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José Rivera viu o filho Bernardo, de três anos, sucumbir à covid-19 uma semana depois de testar positivo EPITACIO PESSOA/ESTADAO

Brasil é o 2º país com mais mortes de crianças por covid

Levantamento feito pelo Estadão leva em conta países com mais de mil mortes por milhão de habitantes e que tenham pelo menos 20 milhões de habitantes

Mariana Hallal e Bruno Luiz, especial para o Estadão

07 de junho de 2021 | 10h00

Lorena viu a filha Maria, de 1 ano e 5 meses, morrer em seus braços. Com diagnóstico tardio, Lucas, de um ano, filho de Jéssika, enfrentou diversas complicações relacionadas à covid e morreu. José Rivera viu o filho Bernardo, de três anos, sucumbir à covid-19 uma semana depois de testar positivo.

Eles não são exceções. Até meados de maio, 948 crianças de zero a nove anos morreram de covid no Brasil, segundo dados do Sistema de Informação de Vigilância da Gripe (Sivep-Gripe) compilados pelo Estadão. Sem políticas de proteção à infância, sem controle da pandemia e com escolas fechadas, o Brasil fica em segundo lugar no triste ranking de crianças vítimas da covid, atrás apenas do Peru.

A cada um milhão de crianças de zero a nove anos existentes no País, 32 perderam a vida para a covid. No Peru, país com o maior número de mortes dentre os 11 analisados, foram 41 por milhão. As vizinhas Argentina e Colômbia tiveram 12 e 13 mortes por milhão, respectivamente.

Para a análise, foram considerados os países que registraram pelo menos mil mortes por milhão de habitantes e que possuem mais de 20 milhões de habitantes. Polônia e Ucrânia, que entrariam na lista, foram excluídas pela ausência de dados. O cálculo foi feito pelo Estadão com apoio de Leonardo Bastos, estatístico da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). 

Nos países europeus, o cenário foi completamente diferente. O Reino Unido e a França registraram apenas quatro mortes de crianças de zero a nove anos, o que dá uma taxa de 0,5 morte por milhão em cada um dos países. No continente, o maior número foi registrado na Espanha. Lá, a cada um milhão de crianças, três morreram por covid — um décimo do índice brasileiro.

Fátima Marinho, epidemiologista Sênior da Vital Strategies, uma organização global de saúde pública, explica que o sistema de saúde do Peru é muito mais precário que o do Brasil. Por isso, já era esperado que o país andino registrasse índices piores. “O serviço público de saúde do Peru é muito mais incipiente. Não trata nenhuma doença cara, por exemplo”, diz.

Ainda na América Latina, o Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro tinha capacidade para lidar melhor com a pandemia em comparação aos sistemas mexicano e colombiano, segundo Fátima. No entanto, nossos índices de mortalidade e descontrole são bem piores.

“O México tem um plano popular de saúde, mas é muito restrito. Quem não paga pelo menos esse plano, morre na calçada. Esses tipos de sistema de saúde são um desafio. Com exceção da Argentina, Chile e Uruguai, estávamos mais bem preparados que os outros países latinos para enfrentar a pandemia”, fala a epidemiologista.

A maior parte das mortes aconteceu em maio do ano passado, quando 131 crianças de zero a nove anos perderam a vida para a covid-19 no Brasil. Em seguida, vem abril deste ano, com 99 óbitos. Os números de maio de 2021 ainda não estão consolidados. Os bebês de até dois anos foram as principais vítimas, correspondendo a 32,7% das mortes analisadas.

Crianças negras morreram mais

De acordo com os dados do Sivep-Gripe, 57% das crianças mortas pela covid no Brasil eram negras (grupo que inclui pretos e pardos). As crianças brancas correspondem a 21,5% das vítimas, as amarelas (de origem asiática) 0,9% e 16% não tiveram a raça indicada. 

A morte entre indígenas também foi bastante expressiva. Apesar de representarem apenas 0,5% da população brasileira, 4,4% das crianças que perderam a vida para a covid no Brasil eram indígenas. Em números brutos, foram 42 mortes, a maioria no Mato Grosso (12) e no Amazonas (11). 

Fátima Marinho fala que, devido à desigualdade social, o índice de mortalidade entre as crianças negras já era maior antes da pandemia. A covid veio para ampliar essa desigualdade. “Muitas das crianças negras residem em moradias superlotadas, com adultos que precisam sair para trabalhar, que têm empregos mais expostos ao vírus, que pegam transporte público. Dessa forma, a carga viral que chega para a criança é muito grande”, diz. 

