Tiago Queiroz/Estadão - 18/03/22
Tiago Queiroz/Estadão - 18/03/22

'Sem uma reestruturação, Hospital São Paulo morre em poucos meses', diz novo gestor da instituição

Hospital é alvo de frequentes protestos de pacientes, médicos e funcionários. Eles reclamam das más condições do pronto-socorro, da falta de remédios e outros insumos e da redução de pessoal promovida nos últimos dois meses

Cristiane Segatto, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2022 | 05h00

O médico Nacime Salomão Mansur assumiu a superintendência do Hospital São Paulo, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em fevereiro, com a meta de promover uma “operação salvamento”. Mergulhado em crise financeira agravada na pandemia, o hospital é alvo de frequentes protestos de pacientes, médicos e funcionários. Eles reclamam das más condições do pronto-socorro, da falta de remédios e outros insumos e da redução de pessoal promovida nos últimos dois meses. Em sua primeira entrevista no cargo, Mansur falou ao Estadão sobre a penúria da instituição e o plano de reestruturação. 

Qual é a situação do Hospital São Paulo (HSP)?

O hospital é referência de alta complexidade e um difusor de conhecimento importante. Com tantas dificuldades orçamentárias, acumulou dívidas para manter a prestação de serviço. Hoje tem volume de atendimento menor e segue com dificuldade operacional.

Qual é o orçamento atual?

É de R$ 22 milhões por mês, muito aquém da necessidade de um hospital desse porte, com cirurgias de alta complexidade e demanda grande de insumos, medicações, órteses e próteses etc. O custo mensal é R$ 30 milhões. Todo mês há déficit de ao menos R$ 8 milhões. Os recursos disponíveis pagam o serviço da dívida e a folha de pagamento. Não conseguimos manter o pagamento de fornecedores. Tanto eles quanto o banco não querem mais emprestar ao hospital.

Em que medida a pandemia agravou a crise financeira?

Atualmente, a dívida deve estar em cerca de R$ 450 milhões. A pandemia causou desequilíbrio maior. Houve mais gasto com insumos, EPIs (equipamentos de proteção) etc. O preço de alguns produtos e medicações aumentou cerca de 800%. Também gastou muito com a contratação de pessoal. Mais de 100 leitos de UTI foram abertos. O hospital tem cerca de 800 leitos. Por causa da crise, só metade está em funcionamento. Tomamos medidas para enquadrar o hospital no orçamento, como controlar o uso de insumos e readequações de recursos humanos. É preciso fazer caixa agora com essas medidas de contenção de custo para que o hospital volte a ter a produção que tinha no passado. Estamos negociando com o banco para ver se conseguimos diminuir o serviço da dívida. O vice-governador Rodrigo Garcia apontou com uma ajuda substancial no custeio e na reforma do pronto-socorro. Estamos tentando dar uma arrumada na casa para estruturar as medidas que nos permitam voltar a ter o número de leitos e a mesma importância que o hospital teve no sistema público de saúde.

O que é essa arrumada na casa? Médicos e funcionários falam em centenas de demissões. Quantas foram?

Foram 200 demissões. Nada foi feito sem critério. Tudo foi balizado pela importância das áreas e a necessidade assistencial. Fazer isso é uma necessidade imperiosa. Se não, o hospital não conseguirá honrar nem a folha de pagamento no próximo dissídio. Não temos alternativa. Se não fizermos isso, o hospital morre em poucos meses.

Os médicos são maioria entre os demitidos? O critério foi abrir mão de salários mais altos?

Não. Houve demissões de pessoas de várias áreas. O hospital contratou muita gente para fazer frente à pandemia de covid. Não demitimos apenas os salários mais altos. Esse não foi um critério linear. Fomos a cada unidade e setor e buscamos fazer bom uso dos recursos frente ao nosso orçamento e às nossas necessidades assistenciais e de ensino.

Haverá mais demissões?  

Ainda não sabemos. Vamos estudar o impacto do que já foi feito e analisar. Precisamos fazer o hospital renascer. Há todo um projeto de reestruturação e reconstrução para manter a sustentabilidade do hospital. Não. Houve demissões de pessoas de várias áreas. O hospital contratou muita gente para fazer frente à pandemia de covid. Não demitimos apenas os salários mais altos. Esse não foi um critério linear. Fomos a cada unidade e setor e buscamos fazer bom uso dos recursos frente ao nosso orçamento e às nossas necessidades assistenciais e de ensino.

