Sem estrutura, direção de hospital vai à polícia

Diretores de unidade no Rio registraram B.O. informando que não têm como atender pacientes; salários estão atrasados

Clarissa Thomé, O Estado de S. Paulo

21 Dezembro 2015 | 22h55

Diretores do Hospital Estadual Albert Schweitzer, em Realengo, na zona oeste do Rio, registraram boletim de ocorrência na 33.ª Delegacia de Polícia informando que não têm condições de atender pacientes. Médicos e enfermeiros estão com salários atrasados e também faltam insumos. De acordo com funcionários da instituição de saúde, metade dos leitos foi fechada. 

A decisão dos médicos de registrar na delegacia a impossibilidade de atendimento é uma das faces da crise financeira pela qual passa o Estado. A dívida com fornecedores, só na Saúde, chega a R$ 1 bilhão, desde o início do ano. No total, 15 Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), operadas pelo governo estadual, também estão funcionando precariamente. 

O Hospital Albert Schweitzer é referência para politraumatizados na zona oeste da cidade, com 500 leitos e 4,2 mil funcionários. Ali, funciona uma maternidade para grávidas de alto risco. No fim de semana, pacientes foram orientados a procurarem unidades municipais, como o Hospital Miguel Couto, na zona sul, a 46 quilômetros, e o Hospital Souza Aguiar, no Centro, a 38 quilômetros. 

Somente os que estavam em estado grave foram admitidos. A triagem foi feita muitas vezes do lado de fora do Albert Schweitzer. Houve casos em que as enfermeiras foram até o carro para medir a pressão e encaminhar o doente para outra instituição. Uma das UTIs estava lacrada por cadeado; 40 leitos desses estão fechados. 

Cautela. Os diretores decidiram registrar o boletim de ocorrência como forma de se resguardar de possíveis acusações de omissão de socorro. A delegacia não vai abrir investigação porque não se tratava de comunicação de crime, mas de relatos de ordem administrativa, mas vai intimar representante da Secretaria de Estado de Saúde para cobrar explicações sobre a interrupção do atendimento na instituição. 

A crise no Albert Schweitzer já é antiga e apenas se agravou com a falta de recursos. Parentes de pacientes internados se queixam de que é constante que apenas um dos elevadores da instituição funcione – o prédio tem onze andares e por esse único elevador que funciona são transportados pacientes, visitantes, alimentos, lixo hospitalar e corpos. A fila chega a durar 1h. 

Além do Albert Schweitzer houve protestos no Hospital Rocha Faria, em Campo Grande, na zona oeste. De acordo com o Conselho Regional de Medicina, 15 Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) administradas pelo governo do Estado também estão com atendimento afetado pela crise – há falta de insumos a profissionais de saúde. 

O governo tem priorizado o pagamento dos salários de servidores, mas como as UPAs são administradas por organizações sociais (OSs), esses pagamentos são registrados como feitos a “prestadores de serviço” e os repasses estão em atraso.

A entrada do Hospital da Mulher Heloneida Studart, referência para grávidas de alto risco, foi fechado por tapumes. Os médicos informaram que os medicamentos só davam para suprir a necessidade das pacientes já internadas. 

Em nota, a Secretaria da Fazenda informou que “está buscando receitas extraordinárias que possibilitem a geração de recursos para que sejam realizados os pagamentos à Saúde”. “Os pagamentos serão realizados assim que houver recursos disponíveis em caixa”, afirma.

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