REUTERS / Diego Vara
REUTERS / Diego Vara

Secretária da Saúde ignora entidades médicas e diz que havia clamor por orientação sobre cloroquina

Nova orientação do ministério para uso precoce dos medicamentos a pacientes da pandemia, no entanto, contraria o posicionamento das principais entidades científicas do País e do exterior

Mateus Vargas, Brasília

20 de maio de 2020 | 19h32

BRASÍLIA - A Secretária de Gestão do Trabalho e da Educação do Ministério da Saúde, Mayra Pinheiro, disse nesta quarta-feira, 20, que havia "clamor" de sociedades médicas, parlamentares e da população por um posicionamento da pasta sobre a cloroquina. 

A nova orientação do ministério para uso precoce dos medicamentos a pacientes da pandemia, no entanto, contraria o posicionamento das principais entidades científicas do País e do exterior. 

Na terça-feira, três entidades nacionais aprovaram um documento com diretrizes para o enfrentamento da pandemia no qual recomendam que as drogas não sejam usadas como tratamento de rotina da doença. As entidades são a Associação de Medicina Intensiva Brasileira, Sociedade Brasileira de Infectologia e da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendou nesta quarta-feira, 20, que a cloroquina e a hidroxicloroquina sejam usadas apenas em estudos clínicos contra o novo coronavírus, dentro de hospitais.

Em entrevista à imprensa, o secretário-executivo adjunto da Saúde, Élcio Franco, rebateu a posição da OMS. "Se esperarmos que sejam seguidos todos os passos, já vai ter acabado a epidemia e milhares de pessoas morreram", afirmou. Ele afirmou ainda que nenhum princípio "ético e científico" foi negligenciado ao elaborar o documento. "Isso que nosso presidente está zelando no momento. E fica angustiado quando não se oportuniza missão do SUS: equidade, universalidade e a integralidade", afirmou.

Pinheiro também reagiu: "Não estamos nos afastamento da ciência, estamos nos aproximando da necessidade de garantir a vida no tempo de guerra", disse.

A secretária ainda declarou que a "observação clínica" mostra resultados promissores em diversos pacientes. A posição não é a mesma da comunidade científica. 

Pinheiro reconheceu que a orientação não é um protocolo de diretrizes terapêuticas, ou seja, não tem poder de forçar que estabelecimentos do SUS sigam o tratamento. 

Ela afirmou, no entanto, que a recomendação deve reduzir desigualdades no atendimento de pacientes do SUS e rede privada. Na prática, porém, médicos da rede pública também já prescrevem o medicamento, se julgarem necessário e receberem o aval do paciente. 

A secretária disse ainda que, sob a nova orientação, o governo deve ampliar a distribuição de cloroquina ao SUS. Até agora cerca de 2,93 milhões de comprimidos foram entregues para uso de 163,86 mil pacientes da covid-19.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.