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Segunda onda da covid? Cansadas do isolamento, as pessoas baixaram a guarda na prevenção

Estamos sendo alarmados por todos os cantos, não só no Brasil como no mundo todo, pela covid-19

Sergio Cimerman, O Estado de S. Paulo

17 de novembro de 2020 | 05h00

Estamos sendo alarmados por todos os cantos, não só no Brasil como no mundo todo, pela covid-19. A questão de uma segunda onda, como a que está sendo vivenciada em vários países europeus, ainda não mostra força necessária para pontuar em nosso País. Na verdade, não saímos ainda da primeira onda. Vivemos oscilações constantes e isso até mesmo se explica facilmente por sermos um país continental.

Quedas de casos e óbitos tem sido evidentes, sobretudo no Estado de São Paulo, e são amplamente divulgadas pelas autoridades públicas e sanitárias. Além disso, se observa tal afirmação por quem está na linha de frente da pandemia. Tudo rumava ao melhor dos mundos quando recebemos uma enxurrada de mensagens e áudios de WhatsApp denunciando um aumento expressivo da covid-19. Desta vez não se tratava de “fake news”. Fatos verídicos e preocupantes. O que chama a atenção nessas mensagens: é a procura acentuada da população mais abastada, com sinais e sintomas de covid-19 e contactantes próximos com resultados positivos de PCR (exame padrão ouro, com coleta pelo cotonete em nariz e garganta).

Essa procura ocorre nos hospitais privados, com uma gama expressiva sendo internada em situação de moderada a crítica da doença. Os hospitais estão solicitando aos corpos clínicos que sejam revistos procedimentos eletivos para que seja atendida a demanda dos casos suspeitos de covid-19. E, além disso, que o processo de alta hospitalar seja visto com maior agilidade. Atitude correta e auspiciosa. Ao que pode levar isso? Ao famoso colapso das nossas unidades de terapia intensiva. Falávamos isto no início da pandemia. E notamos em muitos locais existir esta demanda. Os hospitais públicos ficaram lotados e com um alto índice de mortalidade à época. Voltar a esta situação me parece bizarro. Sem lugar para as pessoas e termos de escolher quem fica e quem sai.

E por que está acontecendo? Resposta dura e realista. As pessoas cansaram do isolamento e baixaram a guarda nas medidas preventivas. Realizam festas, baladas e encontros. Tudo regado a boa comida e muita bebida alcoólica. São apenas os jovens? Eles são a maioria, mas a faixa de idade dos 40-55 anos não deixa por menos.

Precisamos urgentemente conscientizar a população novamente, explicando as medidas de proteção que são o único método efetivo no momento. A polarização pelos medicamentos ditos salvadores da pátria, tais como cloroquina/hidroxicloroquina, ivermectina e tantos outros, parece não permear mais a ignorância, sendo mudado o foco para a questão da vacina. Uns lutam contra e outros a favor. Isto é saúde pública mundial. Não disputa política partidária. Temos de torcer pelo sucesso de qualquer vacina e, após aprovação em nosso órgão regulatório, passarmos à logística de distribuição.

Falando em política, as eleições são outro ponto que não poderíamos deixar de comentar. Em muitos locais aconteceram aglomeração ao redor do Brasil. Na cidade de São Paulo, observei em vários pontos muita tranquilidade e orientação adequada. Já na TV se mostrou muito descuido em locais pequenos e não preparados em vários rincões brasileiros. Precisamos aperfeiçoar isso em 15 dias, até o segundo turno.

Estamos surfando onde? Descaso, ignorância, cansaço, menosprezando a gravidade da doença. Vamos voltar a nos unir em combater o novo coronavírus. Não podemos cair na retórica de que nada acontece comigo, que tenho condições para me tratar ou algo similar. Não estamos perto nem longe do fim da pandemia. As festas estão por chegar. Vamos nos organizar. Faço um apelo à população: cuide-se.

COORDENADOR CIENTÍFICO DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE INFECTOLOGIA E MÉDICO DO INSTITUTO DE INFECTOLOGIA EMÍLIO RIBAS

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