Bernadett Szabo/Reuters
Bernadett Szabo/Reuters

Sexo fácil como pizza

Na última semana, uma das mais importantes ONGs que trabalham com prevenção à aids nos Estados Unidos lançou uma campanha que relaciona os aplicativos de encontro para celular Tinder e Grindr às doenças sexualmente transmissíveis clamídia e gonorreia.

Jairo Bouer, O Estado de S. Paulo

04 Outubro 2015 | 05h00

Especialistas da Aids Healthcare Foundation (AHF) alertam que a facilidade dos aplicativos com localização (que mostram quem está por perto) em promover sexo casual e anônimo está fazendo com que mais jovens se exponham ao risco de DSTs. Para eles, conseguir um parceiro agora é tão rápido e fácil como pedir pizza. A matéria foi publicada no Daily Mail.

Em maio, autoridades de saúde de Rhode Island já apontavam um aumento de 79% nos casos de sífilis, 30% de gonorreia e 33% de HIV em jovens, de 2013 para 2014. Esses números, além de revelar uma tendência nacional, poderiam ser explicados pela crescente popularidade dos aplicativos. O assunto foi comentado aqui nesta coluna.

Durante a última semana, o Tinder reagiu e ameaçou processar a AHF por uma campanha que considera sem base científica. A ONG disse que considera fundamental alertar os jovens a respeito da importância do cuidado e da prevenção, das consequências duradouras de uma DST e da necessidade de se fazer testes de detecção com regularidade para manter a saúde em dia.

É lógico que não é o aplicativo que aumenta o risco de uma DST, mas a falha no uso regular de camisinha, encontros com múltiplos parceiros sem proteção e sexo sob influência de álcool e drogas. O que pode acontecer é que, agindo por impulso e sem planejamento, muita gente pode estar fazendo sexo sem os devidos cuidados.

Mas será que esse padrão de comportamento é mesmo diferente do fato de você encontrar casualmente alguém ou, ainda, de buscar sexo em uma sala de bate-papo? Para especialistas, os aplicativos estão mudando a “paisagem” dos encontros eventuais. Um estudo do último ano apontava que gays que têm encontros mediados por aplicativos estavam mais expostos à clamídia e à gonorreia do que os que se conheciam na rua ou na internet.

Os dados de Rhode Island revelam, ainda, que as taxas de infecção por DSTs estão aumentando de maneira mais importante nos gays e bissexuais, nos negros e hispânicos e, sobretudo, entre os mais jovens dessas populações. O Grindr, também citado, é um dos aplicativos de encontro mais usados pelos homens que fazem sexo com outros homens.

No Brasil, os dois aplicativos (Tinder e Grindr) são bastante populares com seus públicos específicos. Bom lembrar que nos últimos dois anos uma série de dados mostram um aumento importante no número de infecções por sífilis e HIV entre os mais jovens, além de baixa adesão ao uso regular de camisinha. Se levarmos em conta que os aplicativos podem estar influenciando alguns desses comportamentos, que tal eles começarem a usar mensagens de cuidado e prevenção em suas telas de entrada?

*É psiquiatra

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