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Tiago Queiroz/Estadão
Saúde lança aplicativo para estimular uso de medicamento sem eficácia comprovada contra covid-19 Tiago Queiroz/Estadão

Saúde lança aplicativo para estimular uso de medicamento sem eficácia comprovada contra covid-19

App destinado a profissionais de saúde recomenda prescrição de medicamentos como hidroxicloroquina, cloroquina e ivermectina

Mateus Vargas, O Estado de S.Paulo

14 de janeiro de 2021 | 10h37

BRASÍLIA - No momento de disparada de mortes pela covid-19 no País, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, aposta em nova arma ineficaz para o controle da pandemia. O general lançou em Manaus (AM), nesta semana, o TrateCOV, um aplicativo que estimula a prescrição de medicamentos sem eficácia comprovada contra o novo coronavírus. O uso do programa é restrito a profissionais de saúde.

Segundo o próprio ministério, após o diagnóstico, que é sinalizado pelo aplicativo a partir de uma pontuação definida pelos sintomas do paciente, o TrateCOV sugere a prescrição de hidroxicloroquina, cloroquina, ivermectina, azitromicina e doxiciclina. O tratamento muda conforme os dados apresentados pelo paciente, segundo a pasta. 

Estes medicamentos não têm eficácia comprovada contra a covid-19, são rejeitados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), mas viraram aposta do governo Jair Bolsonaro no combate à doença. Durante a crise sanitária, o presidente desestimulou o uso de máscaras e do distanciamento social, mas mandou turbinar a produção da cloroquina e buscou doação de hidroxicloroquina, medicamentos hoje encalhados nos estoques do governo federal. O aplicativo também indica o uso do corticóide dexametasona, que é recomendado pela SBI para casos mais graves.

O ministério afirma que o uso do TrateCOV poderá ser "ampliado para outras regiões do país". "A ação do Ministério da Saúde tem como objetivo fornecer mais um mecanismo que dará maior segurança e agilidade no diagnóstico da Covid-19, visando reduzir o risco de internações e óbitos", diz a pasta em nota. 

Mais de 340 médicos de Manaus foram habilitados para usar o aplicativo. O Estadão fez uma simulação no site do TrateCOV, disponibilizado pelo governo. Apontando um caso hipotético de paciente com sintomas recentes da covid-19, como febre e falta de ar, a indicação do aplicativo é o “tratamento precoce”  e a realização de um exame do tipo RT-PCR.

O médico, então, teria de sinalizar se o paciente vai ou não receber o “tratamento precoce”. Se a resposta for “não”, é preciso justificar a escolha, por exemplo, pela “recusa do paciente”, “contraindicação médica” ou “falta do medicamento”. Se a resposta for "sim", são indicados os medicamentos sem eficácia comprovada para a covid-19. 

Em Manaus, Pazuello afirmou, na segunda-feira, 11, que o pilar da estratégia do ministério contra a pandemia é o "tratamento precoce". No vocabulário da pasta e nos documentos oficiais, este tratamento significa a prescrição da cloroquina, entre outros medicamentos. "Diagnóstico não é do teste. Não aceitem isso. É do profissional médico.

O tratamento, a prescrição, é do médico, e a orientação é precoce", disse Pazuello. "A medicação pode e deve começar antes desses exames complementares. Caso o exame lá na frente der negativo, reduz a medicação e tá ótimo. Não vai matar ninguém", completou. 

A capital do Amazonas vive novo colapso de Saúde e não tem oxigênio para todos os pacientes da covid-19. Em nota, a Saúde afirma que enviou 131 respiradores ao Estado, 1.500 cilindros de oxigênio e recrutou profissionais de saúde para permitir a abertura de novos leitos de UTI.