Os indígenas, por sua vez, são naturalmente mais suscetíveis ao vírus. “É uma forma clássica de exterminar indígenas no Brasil. Foi assim com o sarampo, a gripe, a influenza…”. Por serem mais suscetíveis, a epidemiologista acredita que eles deveriam estar muito mais protegidos. “Por que ainda não vacinamos todos os indígenas acima de 12 anos?”, questiona. Países como os Estados Unidos já autorizaram a vacinação de adolescentes acima de 12 anos com o imunizante da Pfizer, disponível no Brasil.

A epidemiologista Ethel Maciel, professora da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), aponta o fim do Mais Médicos como um dos motivos para o alto índice de morte, principalmente entre as populações negra e indígena. Um dos objetivos do programa era garantir atendimento básico de saúde a comunidades mais afastadas, com estrutura precária. “Não houve uma substituição dos profissionais. Os locais de mais difícil acesso, com população carente, enfrentaram dificuldades no atendimento médico”.

Falta de políticas públicas

A falta de uma coordenação nacional sobre os rumos da educação no País é uma das principais críticas das especialistas. As escolas ficaram fechadas durante praticamente toda a pandemia no Brasil e agora, mais de um ano depois, ainda não há investimentos em readequação da estrutura. Países como o Reino Unido, por exemplo, já lançaram programas nacionais de suporte à educação para reverter as perdas causadas pela pandemia.

“O Ministério da Educação desapareceu, ninguém viu, ninguém sabe. Teve o orçamento cortado em uma época que deveria ter investido na estrutura das escolas”, critica Ethel. Ela também fala que faltam critérios para direcionar a abertura e o fechamento de escolas.

Sem aulas, sem auxílio emergencial que cubra todas as despesas da casa e com a retomada das atividades, as crianças pequenas, especialmente as mais vulneráveis, ficaram mais expostas porque seus pais precisaram sair para trabalhar. “A gente abriu a possibilidade para algo que acontecia no Brasil na década de 80, as mães crecheiras”, diz Ethel. O termo refere-se a mulheres que cuidam de um grupo de crianças, geralmente do mesmo bairro, em troca de algum valor. 

Para Fátima Marinho, as crianças deixaram de ser prioridade no País. “O Estado brasileiro abandonou as crianças à própria sorte. Cortaram a escola e não deram outra alternativa”, diz. Ela também critica a falta de políticas públicas voltadas à proteção da infância. “Além da covid, as crianças sofrem com a violência dentro e fora de casa”, aponta.

As duas epidemiologistas dizem que é necessário um movimento federal para adequar as escolas à nova realidade. “A pandemia vai durar cinco anos, na previsão otimista. As crianças vão ficar sem escola por cinco anos?”, questiona Fátima.

As soluções apontadas por elas passam pela criação de salas com menos alunos, contratação de professores mais jovens para preservar os mais velhos e testagem em massa. Outra alternativa é instalar filtros HEPA, que evitam a propagação de vírus através do ar. “Se colocar as crianças como prioridade e expandir o orçamento da educação, dá para montar alternativas”, diz Fátima.

Metodologia

Para a análise, usamos os dados oficiais de cada um dos 11 países. Para obter a taxa de mortes por milhão, dividimos o número de óbitos por covid de crianças de zero a nove anos pelo número total de habitantes dessa faixa etária de cada país. Os dados sobre número de habitantes são da Organização das Nações Unidas.

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Testagem tardia leva à subnotificação de casos de covid em crianças no Brasil

Falta de profissional adequado e escassez de testes para diagnosticar a covid-19 podem fazer com que as crianças cheguem já debilitadas à UTI

Mariana Hallal e Bruno Luiz, especial para o Estadão

07 de junho de 2021 | 10h00

Desde o início da pandemia, 948 crianças de zero a nove anos morreram de covid-19 no Brasil. O número, no entanto, provavelmente é bem maior. A falta de testes ou até mesmo a testagem tardia esconde, pelo menos, outras 1,5 mil mortes nessa faixa etária.

A projeção é da epidemiologista Sênior da Vital Strategies, Fátima Marinho. Ela aponta que a subnotificação de mortes por covid-19 em crianças dessa faixa etária pode chegar a 160%. Com a correção, seriam quase 2,5 mil vítimas. 

