A.J. Mast/The New York Times
A.J. Mast/The New York Times

Seguro viagem cobre o vírus zika?

Segundo especialistas, a aposta mais segura é comprar pacote mais abrangente, que pode ser cancelado sem qualquer motivo

Mike Tierney, The New York Times

18 Março 2016 | 13h55

Até recentemente, o conhecimento sobre o vírus zika era em grande medida limitado aos leitores de guias de doenças infecciosas que chegavam à última página.

Esse grupo não incluía Jennifer Durst Lussier, de Indianápolis, nos Estados Unidos, que comprou passagens de avião por US$ 1.300 com o marido no final do ano passado para uma semana de férias, a começar em 27 de fevereiro, em Antígua. Ela também gastou US$ 98 pelo seguro de viagem da Allianz Global Assistance.

Não adiantou muito para ela.

Conforme a viagem se aproximava, o casal Lussier começou a ouvir falar do mosquito carregado de vírus que pode ser nocivo a mulheres grávidas - e ao filho que ela carrega. A situação está mais espalhada na América do Sul.

"Então, explodiu no noticiário", disse Jennifer, cuja filha vai nascer em 5 de agosto.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou o zika um caso de emergência de saúde pública e pediu que as mulheres grávidas evitassem visitar as áreas afetadas. O Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC, na sigla em inglês) ecoou a recomendação e declarou seu nível mais elevado de alerta de viagem - é apenas a quarta vez que o organismo fez isso por questões de saúde.

Quando o obstetra implorou para que o casal reconsiderasse, os Lussiers cancelaram a viagem e buscaram o reembolso da Allianz. O caso foi negado.

"Quando você começa a ler as letras miúdas, o seguro não cobre quase nada, a não ser que você morra", disse Jennifer.

O casal descobriu o que muitas outras pessoas com seguro de viagem também descobriram.

As apólices padrão não costumam incluir a cobertura pelo cancelamento de viagem mesmo que o viajante corra um risco acentuado de um surto de doença. Mesmo a carta do médico do paciente pode não influenciar a seguradora.

"Se você for comprar uma apólice, dê uma olhada nela", disse Jim Grace, diretor executivo da InsureMyTrip, site de comparação de seguro para viagem que orienta consumidores acerca de apólices que atendem suas necessidades ou preocupações e as combinam com as propostas das seguradoras.

"Existe um motivo" se um plano não custa muito, ele explica.

Segundo especialistas, a aposta mais segura é comprar um pacote mais abrangente, conhecido por poder ser cancelado sem qualquer motivo. Porém, essas apólices costumam custar 20% a mais do que as outras e só cobrem 75% das penalidades do cancelamento, disse Dan Skilken, presidente da Tripinsurance.com, que vende apólices de quatro das maiores seguradoras dos Estados Unidos.

Ele acrescentou que o seguro de viagem não cobriu surtos anteriores de vírus globais nem de epidemias, como o caso de Sars na Ásia, em 2002, ou de ebola na África Ocidental dois anos atrás.

Natasha Wiest, de Slidell, Louisiana, suplementou os US$ 1.912 que pagou por três passagens para sua família viajar em março para o casamento da melhor amiga em Belize com uma apólice de US$ 123 da Transamerica Casualty Insurance.

Em seu ultrassom da 20ª semana, Natasha mencionou a viagem ao obstetra, que respondeu com uma pergunta: "Em vez disso, você não pode ir à Califórnia?".

Ela cancelou a viagem, mas ainda não recebeu a devolução.

"Eles não disseram não e acabou", contou ela, mas soube que a gravidez em si não era base para aceitar a reclamação que ainda pretende fazer. "Não dizem especificamente no plano, sim ou não, se vão cobrir uma doença específica. O texto é vago", relatou Natasha.

Grace concordou com a opinião. "Não são apólices fáceis de ler."

Um porta-voz da Transamerica disse que os planos variam e que nem todos eles incluem a gravidez como condição passível de cobertura. A empresa oferece devolução de qualquer transação em até dez dias após a compra.

Outro complicador é o fato de que muitas apólices são obtidas no site da empresa aérea ou em um site como o Expedia quando as passagens são compradas e os compradores não gastam muito tempo para examinar as coberturas.

Os planos que cobrem tudo costumam cobrar de 10% a 12% do custo da viagem, segundo Grace, enquanto as opções mais frugais variam de 4% a 8%.

Clark Howard, advogado especializado em defesa do consumidor de Atlanta, não defende seguro de viagem, apenas quando a maior parte ou toda a viagem foi paga com antecedência, como no caso de um cruzeiro ou uma viagem em grupo.

Todavia, é diferente no caso de eventos imprevistos como golpe militar ou uma crise de saúde ao chegar ao destino.

"Se esse tipo de coisa o preocupa, se você é do tipo que diz que há atividades terroristas acontecendo agora, e que viajar tem que ser algo divertido, e que não vai mais, então é preciso estar preparado no caso de ter comprado uma apólice tradicional. Eles não vão pagar", disse ele.

As apólices de viagem disponíveis cobrem custos médicos, mas, geralmente, são compradas em separado das apólices que indenizam o custo de uma viagem.

De 20% a 25% dos viajantes obtêm indenização do seguro de viagem, segundo Grace, com as transações chegando ao pico em função de ocorrências como os atentados a bomba na França em novembro. O vírus zika ainda não gerou a mesma reação, mas ele disse que os questionamentos no InsureMyTrip saltaram 20% nas últimas semanas.

Sua empresa oferece 300 apólices, incluindo uma sob medida para mulheres grávidas, por meio de 30 seguradoras.

Inúmeras férias - incluindo muitas de futuros pais antes do nascimento do filho - foram interrompidas com preocupações sobre o vírus.

Viajantes expressaram surpresa que, após ser recusado pela seguradora, o pedido de indenização foi aprovado pelas companhias aéreas. Como um todo, o setor aéreo se tornou menos relutante em conceder reembolso.

Jennifer se sentiu aliviada quando a Delta devolveu todo o valor pago pela família.

O casal transferiu a viagem para o final de abril, para a Itália, onde o vírus não criou alarme.

Ela está comprando o seguro viagem.

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