Eduardo Munoz/Reuters
Eduardo Munoz/Reuters

Sem dar detalhes, Bolsonaro diz que Brasil pode comprar vacina da Moderna contra covid

Presidente comentou sobre a possibilidade em transmissão ao vivo em rede social, sem informar se há negociação em andamento; ele também voltou a dizer que vacinação contra novo coronavírus será gratuita e não obrigatória

Redação, O Estado de S.Paulo

01 de janeiro de 2021 | 14h44
Atualizado 01 de janeiro de 2021 | 16h48

Em transmissão ao vivo em rede social, o presidente Jair Bolsonaro comentou na quinta-feira, 31, que o Brasil poderá comprar doses da vacina contra a covid-19 desenvolvida pela empresa norte-americana Moderna. Ele não abordou detalhes de como o acordo poderia ocorrer.

O presidente citou um artigo científico publicado nesta semana no New England Journal of Medicine, que aponta eficácia de 94% do imunizante, a mesma anunciada antes pela empresa de biotecnologia. Ele também comentou sobre o início da vacinação em países como os Estados Unidos, a Alemanha e o Reino Unido, mas não abordou quando esse tipo de ação começará no País.

“Além da Pfizer, temos uma outra agora que se apresenta no momento, a Moderna, que poderá ser adquirida pelo Brasil", afirmou. 

Desenvolvida em parceria com o Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (Niad, na sigla em inglês), dos Estados Unidos, a vacina da Moderna está autorizada para uso nos Estados Unidos, desde 18 de dezembro, e no Canadá. Ela pode ser acondicionada em geladeiras por um mês e, se congelada, por até seis meses. 

No começo de dezembro, a Moderna disse que espera entregar até 125 milhões de doses no primeiro trimestre de 2021, a maioria (de 85 milhões a 100 milhões) será destinada aos Estados Unidos. O País tem um acordo com a empresa para o fornecimento de 200 milhões de doses, o suficiente para imunizar 100 milhões de norte-americanos.

Questionado pela reportagem, o Ministério da Saúde informou que existe um memorando de entendimento com a Moderna e com outros laboratórios. A pasta citou reuniões com representantes da Moderna em novembro de 2020, além de outros quatro grupos - Pfizer, Janssen, Bharat Biotech e Fundo Russo de Investimento Direto (RDIF) - cujas vacinas estavam em fase avançada de desenvolvimento.

“No momento, há acordos e memorandos de entendimento firmados, a partir dos quais deverão ser efetuados contratos, a fim de disponibilizar o quanto antes a maior quantidade possível de doses de vacina para imunizar a população brasileira”, destacou a Saúde. 

No caso da Moderna, o que existe é um memorado de entendimento não vinculante, que trata da intenção de um acordo para aquisição de vacinas, podendo sofrer alterações de cronograma e quantidade de doses. A pasta solicitou informações de preços, estimativa de entrega e os dados científicos sobre as três fases de estudos e testes da vacina.

Na live, Bolsonaro destacou, ainda, que mantém contato diário com o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, sobre a pandemia no País. Ele também voltou a dizer que a vacinação contra o novo coronavírus não será obrigatória, mas voluntária, declarando que não tomará o imunizante por já ter sido infectado pela doença.

“Parte da população clama por elas. Então, quem está querendo a vacina a gente vai acertar. Da nossa parte, é grátis e não obrigatório”, declarou. 

Além disso, dentre outros assuntos, reclamou que o preço das seringas está mais alto na pandemia. Uma tentativa recente de compra de seringas e agulhas pelo Ministério da Saúde fracassou, em que, das 331 milhões de unidades pretendidas, somente foram ofertadas 7,9 milhões em pregão eletrônico realizado na terça-feira, 29. O número corresponde a cerca de 2,4% do total de unidades que a pasta desejava adquirir. 

Grande aposta do governo brasileiro é vacina da AstraZeneca 

Ao mesmo tempo em que desdenham de propostas levadas por farmacêuticas ao governo, o presidente e Pazuello têm dito que qualquer vacina com registro da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) será comprada e incorporada ao plano de imunização contra a covid-19.

Apesar de ter citado a Moderna, a grande aposta do governo federal segue sendo a vacina que será fabricada e distribuída pela Fiocruz, desenvolvida pela Universidade de Oxford e a farmacêutica AstraZeneca. A expectativa é de que um pedido de registro ou de uso emergencial da vacina seja apresentado à Anvisa até a metade de janeiro. A Fiocruz afirma que 210,4 milhões de doses deste imunizante serão distribuídos no País neste ano.

Além do acordo da Fiocruz, o governo assinou memorandos de entendimento com a Pfizer/BioNTech, Janssen, Instituto Butantã (que produz a Coronavac, da chinesa Sinovac), Bharat Biotech, Moderna e Instituto Gamaleya. Estes documentos, porém, não obrigam a compra dos imunizantes.

O governo tem dito que só fechará novos acordos após o registro da Anvisa. Nesta semana, Bolsonaro questionou a razão de nenhum fabricante ainda ter levado pedidos à agência. "O Brasil tem 210 milhões de habitantes, um mercado consumidor de qualquer coisa enorme. Os laboratórios não tinham que estar interessados em vender para a gente? Por que eles não apresentam documentação na Anvisa?", disse Bolsonaro a um grupo de apoiadores no Palácio da Alvorada, em Brasília.

A vacina citada por Bolsonaro, da Moderna, não passou por estudos clínicos no Brasil. Assim, o caminho para receber o registro na Anvisa ainda seria longo e poderia exigir estudos e certificações adicionais. Quatro laboratórios trouxeram as suas análises ao País: AstraZeneca, Butantã, Janssen e Pfizer/Biontech. O Instituto Gamaleya, que desenvolve a vacina Sputnik V, aguarda o aval da Anvisa para começar estes estudos no País.

No guia para orientar o pedido de uso emergencial, a Anvisa afirma que este aval só será concedido se houver pesquisa de fase 3 pelo menos em andamento no País. Trata-se da última etapa de estudos antes de o produto estar apto para ser distribuído.

Com permissão para uso emergencial, uma fabricante pode distribuir as suas vacinas a um público restrito do SUS, como de profissionais de saúde ou idosos. A Anvisa espera avaliar este tipo de pedido em 10 dias.

Já o registro definitivo da vacina permite a distribuição ampla, inclusive ao setor privado. O prazo máximo de análise de pedidos de registro é de 60 dias.

Técnicos da agência estimam que devem levar menos tempo para as análises, caso as empresas já tenham enviado parte de sua documentação por meio da ferramenta da “submissão contínua”. Os laboratórios AstraZeneca, Butantã, Janssen e Pfizer/Biontech usam este caminho. /COLABOROU EDUARDO RODRIGUES

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