Charles Bruno/Divulgação
Charles Bruno/Divulgação

Sem vagas em hospitais públicos, população de Roraima recorre à rede privada

Falta de leitos na rede pública motivou o Governo de Roraima a buscar parceria com o Governo do Amazonas para transferir pacientes com quadro de saúde grave para o estado vizinho

Paola Carvalho, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2020 | 05h00

BOA VISTA - A dona de casa Ana Késsia de Lima, de 30 anos, começou a sentir dores no peito devido ao diagnóstico de covid-19 no dia 11 de junho e buscou atendimento no Hospital Geral de Roraima (HGR). Classificada como situação de pouca urgência, Ana aguardou duas horas pelo atendimento. Na hora do exame, o profissional de saúde informou que a falta de oxigênio podia ser tratada em casa e a liberou para sua residência. Na saída do hospital, o marido de Ana a levou direto para uma clínica da rede privada de saúde do Estado. Mesmo sem comorbidades, houve piora de sua situação e a dona de casa precisou ser entubada e internada em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) em menos de dois dias. O custo do tratamento pode chegar a mais de R$ 400 mil.

A história de Ana Késsia foi contada ao Estadão pelo esposo, Alexandre Maciel, na terça-feira, 16. Segundo Maciel, a família buscou por um espaço no setor público de atendimento, mas não obteve acesso. “Ela está na ventilação mecânica. O custo é muito alto. Buscamos vaga no HGR e não conseguimos. Estou desesperado. Muitos amigos me ajudaram, mas o custo é extremamente alto e a minha família não tem condições de pagar. A estimativa do médico é entre 14 e 21 dias de internação ao custo de R$ 15 a R$ 20 mil diários.", afirmou ele. "Não sei mais o que fazer. Não sei mais de quem pedir ajuda. Tenho fé em Deus que ela vai se recuperar, algum anjo da guarda vai me dar uma luz e tenho fé que ela vai conseguir sair dessa”. 

A falta de leitos na rede pública de saúde motivou o Governo de Roraima a buscar uma parceria com o Governo do Amazonas para transferir pacientes com quadro de saúde grave para o estado vizinho. A medida foi anunciada pelo governador de Roraima, Antonio Denarium (sem partido), em entrevista a uma rádio local no domingo, 14.

Questionada sobre a tratativa de transferência de pacientes, a Secretaria Estadual de Saúde de Roraima (Sesau-RR) informou que está definindo os ajustes finais para a formalização do Termo de Cooperação Técnica envolvendo os Governos de Roraima e do Amazonas, com os apoios do Comando Misto do Exército e Ministério da Saúde.

“Esse termo tem a finalidade de ampliar o número de leitos de retaguarda de UTI para pacientes vítimas de covid-19 em Roraima. Porém, só entrará em vigor a partir da formalização documental, que está tramitando. Com o termo, o Governo do Amazonas disponibilizou até 27 leitos de UTI para pacientes de Roraima, conforme necessidade”, informou a Sesau.

Caso haja necessidade de transferência de paciente para UTI em Manaus, o transporte será realizado pelo Comando Misto do Exército, via UTI aérea, seguindo todos os protocolos de segurança. Com o Termo de Cooperação Técnica firmado, Roraima ampliará a capacidade de leitos de UTI de 48 para 75.

Internações 

Na rede pública estadual, são 30 pacientes internados na UTI do Hospital Geral de Roraima Rubens de Souza Bento, resultando em 100% de ocupação. Outros 40 estão na unidade semi-intensiva e mais 155 pacientes estão em acompanhamento clínico.

No Hospital Materno Infantil Nossa Senhora de Nazareth, a única maternidade pública de Roraima, há um bloco de isolamento respiratório de pacientes com suspeita da covid-19, que possui 37 leitos enfermaria e dez leitos de UTI. Do total, 20 leitos encontram-se ocupados.

Desde o fim de abril, o Estado elaborou uma parceria com a Operação Acolhida para transferir o Hospital de Campanha do Exército Brasileiro, que ficava localizado em Pacaraima, a cerca de 185 km da Capital, para atendimento de refugiados venezuelanos, até Boa Vista e transformá-lo em uma unidade de atendimento aos pacientes com covid-19.

A unidade, porém, ainda não foi inaugurada. A informação é que falta chegada de insumos e de corpo clínico para abertura das atividades. Segundo a Sesau, a expectativa é de que a Área de Proteção e Cuidados (APC) seja aberta nesta quinta-feira, dia 18, com os materiais e servidores já disponíveis.

Com isso, serão dez leitos de UTI equipados com cápsulas de ventilação e outros 80 leitos hospitalares, sendo que a oferta pode aumentar de acordo com a demanda. Outros dez leitos de UTI serão instalados no Hospital das Clínicas Dr. Wilson Franco, também equipados com cápsulas de ventilação.

Casos e mortes em Roraima e no Amazonas

De acordo com o boletim epidemiológico divulgado pela Secretaria Estadual de Saúde de Roraima (Sesau-RR) na segunda-feira, 15, o Estado contabilizava 11.736 notificações para a covid-19, de acordo com os critérios de definição de caso do Ministério da Saúde. Destes, 6.935 foram confirmados segundo município de residência, 4.801 foram descartados e 216 óbitos foram registrados, com outras 75 mortes ainda em investigação.

Em relação apenas às confirmações para a doença, o casos ficam concentrados na em Boa Vista, com 5.243 casos, seguida dos municípios de Rorainópolis (254), que fica na divisa com o Amazonas, e Pacaraima (251), na divisa com a Venezuela.

Com relação ao percentual de internações na rede pública estadual, a Sesau informou que Roraima tem 245 pacientes internados, sendo 225 pacientes no Hospital Geral de Roraima (HGR), principal unidade de atendimento para pacientes com covid-19 e outros 20 estão internados no Hospital Materno Infantil Nossa Senhora de Nazaré.

Segundo boletim epidemiológico consolidado pela Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM) nesta segunda-feira, 15, o Estado tem 56.777 casos confirmados do novo coronavírus.

“Entre pacientes em Manaus, há o registro de 1.620 óbitos confirmados em decorrência do novo coronavírus. Outros 322 óbitos por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) estão sendo acompanhados. Destes, 250 por investigação epidemiológica e 72 aguardando resultado laboratorial”, informou a Secretaria Estadual do Amazonas (Susam).

O Amazonas também conta com 331 pacientes internados, sendo 191 em leitos clínicos (15 na rede privada e 176 na rede pública) e 140 em UTI (38 na rede privada e 102 na rede pública). Há, ainda, outros 292 pacientes internados considerados suspeitos e que aguardam a confirmação do diagnóstico. Destes, 203 estão em leitos clínicos (27 na rede privada e 176 na rede pública) e 89 estão em UTI (21 na rede privada e 68 na rede pública).

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