Um dos problemas que leva a isso, diz, é a escassez de testes. “Já ouvi médicos dizendo que não testam crianças porque tem pouco teste e, se testar a criança, vai faltar para o adulto”, conta. Dessa forma, o teste para coronavírus só é feito, em geral, em crianças que apresentam a forma grave da doença. Mesmo nesses casos, o RT-PCR pode vir tarde demais, quando o vírus já não está mais presente na nasofaringe, gerando um resultado falso negativo.

Vivian Botelho Lorenzo, intensivista pediátrica do Instituto Couto Maia e do Hospital do Subúrbio, unidades que são referência no atendimento à covid em Salvador, orienta os pais a buscarem sempre um pediatra para avaliar os filhos. “Muitas vezes os médicos generalistas não têm os cuidados específicos necessários”, diz.

Dentre os sinais mais comuns da covid em crianças, ela cita sintomas respiratórios que podem evoluir para a falta de ar, além de sintomas gastrointestinais. “Crianças que evoluem com diarreia e vômito tendem a apresentar quadros mais graves da doença”, observa. 

A dica da pediatra é monitorar os sintomas da criança e, em caso de agravamento, procurar atendimento médico. Se a criança tiver cansaço, febre alta persistente e estiver ‘molinha’, com pouca disposição e pouco apetite, ela precisa ser avaliada. Mas se a criança continuar ativa, brincando e se alimentando e se hidratando normalmente, não é necessário buscar a emergência.

Segundo Vivian, um dos fatores que mais influenciam na morte de crianças por covid são doenças crônicas pré-existentes. Os dados do Sivep-Gripe mostram que 55% das crianças que morreram em decorrência da doença apresentavam fatores de risco.

Internações

Nos hospitais em que Vivian trabalha, as crianças podem ter a companhia dos responsáveis durante a internação, apesar de o coronavírus ser muito contagioso. “A gente acredita que isso faz parte do cuidado do paciente e auxilia na recuperação. Não separamos de forma alguma as crianças dos pais”, diz.

No Brasil todo, pelo menos 15 mil crianças foram internadas com covid-19, sendo 3,6 mil em leitos de UTI. Em alguns casos, conta Vivian, é necessário algum tipo de terapia com oxigênio medicinal. No País, 1,3 mil crianças foram submetidas à ventilação invasiva (como a intubação) e outras 4,7 mil precisaram de suporte respiratório não invasivo, como máscaras de oxigênio.

Síndrome pós-covid

Além das complicações respiratórias associadas à covid, a Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica (SIM-P) vem preocupando os pais. A doença costuma surgir de três a seis semanas após a infecção por coronavírus e pode acometer inclusive as crianças que tiveram a forma leve da covid ou ficaram assintomáticas.

Os principais sintomas são febre acima de 38ºC por três dias ou mais, conjuntivite, pressão baixa, alterações cardíacas, alterações na coagulação sanguínea, vômito, diarreia, dor abdominal e marcadores de inflamação elevados. A síndrome pode afetar crianças e adolescentes de zero a 19 anos que tiveram contato com o coronavírus.

O último boletim do Ministério da Saúde com informações sobre a SIM-P mostra que 903 crianças foram acometidas pela doença no Brasil e, destas, 61 morreram. Os dados vão até 17 de abril deste ano. A maior parte dos casos foram relatados nos Estados de São Paulo, Minas Gerais, Bahia e Pará.

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Maria, de 1 ano e 5 meses, morreu nos braços da mãe; conheça histórias de crianças vítimas de covid

Maria enfrentou a doença por quase um mês, Lucas desenvolveu síndrome rara e Bernardo piorou rápido. 'Estadão' reúne histórias de crianças que morreram em decorrência do novo coronavírus

Mariana Hallal e Bruno Luiz, especial para o Estadão

07 de junho de 2021 | 10h00

Na manhã de 11 de março deste ano, os médicos desligaram os aparelhos que mantinham com vida a pequena Maria, de um ano e cinco meses, após uma luta de quase um mês contra a covid-19. Quando morreu, a bebezinha não tinha idade suficiente para entender o que era a pandemia que a levou. Mas a assistente social Lorena Ferrari, mãe da menina, sabe bem o que é saudade.

Em 15 de fevereiro, uma segunda-feira, Lorena percebeu que Maria estava com febre e que a respiração da criança não estava normal. Resolveu, então, levar a bebê a um hospital particular de Varginha, no sul de Minas Gerais, onde vive a família. Uma médica plantonista avaliou a menina e achou que aqueles sintomas eram de gripe, sem qualquer gravidade. A mãe ainda chegou a pedir um raio X para o pulmão e insistiu que a respiração da filha estava estranha, mas a profissional disse que o procedimento era desnecessário porque iria expor a bebê à radiação. A médica mandou Maria para casa, mas pediu um teste de covid para ela, que seria realizado na quinta.

