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Felipe Rau/ Estadão
Felipe Rau/ Estadão

Sem abraçar filhos há quase um ano, idosa toma vacina em SP: 'A situação não é brincadeira'

Ney Maciel Renno, de 85 anos, se comunica com familiares apenas por meio de ligações ou chamadas de vídeo; residenciais de idosos têm recebido equipes de imunização

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

23 de janeiro de 2021 | 14h00

A professora aposentada Ney Maciel Renno, de 85 anos, entrou no salão nos trinques, de brinco nas orelhas, as unhas bem feitas e um lenço estampado, preso na gola, combinando com a camisa de botão. Sem demora, ofereceu o braço direito à enfermeira para receber a vacina contra a covid-19. Em vez de careta, a paciente encarou a agulha e sorriu: “É uma doença que está dando em todo mundo e o ser humano precisa de proteção”.

A primeira etapa da campanha de imunização em São Paulo prevê atender profissionais de saúde e grupos considerados de risco – entre eles, indígenas, quilombolas e moradores de residências para idosos. Na manhã dessa sexta-feira, 22, foi a vez de equipes de saúde do Município levarem caixas térmicas com doses da Coronavac, por enquanto a única vacina aplicada no Brasil, para o Residencial Santa Cruz, na zona sul da capital paulista, onde dona Ney e outros 47 idosos moram.

Por causa da pandemia, a professora conta que não pode abraçar os próprios filhos há quase um ano e só se comunica com familiares por meio de ligações ou chamadas de vídeo. “Todas as noites, assisto ao noticiário na TV e vejo que a situação não é brincadeira”, diz. “Procuro sempre me enfronhar sobre o que está acontecendo no mundo, porque só assim a gente consegue transformá-lo.”

Com a mobilidade limitada, após um problema no joelho, dona Ney também precisa usar cadeira de rodas e inicialmente reagiu com preocupação à notícia de que seria vacinada, ainda na noite anterior. “Mas como é que vão me levar até o posto?”, quis saber. “Fiquei muito satisfeita quando disseram que os enfermeiros vinham até aqui.”

Por mais segurança, o Residencial Santa Cruz transformou um auditório amplo, onde normalmente aconteciam palestras, em sala de vacina. Os janelões, com vista para o jardim, foram abertos. As filas de cadeira, removidas. Os idosos eram trazidos dos apartamentos aos poucos, não mais do que trios. Sentados ao fundo, funcionários da instituição anotavam o CPF e a carteirinha do SUS de quem era vacinado.

Antes de aplicar as doses, no entanto, a administração do residencial precisou pedir aval às famílias dos idosos. Só uma se recusou a autorizar a vacina, segundo relata Diego Rodrigues Leme, o responsável técnico da área clínica da instituição.

O residencial recebeu, ao todo, 140 doses, distribuídas entre os moradores, funcionários de saúde e cuidadores que lidam diretamente com os idosos. “Nossa relação com a UBS Campo Grande é muito boa, porque todos os anos a gente já apresenta o projeto para vacinação contra H1N1 e gripe”, explica Leme. “Assim que eles receberam o primeiro lote, conseguiram encaixar a gente do dia para o outro, tudo muito rápido. Mesmo porque a orientação é não ficar estocado, até para evitar roubos e assaltos.”

A vacinação começou ainda antes das 11 horas e a primeira imunizada foi a freira Diane Cundiff, de 75 anos, da Congregação das Irmãs da Santa Cruz, instituição mantenedora do residencial. Uma salva de palmas marcou a aplicação da dose. “Para mim, foi uma surpresa. Nunca achei que estaria na primeira leva”, afirma. “Recebi a vacina com muita esperança e alívio: é um sinal que, como País, a proteção das pessoas está funcionando.”

No Estado, a campanha teve início no último domingo, 17, logo após autorização para uso emergencial da Coronavac, concedida pela Anvisa. De acordo com plataforma de monitoramento, lançada pelo governo João Doria (PSDB), 94,9 mil pessoas já teriam sido vacinadas até 17h30 desta sexta.

“Não doeu nadinha”, comentou Alcídia Teixeira Marchio, de 90 anos, que tem “uma porção de bisnetos” e mora no Santa Cruz. Segundo conta, entretanto, ela não estava ansiosa para receber a dose da Coronavac – apesar de ter pintado as unhas de escarlate e se enfeitado com colar, pulseira e dois anéis para o evento. “Foi uma vacina como outra qualquer”, diz. “A verdade, menino, é que eu não me preocupo mais com nada.”  

Há três anos morando no residencial, onde gosta de passar o tempo bordando e costurando, Maria Therezinha Falcão Ledo, de 88 anos, discorda da amiga. “É muito bom ter sido uma das primeiras vacinadas… A gente estava numa incerteza medonha”, afirma. “Não vejo a hora de poder ver meus filhos e comprar minhas linhas. No dia que abrir tudo de novo, vou sair correndo por aí até onde o corpo aguentar.”

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