Governo de SP/Divulgação
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Serrana (SP) inicia vacinação em massa contra covid-19 em estudo inédito

Pesquisa do Instituto Butantan deve vacinar 30 mil dos 45 mil habitantes de município do interior de São Paulo

Everton Sylvestre, especial para o Estadão

17 de fevereiro de 2021 | 12h53
Atualizado 04 de abril de 2021 | 18h06

SERRANA - Na manhã desta quarta-feira, 17, cinco moradores de Serrana foram os primeiros vacinados contra o vírus da covid-19 em projeto de pesquisa do Instituto Butanta, o Projeto "S", que pretende imunizar  30 mil dos 45 mil habitantes município, do interior de São Paulo. Segundo Dimas Covas, diretor do instituto, os primeiros resultados do estudo, que é pioneiro no mundo, devem sair em três meses.

A cidade foi dividida em 25 subáreas, que formarão quatro grandes grupos populacionais - denominados clusters -, cada qual identificado com uma cor distinta - verde, amarelo, azul e branco. Também não poderá tomar a vacina contra o novo coronavírus quem teve febre nas 72 horas anteriores. O estudo fará as comparações entre os clusters, antes e depois da vacinação. Os moradores do grupo verde têm até o dia 21 para participar da vacinação, que começa oficialmente na tarde desta quarta-feira.

Segundo Marcos Borges, pesquisador do projeto e professor da Faculdade de Medicina da USP Ribeirão Preto, 8 mil pessoas atualizaram o cadastro no projeto depois que deixou de ser secreto. Somando as pessoas que já estavam cadastradas na pesquisa antes de saber que era para receber o imunizante (são cerca de 29 mil moradores cadastrados) estão aptos a serem vacinados.

"Foram separadas 60 mil doses para esse estudo", confirmou o governador João Doria (PSDB). Ele reforçou que o envio dessas doses para Serrana não interfere no número de doses contratadas pelo Ministério da Saúde.

Ele também garantiu que, apesar da especulação, pessoas de fora da cidade não conseguirão ser vacinadas. “O programa é feito exclusivamente para os moradores de Serrana”, afirmou. Doria definiu o projeto como histórico e lembrou que ocorre no momento em que o Instituto Butantan celebra seus 120 anos. A instituição foi fundada em 23 de fevereiro de 1901.

Dimas Covas explicou, ainda, que pesquisadores do instituto estão na cidade desde setembro e fizeram um recenseamento da população local. Além disso, o secretário de Saúde do Estado, Jean Gorinchteyn, reforçou o pedido para que a população do Estado mantenha medidas para evitar a transmissão da covid-19, dirigindo-se especialmente aos jovens.

“Nunca se dedicou tanto a desenvolver novas vacinas. A nossa sociedade hoje é dependente da ciência”, mencionou Covas ao afirmar que já se pensou em realizar um estudo como este em outro lugares, como na África durante a epidemia de Ebola, mas que nunca foi realizado por dificuldade de acompanhamento, de logística; até que agora houve a oportunidade. “Começamos a procurar qual seria o local ideal e chegamos em Serrana”, afirmou.

A aposentada Marlene Negrão, 70 anos, estava sentada desde cedo na porta da EMEF Professora Maria Celina Walter de Assis, uma das oito escolas em que ocorre a vacinação e onde foi a cerimônia de abertura. Os quatro filhos estavam juntos na fila para serem vacinados, dois já tiveram covid.

Diante da vontade da mãe de ser vacinada logo, o filho Gilson Negrão, de 52 anos, militar reformado, chegou às 5h50. Às 8h, passou para a mãe o primeiro lugar da fila. A ansiedade é para poderem voltar a ficar mais próximos de dona Marlene, que mora sozinha. “Ontem eu fiz aniversário e meu presente está sendo hoje”, afirma a professora Gisele Negrão, 47, que, assim como o marido e os dois filhos, já teve covid-19.

Outra filha de dona Marlene, Sara Negrão, 54, pretende acabar com o "problema" de desconhecerem a sua cidade quando voltar a viajar e for contar de onde é. “Sou de Serrana, aquela cidade que foi vacinada”, é a forma como pretende passar a se referir. “Acho um privilégio poder participar da pesquisa, contribuir”, afirma.

O ajudante de pedreiro Juvenal Nunes dos Santos, de 51 anos, veio do Piauí para morar e trabalhar em Serrana faz 20 dias. Ele conta que só soube do projeto quando chegou. “Se também houver a possibilidade para mim, vou tomar”, afirma.

Seu colega, o pedreiro Alcides Nunes, de 56 anos, mora na cidade desde adolescente. “Como pode alguém que não acredita (no perigo da covid)? Eu estou é com medo. Não é por causa de outra coisa não”, justifica sobre o receio de ir tomar vacina, em função de comentários aventando eventos adversos que ouve . Alcides toma medidas de distanciamento e usa máscara, mas prefere esperar o resultado em outras pessoas para depois ir se vacinar.

A dona de casa Zenaide Costa, de 63 anos, diabética e hipertensa, também já ouviu comentários negativos, mas se preparava para se vacinar neste primeiro dia. O office-boy Gabriel de Jesus, de 18 anos, estava na porta de outra escola para saber se estava tudo certo com o cadastro da família, pois ele, os três irmãos e os pais pretendem se vacinar.

Segundo a assessoria do Butantan, pessoas como o Juvenal precisam levar documento com foto e comprovante de residência até um dos pontos de cadastro para verificar a possibilidade de ser incluído. Dentro dos prazos dos grupos em que estão inseridos, os moradores de Serrana podem procurar as escolas que são ponto de vacinação de segunda a sexta, entre 14h e 20h30 e nos finais de semana entre 8h e 15h30. A previsão do Butantan é receber 24 pessoas por hora, em cada escola/ponto de vacinação.

De acordo com o órgão, em torno de 450 pessoas foram contratadas para participar da pesquisa, entre agentes de saúde, técnicos e auxiliares de enfermagem, enfermeiros, médicos e auxiliares de pesquisa. Além disso, funcionários do Butantan também estão dedicados ao projeto. A contratação deu preferência a profissionais que vivem na região de Serrana. Os trabalhos iniciaram no dia 21 de janeiro com um treinameto que durou até esta quarta. A previsão é que a duração seja de oito semanas.

As etapas do estudo são as seguintes: recepção (onde a pessoa faz o cadastro), assinatura do termo (documento que autoriza a participação no projeto), triagem (perguntas médicas para validar a participação), coleta (exame de gestação para mulheres, grávidas não podem participar do estudo, coleta de sangue para controle), a vacinação e a observação após a vacina, chamada de espera. O instituto lembra que o projeto é um estudo clínico e não um programa de vacinação em massa.

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