Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

‘Se continuar nesse ritmo, vamos ter de rezar’, diz enfermeira de hospital no Tatuapé

Lotação em unidades de terapia intensiva sobe e governo prevê esgotamento de vagas em maio. No Tatuapé, sala de observação foi adaptada para uma semi UTI

Gonçalo Júnior, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2020 | 05h00

A principal Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Municipal Tatuapé, na zona leste de São Paulo, está lotada. Ali, são 32 leitos, dez dedicados aos pacientes de covid-19 e outros 22 para demais ocorrências. Se um novo paciente grave chegar, os profissionais de saúde podem instalá-lo na unidade semi intensiva. São mais sete acomodações, com respiradores e monitores.

O problema é a falta de espaço. Pacientes e funcionários ficam muito próximos, quase uns sobre os outros. Uma terceira opção para os doentes seria a sala de observação, espaço adaptado para ser uma semi UTI. O problema ali é outro: não há respiradores para todo mundo.

“Se os pacientes continuarem a chegar nesse ritmo, a gente vai começar apenas a rezar", disse uma enfermeira da unidade.  Os pacientes são recebidos pelos hospitais, mas os locais de atendimento começam a ser improvisados. 

Nesta quarta-feira, 15, o governo paulista estimou que, até maio, todas as vagas de UTI estarão lotadas no Estado. Os leitos emergenciais que estão sendo instalados em locais como o Hospital das Clínicas, na capital, para evitar o colapso no sistema de saúde, devem ficar lotados até julho.

O Estado tem 3.500 leitos de UTI na rede pública, somando vagas em unidades estaduais, municipais e filantrópicas. Até esta quarta, ao todo 2.508 pessoas estão internadas com sintomas da Covid-19, das quais 1.132 são pacientes  com diagnóstico confirmado para a doença. 

Uma das situações mais sérias é a do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, que é a referência estadual para doenças infectocontagiosas. Ali, nesta quarta, 100% dos 30 leitos de UTI já estão ocupados por pacientes de Covid-19. 

A vendedora Aline Oliveira teve de levar o marido, de 43 anos, ao Tatuapé, por falta de ar. “A enfermeira foi com ele para a porta da UTI e o médico fala ‘aqui não dá’. Foi a mesma coisa no semi-intensivo. Aí mandaram ele aguardar um pouco. Minutos depois, surgiu uma vaga e ele entrou. Mas está lotado”, diz Aline. O Hospital do Tatuapé tem 77% de uso da capacidade de leitos de terapia intensiva para a covid-19.

O Hospital Municipal Alípio Corrêa Neto, que oferece 270 leitos para os moradores de Ermelino Matarazzo e Ponte Rasa, na zona leste, atende cerca de 16 mil pessoas por mês. Com a lotação dos 16 leitos de UTI com covid-19, os espaços que eram do pronto-socorro infantil e também a observação masculina foram destinados para casos de coronavírus. Os funcionários não sabem precisar o número de novas vagas.

“Estamos no momento que precede, em algumas semanas, o crescimento de casos que aconteceu na Europa e nos Estados Unidos. A concentração dos casos no Hospital das Clínicas é importante, mas não é suficiente. Os hospitais de campanha limitam casos graves.  O problema maior é temos de dar uma resposta para este momento, mas também para a perda de profissionais dos últimos anos”, explica Gerson Oliveira, diretor do Sindicato dos Médicos de São Paulo. “Não bastam equipamentos. É preciso saber trabalhar”, completa.

Os problemas ocasionados pelos altos índices de ocupação são relatados pelos profissionais de saúde às entidades de classe.  O Sindicato dos Médicos de São Paulo (Simesp) registra 168 denúncias sobre problemas no ambiente de trabalho. Desse total, 32 foram de “fluxo inadequado de atendimento”. Outras oito foram por “saturação no sistema de saúde”. A maioria ainda é por falta de equipamento de proteção individual (91).

A Secretaria Municipal de Saúde informa que está empenhada na ampliação da rede de saúde, buscando novas formas de prestar o melhor atendimento. Em relação à demanda por respiradores, a intenção do poder municipal é dobrar o número de equipamentos nas próximas semanas.

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