A pequena piorou nos dias seguintes. Na quarta, a mãe a levou novamente ao hospital. Assim como da primeira vez, a médica de plantão não quis auscultar o pulmão da bebê, relata Lorena. Preocupada, ela foi até o consultório da pediatra que acompanhava a menina, e uma avaliação rápida apontou que a criança estaria com pneumonia. De volta ao hospital, Maria passou por um raio X, que apontou que seu pulmão estava 25% comprometido.

Sem UTI pediátrica para covid na cidade, a pequena foi levada para Pouso Alegre, já intubada, na noite de quinta. A partir daí, o quadro só se agravou. No sábado, ela teve uma parada cardíaca de 24 minutos, mas foi reanimada. Na segunda, Lorena percebeu que a filha não tinha mais nenhum reflexo. Os médicos, então, deram a notícia que ela mais temia: Maria havia sofrido morte cerebral. O desfecho da história, entretanto, só aconteceria 22 dias depois, em 12 de março.

“Os médicos precisavam fazer exames para diagnosticar a morte cerebral, mas, para fazer os procedimentos, eles precisavam diminuir a quantidade de oxigênio que Maria recebia. Quando eles diminuíam, a saturação dela caía. Isso não é permitido por lei. A gente teve que esperar até 11 de março, quando a saturação dela estabilizou. Eles fizeram os exames e constataram a morte cerebral. No dia seguinte, os órgãos dela foram deixando de funcionar, e os médicos foram desligando os aparelhos. Ela morreu nos meus braços”, relata Lorena.  

A mãe de Maria passou a usar antidepressivos e remédios para dormir. Começou a trabalhar no RH de uma empresa, fazendo trabalhos administrativos, para tentar ocupar um pouco a cabeça. Precisa estar bem para cuidar da filha mais velha, de 10 anos, que também sofre com o luto da morte da irmã - as duas eram muito apegadas. Para ajudar a lidar com a dor, Lorena criou uma página no Instagram, onde posta fotos e textos sobre a filha. “É muito delicado lidar com a ausência.”

Lucas, de um ano, era filho único e a maior alegria de Jéssika

Os primeiros sintomas de Lucas, de um ano, surgiram em 8 de maio do ano passado. O menino, que nunca rejeitava uma mamadeira, passou a apresentar falta de apetite, além de febre. Filho único, veio inesperadamente, e era a maior alegria da professora Jéssika Ricarte, que havia passado dois anos tentando engravidar, sem sucesso.

Diante dos sinais que a criança apresentou, Jéssika resolveu levar o filho a um pronto-socorro municipal de Tamboril, cidade a 300 km de Fortaleza, capital cearense. Um exame com oxímetro mostrou que a saturação de Lucas estava em 86, o que já indicava a necessidade de oxigênio suplementar. Mesmo com isso, o médico se recusou a testá-lo para a covid-19 e disse que o quadro da criança não era mais que uma dor de garganta. “Antes de existir covid, existem outras doenças, mãe”, disse o profissional, segundo relato de Jéssika. 

A professora acreditou no médico -  não sabia que aquele nível de saturação exigia tratamento rápido - e voltou para casa, acreditando que estava tudo bem. Iniciou um tratamento de dez dias com antibióticos, receitados pelo profissional, e percebeu que o filho estava melhorando com os medicamentos. 

Com o fim do tratamento, no entanto, Lucas começou a piorar. “Quando parei de dar os antibióticos, percebi que a respiração dele não tinha voltado ao normal”, conta. O menino passou a ficar muito sonolento, cansava com movimentos simples e passou a vomitar muito. Jéssika resolveu levar o filho ao hospital novamente, em 3 de junho. O médico que o atendeu pediu teste de covid, que deu positivo, e o garoto passou a receber máscara de oxigênio. 

Lucas precisava de uma UTI pediátrica. Foi transferido, então, para o Hospital Regional de Sobral, cidade com mais estrutura para tratar casos graves da doença. Uma tomografia mostrou que seu pulmão estava comprometido e que seria preciso intubá-lo com urgência para melhorar a oxigenação. Durante o processo de intubação, a criança sofreu uma parada cardíaca, mas foi reanimada. Jéssika viu tudo.

