Ueslei Marcelino/Reuters
Presidente Jair Bolsonaro e o novo ministro da Saúde, Nelson Teich.  Ueslei Marcelino/Reuters

Seis dias depois de assumir Ministério da Saúde, Nelson Teich segue estudando o novo coronavírus

Teich se comprometeu em entregar as 'diretrizes' do que será feito no País daqui a uma semana

André Borges e Julia Lindner, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2020 | 19h15

BRASÍLIA - Seis dias depois de ser escolhido para assumir o comando do Ministério da Saúde, Nelson Teich disse que ainda está estudando a situação do novo coronavírus no País e que precisa de mais informações para agir. De concreto, não anunciou nada além do nome de seu novo “braço-direito”, o secretário-executivo do ministério, general Eduardo Pazuello, que na realidade é uma escolha pessoal do presidente Jair Bolsonaro. O novo ministro conheceu seu maior aliado no Ministério da Saúde só nesta segunda-feira, 20.

Em sua primeira entrevista coletiva, Nelson Teich voltou a repetir hoje afirmações de seu primeiro discurso. “A gente sabe muito pouco da doença”, disse o ministro. “A informação sobre a doença é crítica. A impressão que eu tenho é que a gente tem que ser muito mais eficiente do que é hoje. É uma corrida contra o tempo”, disse o ministro.

Desde o primeiro discurso de Teich, na quinta-feira passada, até agora, os dados oficiais saltaram de 30.420 casos de contaminações para 45.757 casos nesta quarta-feira, 22. São mais de 15 mil novos casos confirmados. Sobre o número de mortos, são quase 1 mil óbitos no mesmo intervalo, saindo de 1.924 mortos para os atuais 2.906 mortos.

Em uma frase de seu discurso rápido, parecia até mesmo emular os jargões usados por Bolsonaro. “A gente tem de tentar entender melhor isso aí”, comentou. De raciocínio mais conciso que o de seu antecessor no ministério, Luiz Henrique Mandetta, Teich sinalizou que prepara uma “diretriz” para que Estados e municípios de todo o País comecem a executar planos de retomada das atividades e econômicas, a partir da flexibilização do isolamento social, como quer Bolsonaro.

“É impossível um País viver um ano, um ano e meio parado. Um programa de saída, isso é que a gente vai desenhar e dar suporte para estados e municípios”, disse o novo ministro. Ao mencionar o general Eduardo Pazuello, procurou fazer uma defesa do novo secretário-executivo. “Acredito que ele possa de verdade ajudar a criar um programa de crescimento compatível com a necessidade que nós temos hoje”, disse.

Daqui a uma semana, Teich se comprometeu em entregar as “diretrizes” do que será feito no País. O Ministério da Saúde, na prática, repassa orientações a Estados e municípios. Governadores e prefeitos têm liberdade para acatá-las ou não, pois o Supremo Tribunal Federal (STF) impôs uma derrota ao Palácio do Planalto e já decidiu que prefeitos e governadores podem definir medidas de isolamento social para enfrentar a pandemia.

“O Brasil é gigante e heterogêneo. Na semana que vem, estamos entregando um modelo que possa ser usado como parâmetro”, disse Teich, sem dar mais detalhes sobre o assunto. “Não tem fórmula mágica. As soluções não são boas ou ruins, são bem ou mal usadas. A situação é difícil, complexa, mas com certeza temos condições de passar por ela, deixar o sistema de saúde mais forte pro pós-covid.”

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Teich ignora subnotificação ao dizer que Brasil tem 'melhor' desempenho contra o coronavírus

Ministro da Saúde mostra dados diferentes dos usados pela própria pasta; fala desagradou técnicos do ministério, que dizem que comparação é incorreta, pois a falta de testes não permite afirmar quantos casos e mortes o País tem de fato

Mateus Vargas, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2020 | 20h44
Atualizado 23 de abril de 2020 | 14h33

BRASÍLIA - Ao afirmar que o Brasil é um dos países com melhor desempenho contra a covid-19, o ministro da Saúde, Nelson Teich, ignorou a larga subnotificação de casos da doença no País.

