Bruno Kelly/ Reuters
Bruno Kelly/ Reuters

'Se variante for mais transmissível, controle deve ser mais rigoroso', diz infectologista

Médica brasileira que atua no Reino Unido fala da importância da testagem, do isolamento social e do sequenciamento genético para evitar nova explosão de casos de coronavírus no País

Entrevista com

Ana Luiza Gibertoni

Mariana Hallal, O Estado de S.Paulo

17 de fevereiro de 2021 | 11h00

OXFORD - O avanço do número de casos de coronavírus relacionados a variantes possivelmente mais transmissíveis pede que medidas mais duras de enfrentamento à pandemia sejam estabelecidas. É o que afirma a infectologista Ana Luiza Gibertoni, brasileira que trabalha no Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido e acompanhou as consequências que a mutação britânica causou no país europeu. 

Ana Luiza, que também faz doutorado na Universidade de Oxford, diz que o País precisa de um plano robusto de testagem e sequenciamento genético do coronavírus para conseguir combater a pandemia. Medidas de confinamento da população, com controle rígido, também precisam ser implementadas para evitar que as novas variantes se espalhem e se tornem dominantes. Manter as mesmas estratégias pode levar ao aumento significativo de casos, internações e mortes nos próximos meses.

Quais cuidados o Estado deve tomar ao receber pacientes de outros locais?

Espera-se que essas transferências aconteçam com um nível altíssimo de contenção e com uso de equipamentos de proteção individual adequados. Na chegada ao hospital receptor eles devem ser levados diretamente à enfermaria ou à UTI que devem ser muito bem  equipadas e individuais, de preferência em uma ala separada no hospital. Os pacientes devem ser testados e o vírus deve ser sequenciado para confirmar a existência ou não da variante. Se possível, esses pacientes não devem compartilhar o mesmo enfermeiro com outros doentes. É difícil, mas é preciso ter uma estrutura de ponta para esses pacientes transferidos.

O Estado precisa mudar a sua estratégia de combate à pandemia por causa das novas variantes?

Sim. Se existe a evidência de que uma variante com um potencial de maior transmissão está circulando, é imperativo que a estratégia seja diferente da atual. As pessoas precisam ficar em casa, deve haver um lockdown com medidas de controle muito rigorosas. Também é preciso ter um sistema de testagem amplo e robusto e aumentar o sequenciamento do genoma completo do vírus. 

As variantes de Manaus (P1) e do Reino Unido (B.1.1.7) são mais perigosas?

Já foi provado em outros contextos que elas são, sim, mais transmissíveis. São Paulo deve fazer a sua própria análise para saber o quão transmissível essas variantes são no contexto do Estado. É preciso agir primeiro, com medidas mais rigorosas de controle, e analisar depois através do sequenciamento e testagem.

Qual é a importância das estratégias de testagem e sequenciamento?

São importantes para entender o contexto de transmissão em uma determinada região. Isso pode ser feito de maneira aleatória ou em ambientes específicos. A partir disso é possível tomar uma atitude mais certeira: fechar uma enfermaria, separar pacientes, fechar uma universidade. O sequenciamento também serve para entender o surgimento de mutações novas do vírus. A testagem no Brasil é individual, os dados não são usados em estratégia nenhuma. A situação é muito catastrófica. 

O Brasil tem estrutura para fazer mais sequenciamento?

O sequenciamento precisa ser amplo e rápido e dá para ser assim. Mas onde está a infraestrutura pública para fazer isso no Brasil? O País não usa a genômica como política de controle de doenças. Há instituições de pesquisa isoladas ou em colaboração com instituições acadêmicas estrangeiras que fazem esse sequenciamento, mas em ritmo reduzido. Não basta sequenciar, é preciso analisar essa informação. Não há pesquisadores em quantidade significativa para isso. O Instituto de Medicina Tropical da USP é extremamente capacitado, mas não tem equipamento para fazer frente a uma situação dessas de pandemia.

A situação é muito diferente no Reino Unido?

O Reino Unido é o país mais avançado no mundo em termos de sequenciamento genético e já fazia isso muito antes do coronavírus. No início da pandemia foi criado um consórcio formado pelo governo, instituições financiadoras de pesquisa e universidades, com aporte de 20 milhões de libras [cerca de R$ 150 milhões]. A missão é sequenciar o máximo possível o mais rápido possível.

De que forma essa política de sequenciamento ajudou o Reino Unido a combater a pandemia?

Quando o governo percebeu que os casos estavam aumentando muito, em novembro do ano passado, decretou lockdown que durou um mês. O Reino Unido continuou sequenciando o vírus e viu que boa parte desses novos casos estavam relacionados à variante britânica. A estratégia do governo foi implementar um novo lockdown em janeiro e acelerar a vacinação [25% dos britânicos já estão vacinados]. O número de novos casos já caiu significativamente e o de mortes e internações vem diminuindo também.

O que pode acontecer no Brasil se novas medidas não forem tomadas?

Se não houver uma estratégia muito bem coordenada de testagem, lockdown e vacinação em massa, essa variante pode se tornar a dominante. Como ele é mais transmissível, o número de casos, de internações e de mortes vai crescer ainda mais. 

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