Na UTI, a criança piorou. Uma tomografia apontou que ele estava com miocardite, uma inflamação no miocárdio, músculo do coração. O quadro mostrava que Lucas tinha desenvolvido a Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica (SIM-P), enfermidade grave e rara associada à covid-19, e que pode ser mortal.

O garoto iniciou um tratamento com imunoglobulina para diminuir a inflamação. Reagiu bem após algumas doses e conseguiu retomar as funções normais do coração. Mas, em 28 de junho, um novo problema: Lucas teve um derrame causado pela covid.

Àquela altura, depois de tantos agravamentos no quadro de saúde, era improvável que os pais recebessem em casa o mesmo Lucas que conheciam antes da internação, caso ele sobrevivesse. Apesar dos prognósticos negativos, a criança começou a reagir, e os médicos passaram a vislumbrar a possibilidade de a criança receber alta da UTI.

Em 8 de julho, uma chamada telefônica feita pelo hospital pôs fim a essa esperança. Temendo que a ligação trouxesse a notícia que menos desejava, Jéssika atendeu com apreensão. Do outro lado da linha, a médica dizia que Lucas se recuperava bem, mas teve uma parada cardíaca na madrugada, decorrente de um mal súbito. Os profissionais tentaram reanimá-lo por 45 minutos, sem sucesso. Apesar de lutar com valentia, Lucas perdeu a batalha travada contra a covid por mais de um mês.

“Quando meu filho morreu, isso destruiu a minha vida e a do meu marido, a dos avós dele. O primo dele, de 8 anos, tem problemas psicológicos porque vive esse luto tão cedo. Eu tô com tanta saudade do meu filho. É muito, muito difícil”, desabafa.

A postura do presidente Jair Bolsonaro frente à covid torna a morte de Lucas mais dolorosa para Jéssika. “Eu estou fazendo terapia para o meu luto e, no luto, tem uma fase que é a da raiva. O objeto da minha raiva foi o presidente. É muito triste você, como mãe, ouvir alguém menosprezar uma doença e a vida de outras pessoas. Você é o líder do nosso país, você deveria dar o exemplo.” 

“Quando o Lucas faleceu, eu achei que tinha sido um castigo meu. No dia 7 de julho (um dia antes do Lucas falecer), eu saí do hospital e vi que o Bolsonaro tinha testado positivo para a covid. Eu não queria que ele morresse, mas eu queria que ele sentisse metade do que meu filho está sentindo, para ele reconhecer que essa doença é séria.”

Bernardo, de três anos, morreu uma semana depois de ser diagnosticado com covid 

Bernardo Rivera, de três anos, tinha a saúde debilitada por um afogamento sofrido em setembro do ano passado e recebia cuidados em uma estrutura de UTI montada dentro de casa. Ao contrair o coronavírus, acabou não resistindo: morreu uma semana depois de testar positivo para a covid. 

O pai, José Rivera, exibe força ao falar sobre a morte do filho. Diz que precisa apoiar a esposa, que sofre muito com a ausência de Bernardo. “Eu vejo que ela acorda no meio da noite, sem ar, chorando pela falta dele.” Mas a serenidade é apenas uma das formas de se lidar com o luto. A saudade não deixa de ser dolorosa. “A dor de um pai enterrar um filho é muito grande. Nós sentimos isso na pele, sabemos o quanto é difícil. Uma criança com tanta vida pela frente…”, lamenta. 

Mesmo com a dor da perda, Rivera, vereador em Alumínio, cidade da Região Metropolitana de Sorocaba (SP), tenta usar a visibilidade do seu mandato para mostrar que a população precisa se proteger. Ele ressalta a importância de que autoridades políticas liderem o processo de conscientização da população sobre as medidas de combate ao coronavírus.

“Depois do que aconteceu, muita gente vem falar comigo, vem perguntar a minha opinião. Essa é a importância que tem a nossa voz para a população. Eu quero conscientizar as pessoas. Se o Bernardo salvar uma vida, eu fico contente”, diz ele.

O vereador culpa o presidente Jair Bolsonaro pelas mais de 460 mil mortes causadas pela doença no Brasil. Assim como ele, Rivera achou que a covid seria uma doença leve, uma gripe mais forte, que mataria apenas as pessoas com comorbidades. Mas, ao contrário do chefe do Executivo, mudou de ideia ao perceber o agravamento da pandemia. Antes do filho, ele perdeu um cunhado para a doença, também este ano. 

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