"O Brasil hoje é um dos países que melhor performa em relação a covid. Se você analisar mortos por milhão de pessoas, o número do Brasil é de 8.17. A Alemanha tem 15. A Itália 135. Espanha 255. Reino unido 90 e EUA 29", disse Teich nesta quarta-feira, 22, em sua primeira entrevista à imprensa no cargo.

A fala desagradou gestores da saúde e técnicos do ministério ouvidos pela reportagem. Reservadamente, eles dizem que a comparação é incorreta, pois a falta de testes não permite afirmar quantos casos e mortes o País tem de fato.  

Os dados apresentados por Teich de mortos por milhão são, ainda, distintos de números usados como base pelo próprio Ministério da Saúde. A Alemanha tem 63 mortos por milhão pela covid. A Itália, 415 e o Brasil, 14. Os dados de Estados brasileiros são discrepantes. Amazonas (45 por milhão), Pernambuco (24), Rio de Janeiro (23), São Paulo (23) e Ceará (22) tem coeficiente de mortalidade muito alta, segundo dados de terça-feira, 21, do Ministério da Saúde. Procurada, a pasta não informou qual foi a fonte usada pelo ministro.

Segundo boletim do Ministério da Saúde de terça-feira, 21, o Brasil registrou 366% mais hospitalizações por síndrome respiratória aguda grave (SRAG) em 2020 do que em 2019. O dado sugere um largo número de pacientes da covid-19 sem diagnóstico.

A diferença de hospitalizações nas últimas semanas é gritante, comparada ao mesmo intervalo do ano anterior. Na "semana epidemiológica 13", que se encerra no fim de março, foram 11.797 internações em 2020 contra 1.123 em 2019. Cerca de 9 mil casos desta semana ainda estavam investigação até segunda-feira.

"Os nossos números são um dos melhores. Qual o problema da covid? Ela assusta porque acomete muito rápido o sistema. E os sistemas de saúde não são feitos para ter ociosidade. Você tem de trabalhar com eficiência máxima. Saúde é muito caro. Não dá para trabalhar com ociosidade. Os hospitais trabalham no limite. Quando tem algo que sobrecarrega o sistema, é quase impossível você conseguir se adaptar na velocidade necessária", disse Teich.

Para o médico Julival Ribeiro, porta-voz da Sociedade Brasileira de Infectologia, comparar a performance do Brasil com outros países no combate a covid-19 exige mais testes e mais dados. O ministério promete ter em mãos 46,2 milhões de testes na crise, mas só entregou 2,5 milhões até agora aos Estados. Destes, apenas 524,3 mil são do tipo RT-PCR, usado para um diagnóstico definitivo da doença.

"Nos Estados com isolamento social a gente postergou um pouco (o crescimento de casos). Eles não vêm ocorrendo ao mesmo tempo. Mas a gente nunca viu tanta pneumonia. Será que não é covid? Mas não temos testes de diagnóstico?", disse Ribeiro.

Após questionamentos da reportagem, o Ministério da Saúde enviou o seguinte posicionamento: "No mundo, a média de mortalidade por milhão de habitante é de 21. Países como EUA (133), Espanha (446), Itália (393), França (292) e Reino Unido (239) possuem mais de 100 óbitos por milhão de habitante. O Brasil tem 12."

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Paraquedista, número 2 da Saúde tem experiência em logística

General Eduardo Pazuello assume cargo de secretário executivo na pasta sob o comando de Nelson Teich

Tânia Monteiro, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2020 | 21h14

BRASÍLIA – O novo secretário executivo do Ministério da Saúde, general Eduardo Pazuello, é paraquedista, assim como o presidente Jair Bolsonaro e grande parte dos militares que atuam no primeiro escalão do governo. Durante dois anos, Pazuello comandou a Operação Acolhida, em Roraima, pela qual recebeu prêmio de direitos humanos junto com agências da Organização das Nações Unidas e o Exército, pela resposta humanitária dada ao atendimento aos venezuelanos. Também exerceu vários comandos na área de logística, o que foi decisivo para a sua escolha para o novo posto. 

