Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Sem insumo, Butantan interrompe produção e reduz pela metade previsão de entrega de vacina em maio

Governador João Doria citou entraves diplomáticos para atraso na liberação de exportação do IFA pelo governo chinês; previsão de entrega de maio era de 12 milhões de doses e cerca de 5 milhões devem ser entregues

Paula Felix, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2021 | 11h43

SÃO PAULO - A produção da Coronavac, vacina contra a covid-19 do Instituto Butantan em parceria com o laboratório chinês Sinovac, foi interrompida por falta de Insumo Farmacêutico Ativo (IFA). O anúncio foi feito pelo governador João Doria (PSDB) nesta sexta-feira, 14, durante a entrega do último lote da primeira etapa do contrato de 46 milhões de doses da vacina para o Programa Nacional de Imunizações (PNI), do Ministério da Saúde.

A situação também vai impactar na previsão de entrega de doses para o mês de maio, de acordo com o instituto, o número seria de 12 milhões de doses, mas o repasse deve ser de pouco mais de 5 milhões. Segundo a gestão estadual, o cronograma de vacinação anunciado será cumprido, mas é possível que o ritmo seja desacelerado para que não ocorram interrupções. 

"Não temos mais insumos, mais IFA, para a produção de vacinas Coronavac, que até aqui abasteceram 70% de todo o sistema vacinal do País. Não temos porque o governo da China ainda não liberou o embarque de 10 mil litros de insumos que estão prontos, destinados ao Instituto Butantan pelo laboratório Sinovac, que correspondem a aproximadamente 18 milhões de doses da vacina, absolutamente necessários para manter a frequência do sistema vacinal, acelerar e, principalmente, atender aqueles que precisam tomar a segunda dose da vacina", disse o governador.

Doria voltou a afirmar que o atraso para a liberação está ligado a ofensas que o presidente Jair Bolsonaro e membros do governo federal fizeram ao governo chinês e à China, algo que acabou interferindo nas negociações.

"Todos sabem que temos um entrave diplomático, fruto de declarações inadequadas, desastrosas feitas pelo governo federal contra a China, contra o governo da China e a própria vacina. Isso gerou um bloqueio por parte do governo chinês para a liberação do embarque desses insumos."

Atraso

Segundo o diretor do instituto, Dimas Covas, o atraso da primeira remessa do contrato foi de 12 dias, algo que é considerado normal. Mesmo assim, o quadro já impacta nas previsões de entrega de doses para maio.

"O segundo contrato está em andamento. Com a entrega de hoje, serão 1,2 milhão de doses do segundo contrato, que foi assinado em fevereiro. Nesse momento, o que se atrasa é a previsão. Tínhamos a previsão de entregar, em maio, 12 milhões de doses e vamos entregar pouco mais de 5 milhões. Em junho, temos a previsão de 6 milhões de doses. Se o IFA chegar muito rapidamente, vamos cumprir o cronograma de maio, recuperar o cronograma de maio, e cumprir o de julho."

Isso vai afetar o cronograma de entregas para o Ministério da Saúde. "Oferecemos uma programação de entrega e ela vai sofrer um atraso em maio, que poderá ser recuperado em junho. No dia de hoje, conversei com os chineses e não houve de fato a liberação. Existe a notícia oficial da Fiocruz que ela teve a liberação para embarque no dia 22 e isso é uma boa notícia. Se começou a liberar, é possível que a gente tenha uma boa notícia nos próximos dias."

Coordenadora do Programa Estadual de Imunização (PEI), Regiane de Paula reafirmou que o cronograma de vacinação anunciado está mantido, mas as demais etapas podem ter um ritmo mais lento.

"Esperamos de fato que o programa estadual de vacinação de São Paulo não pare, podemos diminuir o ritmo, mas nós, até esse momento, não paramos como nenhuma outra capital, mas esperamos que o governo federal se sensibilize com todos os brasileiros e tome as atitudes que deve tomar."

Nesta manhã, o Instituto Butantan entregou 1,1 milhão de doses, totalizando 47,2 milhões de doses do primeiro lote e início da segunda remessa de 54 milhões de doses que também serão entregues ao PNI.

"As conversas entre os dois governos continuam avançando e há boas perspectivas de recebimento de novo lote de IFA da China no curto prazo", informou o Itamaraty. Procurada, a Embaixada da China não se manifestou. 

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Presidente da Comissão de Calendários da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Mônica Levi diz que o atraso prejudica o cronograma que foi traçado, principalmente para a segunda dose, para cumprir o prazo de 28 dias da Coronavac e 12 semanas para o imunizante da Fiocruz. Isso dentro de um cenário adverso da disseminação do vírus.

"Os dados mostram que temos aumento de novo de casos. Ainda não é possível caracterizar como uma terceira onda, mas isso pode acontecer. A gente espera que, com a vacinação, comece a controlar a situação, como aconteceu nos Estados Unidos, que está tirando as máscaras, e em Israel, que está quase sem covid. Mas estamos vacinando com ritmo lento, não temos independência de fabricação e ainda dependemos de IFA que vem da China", afirma Mônica. 

Ela diz que, embora intervalos alternativos com prazos maiores entre doses não tenham sido alvo de estudos, as pessoas devem tomar a segunda dose assim que elas estiverem disponíveis. "A experiência de outras vacinas inativadas mostra que um intervalo maior não tem prejuízo para a resposta final. O problema é a pessoa ter suscetibilidade em um momento com altas taxas de transmissão. Por isso que a recomendação é que se faça a segunda dose assim que possível. Não tem de recomeçar o esquema. A dose dada é computada no nosso sistema imunológico."

 

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