Ainda em Manaus, a equipe de Pazuello fez visitas a unidades de atendimento do SUS. Além de escutarem sobre a crise na cidade, os representantes do ministério deram orientações sobre a suposta evidência de benefícios do "tratamento precoce", segundo apurou o Estadão. A equipe da Saúde foi reforçada por cerca de 10 médicos de outras cidades, entusiastas do "tratamento precoce", que viajaram à capital do Amazonas a convite do ministério. 

Dias antes do périplo pelas unidades de saúde em Manaus, a secretária nacional Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde, Mayra Pinheiro, avisou ao município que as visitas serviriam para estimular adoção do "tratamento precoce". Em ofício enviado à Secretaria de Saúde local, Pinheiro ainda escreveu que seria "inadmissível" Manaus não prescrever antivirais sem eficácia comprovada. O documento foi revelado pela Folha de S. Paulo e obtido também pelo Estadão

Sem citar qualquer prova, o presidente Jair Bolsonaro disse que a crise de saúde em Manaus deve-se à falta do “tratamento precoce”. Bolsonaro desestimula a adoção de medidas eficazes contra a pandemia, como uso de máscara e distanciamento social.

“Não faziam tratamento precoce. Aumentou assustadoramente o número de mortes. Mortes por asfixia, porque não tinha oxigênio. O governo estadual e municipal deixou acabar oxigênio”, disse o presidente a apoiadores na terça-feira, 12.

Por ordem de Bolsonaro, o Laboratório do Exército fez mais de 3,2 milhões de comprimidos da cloroquina. Em novembro, estavam encalhadas mais de 400 mil doses. O País também recebeu cerca de 3 milhões de comprimidos de hidroxicloroquina do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e da farmacêutica Sandoz, mas até a metade de dezembro não conseguiu distribuir nem 500 mil unidades. Além da baixa procura, o fármaco foi enviado em caixas com 100 ou 500 comprimidos e precisa ser fracionado - com custo repassado a Estados e municípios.

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Amazonas e Porto Alegre passam a recomendar remédios sem eficácia comprovada contra covid-19

Governo amazonense, prefeituras de Manaus e de Porto Alegre passaram a defender abertamente o uso de remédios como hidroxicloroquina, azitromicina e ivermectina. Especialista alerta para riscos envolvidos na prática

Bruno Tadeu e Eduardo Amaral, Especiais para o Estadão

14 de janeiro de 2021 | 11h00

O governo do Amazonas e a prefeitura de Porto Alegre passaram a recomendar o uso de medicamentos que não possuem eficácia comprovada no tratamento de pacientes com covid-19. A distribuição pública da hidroxicloroquina, da azitromicina e da ivermectina é incentivada pela gestão do presidente Jair Bolsonaro. Especialistas dizem que a recomendação ignora evidências científicas e cria falsa sensação de que existe um tratamento eficaz contra a doença.

Enquanto vê o número de casos, internações e mortes voltar a subir, a prefeitura de Manaus e o governo do Estado do Amazonas recomendaram publicamente, pela primeira vez, o uso dos medicamentos, conjunto que é chamado pelo governo Bolsonaro de “tratamento precoce”, mesmo sem indicativos de que seja de fato um tratamento.

Em publicação no site da prefeitura, a secretária municipal de Saúde, Shádia Fraxe, disse que reforça “a importância do tratamento precoce para evitar que o quadro clínico se agrave". "Se, clinicamente, o paciente apresentar sintomas que sugiram covid-19, já recebe tratamento e seu quadro de saúde será monitorado por pessoal capacitado para isso”, disse.

Segundo o jornal Folha de S. Paulo, o Ministério da Saúde pressionou Manaus, em ofício, a adotar a cloroquina, em um suposto tratamento precoce contra a covid. Em maio, Bolsonaro chegou a dizer que "quem é de direita toma cloroquina e quem é de esquerda toma tubaína". O tratamento precoce também foi defendido pelo governador do Estado, Wilson Lima (PSC), em live para anunciar apoio da pasta, no último dia 4 de jaEneiro.

