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Sífilis entre gestantes triplica em cinco anos

Taxa aumentou de 3,7 para 11,2 a cada 1 mil nascidos vivos entre 2010 e 2015

Lígia Formenti, O Estado de S. Paulo

07 Outubro 2016 | 03h00

BRASÍLIA - As infecções provocadas por sífilis avançam no Brasil em um ritmo sem precedentes. A taxa entre gestantes aumentou de 3,7 para 11,2 a cada 1 mil nascidos vivos entre 2010 e 2015. Pelos cálculos do Ministério da Saúde, o aumento está em torno de 202%. No caso da sífilis congênita, a situação é igualmente preocupante. As taxas foram de 2,4 para 6,5 casos para cada 1 mil nascidos vivos no mesmo período.

Entre a população em geral, a taxa nacional é de 42,7 casos para cada 100 mil habitantes. Somente na Região Sul, entre 2014 e 2015, o número de casos subiu 68,2%. No ano passado, o País registrou 40 mil casos graves de sífilis e 40 mil casos de sífilis congênita.

As mortes provocadas pela doença também cresceram de forma expressiva, sobretudo no último ano. No País, a taxa de mortalidade é de 7,4 casos para cada 100 mil nascidos vivos. “A situação não é boa”, resumiu a coordenadora do Departamento de DST-Aids e Hepatites Virais, Adele Benzaken.

Diante desse quadro, o governo já abandonou a ideia de erradicação da doença, compromisso firmado e renovado desde a década de 90. Agora, a meta é tentar reduzir o ritmo de número de casos. “Temos de fazer o que é possível”, disse Adele. Um plano para tentar conter o avanço da doença deverá ser lançado ainda neste mês. A ideia é reunir representantes de vários setores, incluindo sociedades médicas e de enfermagem.

Um dos fatores que levaram ao crescimento de casos é a falta de tratamento. Houve falta do antibiótico Penicilina em vários pontos do País. A compra do medicamento é feita por Estados e municípios. Adele conta que há pelo menos dois anos alertas são feitos sobre as dificuldades enfrentadas para a compra.

“Achava-se que o problema era local”, disse em encontro com especialistas da área de saúde, nesta quinta-feira, 6. Diante do reconhecimento de que o problema era de maior gravidade, o ministério decidiu fazer uma compra maior. Para especialistas ouvidos pelo Estado, a manobra, embora importante, foi tardia.

Adele, no entanto, afirma que esta não foi a única causa para o crescimento dos registros. A coordenadora argumenta que a sífilis adquirida passou a ser de notificação compulsória e que, além disso, houve aumento nos últimos anos do número de exames para diagnóstico da doença. A partir de 2012, kits para facilitar a identificação do causador da sífilis, uma bactéria, passaram a ser distribuídos pelo Ministério da Saúde.

“As ações feitas para conter a sífilis até agora foram tímidas frente à dimensão do problema. Em parte porque havia o desabastecimento e as ações estavam engessadas”, justificou a coordenadora.

Tratamento. Quando um paciente com sífilis é diagnosticado, a recomendação é de que faça o tratamento por um período determinado com antibiótico. Por se tratar de uma doença sexualmente transmissível, parceiros do paciente também devem ser testados e tratados, sob pena de a infecção voltar.

A bactéria também pode ser transmitida da gestante para o bebê. Justamente por isso, o ideal é que a terapia seja iniciada ainda no primeiro trimestre de gestação. Algo que está longe de ocorrer no Brasil. Os números mostrados por Adele indicam que pelo menos 50% dos casos de sífilis em gestantes são diagnosticados no terceiro trimestre de gestação, quando as chances de proteger o bebê já são bem menores.

“Há ainda uma falsa ideia de que as mulheres devem esperar a barriga crescer para procurar o pré-natal”, afirmou.

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