaldo e apoio que garanta a ele que o trabalho será bem sucedido", diz Gilmar Fernandes do Prado, que coordena a comissão de residência médica da Universidade Federal de São Paulo. Assim, quem aceita trabalhar com saúde da família não é especializado e fica pouco tempo no emprego, geralmente só até conseguir vaga em outra área.

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