Entre os agentes defensores do tratamento precoce estão o sindicato dos médicos e o Conselho Regional de Medicina do Amazonas (CRM-AM). O presidente sindicalista Mário Vianna afirmou que “o Ministério da Saúde tem mais de 150 trabalhos científicos com resultados positivíssimos com tratamento precoce”. Quando perguntado sobre a procedência desses estudos, Vianna disse que “não tem em mãos, mas os documentos estão nas redes sociais”, sem dar detalhes. A prefeitura também foi questionada sobre quais evidências científicas subsidiam o uso desses remédios, mas também não respondeu.

Nova gestão de Porto Alegre adotou medicamentos sem eficácia

Desde a campanha, o novo prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo (MDB), anunciava ser contrário a medidas de restrição para conter a transmissão da covid-19. Tão logo assumiu o governo, Melo cumpriu a promessa, e editou um decreto flexibilizando as restrições impostas pelo antecessor, Nelson Marchezan Jr (PSDB).

Além da mudança em relação ao funcionamento do comércio, e mesmo para realização de eventos, Melo também decidiu adotar o chamado “tratamento precoce”. Os medicamentos que o governo municipal pretende distribuir na rede pública foram entregues pelo ministério sem custos aos cofres públicos municipais.

Médico infectologista, mestre em Ciências Médicas e membro do Comitê Covid da Sociedade Riograndense de Infectologia (SRGI), Ronaldo Hallal diz que a decisão de adotar o “tratamento precoce” não trará resultados práticos sobre o cenário da doença. “Já há estudos clínicos publicados mostrando que esses medicamentos não possuem eficácia mesmo utilizados no 1º, 5º, ou 7º dia. A decisão da gestão Melo de adotar o “tratamento precoce” ignora evidências científicas. Os grupos de decisão revelam que a prefeitura de Porto Alegre não utiliza evidências científicas na elaboração de suas políticas", critica. 

Para Hallal, a indicação do uso do kit cria uma falsa sensação de existir um tratamento para a doença, o que prejudica as medidas de isolamento, o que na avaliação dele é justamente o objetivo do governo. “Sinaliza com a mensagem errada que essa doença tem tratamento, o que pode comprometer as medidas de isolamento.”

O governo municipal defende a distribuição do medicamento como uma decisão entre médico e paciente. De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde (SMS), o governo tem seguido a orientação e as bases científicas do Ministério da Saúde para adotar o tratamento precoce. 

Questionada sobre o parecer de comitês científicos, a SMS se limitou a se basear na resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) e do Conselho Regional de Medicina do Estado (Cremers). Nenhuma das duas fala sobre a eficácia do tratamento, apenas dizem que médicos que receitem o “kit Covid” não cometem infrações e casos de efeitos colaterais serão investigados.

O único estudo apresentado pelo governo municipal foi um link do Ministério da Saúde, citado como exemplo. Nele, o governo federal apresenta um artigo publicado na revista The American Journal of Medicine que defende o uso da cloroquina no tratamento precoce. A intenção do governo municipal é distribuir os medicamentos nas farmácias distritais e nas unidades de saúde que funcionam até 22h.

Hallal afirma que os estudos usados pelo ministério não são clínicos. “São comparativos da intervenção com placebo, são basicamente estudos retrospectivos, que tentam associar desfechos clínicos com algo que tenha ocorrido diferente.” Ele cita como exemplo pesquisas feitas nos Estados Unidos, Espanha, e o Coalizão, do qual o Brasil fez parte, que comprovaram a ineficácia da cloroquina no tratamento da covid-19.

O governo municipal vai enfrentar resistência nos próximos dias, já que a bancada do PT na Câmara de Vereadores anunciou que ainda nesta semana entrará com um pedido de providência do Legislativo, além de uma representação na Promotoria de Saúde do Ministério Público, pedindo que os remédios sejam devolvidos ao governo federal.

 

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