“Quando eu falo em relação a trazer o general, é que eu acredito que ele possa, de verdade, ajudar que a gente consiga criar um programa de ajuste e crescimento compatível com a necessidade que a gente tem hoje”, disse nesta quarta-feira o ministro da Saúde, Nelson Teich, referindo-se à adaptação da infraestrutura médica e hospitalar do País para lidar com o avanço da doença.

Embora tenha nascido no Rio de Janeiro, o novo número 2 da Saúde tem uma forte ligação com Manaus, onde estava servindo desde janeiro, como comandante da 12ª Região Militar. O sistema público da capital do Amazonas já entrou em colapso com o avanço da pandemia do novo coronavírus.

Como estava em Manaus, o general acompanhou de perto a deterioração do sistema público de saúde estadual e ajudará agora na busca de soluções para os problemas que atingem a região amazônica. Uma de suas novas missões é controlar toda a logística de saúde do País e organizar a operação de distribuição de equipamentos. 

Em 2016, Pazuello foi o coordenador logístico das tropas do Exército empregadas nos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos no Rio de Janeiro. Na época, trabalhou sob o comando do atual ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva. Também é próximo do general Luiz Eduardo Ramos, ministro-chefe da Secretaria de Governo.

Além de ter feito cursos de operações na selva, de paraquedismo e forças especiais, comandou o 20° Batalhão Logístico Paraquedista e foi diretor do Depósito Central de Munição, ambos no Rio de Janeiro, assessor de Planejamento, Programação e Controle Orçamentário do Comando Logístico, e comandante da Base de Apoio Logístico do Exército.

O novo secretário executivo da Saúde entrou no Exército em 1984, ainda está na ativa e, com a nomeação, ficará afastado da Força por até dois anos, para assumir um cargo de natureza civil. A passagem para a reserva está prevista para março de 2022.

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Ministro da Secretaria de Governo diz que cobertura da imprensa sobre covid-19 não está ajudando

Para o general Luiz Eduardo Ramos, notícias sobre a pandemia limitam-se à exposição de 'caixões e corpos'

André Borges e Julia Lindner, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2020 | 20h00

BRASÍLIA - O ministro-chefe da Secretaria de Governo, general Luiz Eduardo Ramos, aproveitou a divulgação de dados sobre o coronavírus nesta quarta-feira, 22, para disparar acusações contra a cobertura que a imprensa tem feito sobre a pandemia do novo coronavírus. Em sua avaliação, a cobertura limita-se à exposição de “caixões e corpos”.  

‘Nós, do governo Jair, desde que começou essa crise do coronavírus, nós temos observado uma cobertura maciça dos fatos negativos. Nós temos informações já comprovadas de pessoas que estão em suas casas... todos sabem, que os noticiários entram nos lares brasileiros todos os dias. Os senhores hão de convir que nós temos pessoas muito suscetíveis a essas notícias”, disse o ministro, que assim prosseguiu: “Com todo respeito, no jornal da manhã é caixão, é corpo. Na hora do almoço é caixão novamente, é corpo. No jornal da noite, é caixão e é corpo e números de mortos”. 

O general aproveitou a coletiva de imprensa sobre a covid-19 para, inclusive, sugerir pautas aos jornalistas. “Divulguem o trabalho maravilhoso do pessoal de saúde, façam matérias de médicos, de pessoas que estão dando suas vidas contra a doença”, disse. 

“Eu pergunto a todos, como que os senhores acham que uma senhora de idade, uma pessoa humilde, ou uma pessoa que sofre de outra enfermidade, se sente com essa maciça divulgação desses fatos negativos? Não está ajudando”, disse Ramos. “Ninguém aqui está dizendo que tem que esconder. Tem tanta coisa positiva acontecendo... É muita notícia ruim, eu sei que está acontecendo. Mas vamos também divulgar notícia boa.”

O ministro reclamou que o porcentual de 56% das pessoas que contraíram coronavírus e foram curadas da doença não tem sido divulgado. O dado faz parte da cobertura diária da imprensa e consta dos boletins publicados há semanas pelo Ministério da Saúde.

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