Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Sem provas, Bolsonaro atribui 'morte, invalidez' à vacina chinesa e diz que 'ganhou' de Doria

Manifestação do presidente ocorre um dia após a Anvisa suspender os testes da vacina Coronavac

Luci Ribeiro e Pedro Caramuru, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2020 | 08h48

BRASÍLIA - Em mais um capítulo da disputa política com o governador de São Paulo, João Doria, o presidente Jair Bolsonaro afirmou nesta terça-feira, 10, que a vacina chinesa Coronavac causa morte, invalidez e anomalia e que "ganhou" mais uma disputa contra o tucano. "Morte, invalidez, anomalia. Esta é a vacina que o Dória queria obrigar a todos os paulistanos tomá-la. O Presidente disse que a vacina jamais poderia ser obrigatória. Mais uma que Jair Bolsonaro ganha", publicou o presidente. A vacina, desenvolvida pelo Instituto Butantã em parceria com o laboratório chinês Sinovac, é testada contra o novo coronavírus.

O comentário do presidente foi feito a um seguidor no Facebook, acompanhado do link de uma notícia sobre a suspensão dos testes com o imunizante por ordem da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A medida foi tomada para analisar um caso adverso ocorrido com um dos voluntários, mas o órgão federal não detalhou qual evento adverso foi observado no participante. Ainda não se sabe se ele tomou a vacina ou um placebo.

Fadela Chaib, porta-voz da Organização Mundial da Saúde (OMS) buscou minimizar a discussão sobre a política por trás da decisão de suspender os testes. "Não acredito que precisamos encontrar motivos ou explicações além do fato de que as pessoas que estão em busca de uma vacina... são muito cautelosas", disse ela a jornalistas. 

A acusação de Bolsonaro contra a Coronavac foi feita pelo Facebook em resposta a um seguidor que o questionou se o Brasil vai comprar e produzir a vacina se ela tiver a segurança comprovada. O comentário foi feito dentro da postagem em que ele lista uma série de ações do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações de combate ao novo coronavírus, incluindo testes da vacina BCG contra a doença.

A Coronavac está em fase três de testes, a mais avançada nesse tipo de estudo. A  Anvisa anunciou a suspensão no mesmo dia em que o governador Doria divulgou que o primeiro lote de imunizantes chegaria a São Paulo no próximo dia 20.

No mês passado, dados apresentados pelo Butantã mostraram grau elevado de segurança da vacina. Segundo a apresentação à época, a incidência de eventos adversos entre os voluntários do Butantã foi de 35% ante pelo menos 70% nas outras vacinas testadas. A comparação foi feita com dados das pesquisas de outros quatro imunizantes em estudos: Moderna, Pfizer/BioNTech, Oxford/AstraZeneca e CanSino.  

De acordo com especialistas, o registro de eventos adversos é comum nesta etapa de pesquisas de imunizantes, mas sempre precisam ser investigados para se determinar a origem do problema. A pesquisa da vacina da Universidade de Oxford, em parceria com a farmacêutica AstraZeneca, também teve os testes interrompidos pelo menos duas vezes por causa de efeitos adversos graves, mas os estudos foram retomados após análises de comitê independente de cientistas.  

A vacina de Oxford é a principal aposta do governo federal na busca por um imunizante. O acordo firmado entre a Fiocruz e a farmacêutica britânica AstraZeneca prevê a transferência de tecnologia da vacina de Oxford, com início da produção em janeiro do ano que vem. Ou seja, o Brasil terá acesso à tecnologia e autonomia para continuar produzindo o imunizante. O órgão de pesquisa prevê fabricar 210 milhões de doses em 2021.

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