O que são essas medidas estruturantes? O que muda?

A gestão vai mudar. Estudamos, por exemplo, medidas para melhorar a disposição de leitos. Não podemos permitir a existência de UTI com só quatro leitos. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determina um médico e uma enfermeira para cada 10 leitos, e uma auxiliar para cada dois. Se há só quatro leitos, temos perda de mão de obra que poderia ser melhor usada. Estamos tentando juntar algumas enfermarias para mudar a lógica da distribuição de leitos. E adotando outras medidas de contenção de custos. Queremos voltar a ter 800 leitos, mas não dá sem financiamento adequado e custo-benefício definido. O pronto-socorro estava em penúria. Com a reforma, vamos conseguir melhorar muito a prestação de serviço e o exercício profissional.

Como o senhor descreve essa penúria?

A estrutura física está bastante deteriorada. Há muitos anos não se tinha uma reforma e houve o desgaste provocado pelo uso constante. Aqui é uma faculdade de medicina, um centro importante do saber e também é um importante centro de ensino para que a gente coloque o aluno com os olhos voltados para o paciente. A razão de tudo é o paciente. Outros hospitais universitários vivem dilema semelhante porque a vocação do hospital universitário é o ensino. No entanto,  acabam assumindo carga assistencial mais pesada do que ele seria capazes de suportar.

O pronto-socorro deixou de funcionar pelo sistema de porta aberta. Por quê?

Durante alguns anos, a porta de entrada para esses pacientes funcionava em uma estrutura embaixo do nosso pronto-socorro. Em agosto, as instalações da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da Vila Mariana foram inauguradas a dois quarteirões do hospital. Com isso, a porta de entrada da instituição ficou sendo a UPA. Para algumas especialidades, como oftalmologia, otorrinolaringologia e outras, o hospital ainda é porta aberta. Para outras, aceita só pacientes referenciados por outros serviços.

Dos grandes hospitais públicos da cidade, restam poucos que funcionam de porta aberta, o que dificulta o acesso. Por que precisa ser assim?

A vocação do Hospital São Paulo é a alta complexidade. O pronto-socorro de demanda espontânea traz consigo uma baixa complexidade, pacientes não estão adequados ao perfil do hospital. Se não for assim, trazemos uma população imensa com dor de barriga ou de garganta. Mais de 90% dos atendidos têm problemas que poderiam ser resolvidos em unidades que não precisam ter a estrutura cara dos hospitais terciários e quaternários.

Pacientes reclamam de falta de remédios. Isso continua?

Começamos a fazer reestruturação da logística, reduzimos essa dificuldade e estamos tentando manter o hospital até que ter caixa para pagar fornecedores. Hoje não há falta de produtos fundamentais. Quando começar a faltar, conseguimos acionar rapidamente os fornecedores.

Como é composto o orçamento do hospital?  

O dinheiro vem principalmente do faturamento SUS (remuneração referente a internações, consultas e serviços prestados), de incentivos que recebe e da contratualização de metas assistenciais com o governo estadual. E de algumas outras verbas de pequena monta ligadas a pesquisas. O hospital não recebe verbas do Ministério da Educação, mas há servidores estatutários da Unifesp.

O HSP parou de receber um recurso do Ministério da Saúde. Foi revertido?  

Estamos na Justiça. Anteriormente, a instituição recebia recurso do Programa de Reestruturação dos Hospitais Universitários Federais (Rehuf), da Saúde. Em 2017, um ex-ministro (Ricardo Barros) suspendeu esse pagamento. A PGR (Procuradoria Geral da República) entrou com uma ação e já ganhou em primeira instância para que o hospital recupere esse recurso. O argumento foi o de que o hospital não era estatal. Uma argumentação frágil. Na essência, ele é privado porque é da Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM), mas é um hospital universitário da Unifesp: coabitação que sempre funcionou, desde 1956. Quem são os proprietários da SPDM? Professores titulares da Unifesp.

A crise econômica atual se agravou nos últimos cinco anos?

A crise se agravou a partir da retirada do Rehuf, da ordem de R$ 3 milhões por mês. Hoje a situação financeira é mais grave e exige medidas mais drásticas. O hospital já estava combalido e, com a explosão de gastos nos dois últimos anos, ele ficou pior.

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