L'Union de Reims/PhotoPQR/EPA/EFE
L'Union de Reims/PhotoPQR/EPA/EFE

Símbolo do debate sobre a eutanásia, tetraplégico francês morre

Vicent Lambert sofreu um acidente de trânsito em 2008 e estava em estado vegetativo; Igreja Católica reforçou posição contrária

Redação, O Estado de S.Paulo

11 de julho de 2019 | 09h47

REIMS - O tetraplégico francês Vincent Lambert, em estado vegetativo há mais de dez anos, morreu nesta quinta-feira, 11, nove dias após a equipe médica do hospital de Reims ter iniciado o protocolo para retirar sua alimentação e hidratação artificial.

Seu sobrinho, François Lambert, informou aos veículos de imprensa que a morte aconteceu às 8h24 no horário local (3h24 de Brasília).

O caso de Vincent tinha se transformado na França em símbolo do debate em torno da eutanásia e da morte digna. Também virou um confronto dentro de sua própria família: seus pais, fervorosos católicos, lutaram para manter seu tratamento, e sua mulher e responsável legal, