Saúde da mulher ainda recebe pouca atenção no Brasil

Aos 37 anos, mãe de dois filhos, a empregada doméstica Lenice de Oliveira Paes carrega um histórico de dificuldades médicas de fazer corar qualquer sanitarista. Mesmo morando numa cidade-satélite de Brasília, Planaltina, Nizinha, como é conhecida, fez de teimosa o pré-natal. "Cansei de chegar ao hospital com consulta marcada e não ter ninguém para me atender. Aí só restava voltar outra vez , outro dia." Ela quase perdeu o bebê, e hoje, passado um ano e meio do parto, não sabe o resultado do seu exame Papanicolau, para diagnóstico de câncer de colo do útero. "Fiz o exame só em fevereiro, quando deu. Mas disseram que só em junho posso pegar o resultado", afirmou. Dificuldade A história de Nizinha ilustra a dificuldade no acesso à saúde enfrentada por mulheres. No País em que o próprio Ministério da Saúde classifica como "inaceitáveis" os índices de morte após o parto, elas muitas vezes têm de viajar para fazer uma mamografia ou esperar meses até conseguir o diagnóstico de um exame de câncer de colo do útero. Um indicador dessas dificuldades está na tese de doutorado da médica sanitarista Ana Maria Costa, defendida na Universidade de Brasília. Para fazer o estudo, ela avaliou questionários preenchidos por secretários de saúde, ou seus representantes, de 927 municípios. Os dados, no entanto, podem ser considerados reflexo da realidade de mais de 5.500 cidades brasileiras. "A integralidade da assistência, como está definida na Constituição, ainda é uma utopia", conclui a pesquisadora. Câncer de mama Os dados, referentes ao fim de 2002 e início de 2003, mostravam que 81,1% dos municípios, por exemplo, não tinham capacidade para fazer diagnóstico do câncer de mama. Menos de 1% das cidades oferecia à mulher atenção integral. E 43,8% não atendiam casos de pré-natal de alto risco, por exemplo. "Os números podem ter melhorado ao longo desses anos. Mas, certamente, no atendimento mais complexo, a situação permanece grave", avaliou. Ana Maria observou uma dificuldade grande em se ampliar o conceito de saúde da mulher. "Os dados mostraram que a preocupação maior é com saúde reprodutiva. Mas há muito mais a ser observado, doenças decorrentes do stress, das mudanças de hábitos, que ficam em segundo plano", comentou. Uma das falhas detectadas por ela foi a grande indicação de pílulas anticoncepcionais e hormônios injetáveis para contracepção. "Claro que são métodos eficazes. Mas nem sempre eles são indicados. Há mulheres que apresentam restrições a este método, mas, ao que parece, isso não vem sendo observado." Pacto Embora a pesquisa tenha detectado uma situação extremamente preocupante, Ana Maria se diz otimista. "Para mim, eles eram reflexo da política dos anos 90. Mas, neste século, as coisas mudaram um pouco", avalia. Entre os avanços citados por ela está o Pacto de Mortalidade Materna e o compromisso firmado agora pelo Ministério da Saúde em reduzir as mortes por câncer de colo do útero e de mama. Nizinha é mais uma que comemora hoje o Dia Internacional da Mulher. Na prática, não viu os avanços nas políticas públicas. "O último parto foi até pior", diz. Hipertensa, ela fez o pré-natal num hospital para gravidez de alto risco. Além da falta de médicos, Nizinha teve de recorrer a clínicas de diagnóstico particular para fazer exames de ultra-som. "Se fosse esperar o hospital, sabe lá quando ia ver o resultado." Mesmo assim, foram 22 consultas. "Muitas de urgência, porque minha pressão subia." No dia do parto, perdendo líquido, ela foi ao hospital. Mandaram-na voltar e fazer um ultra-som em qualquer lugar. "Tive de ligar para meu marido para ele trazer dinheiro." O médico do ultra-som, sensibilizado com seu estado, é que a levou de volta ao hospital, no seu carro.

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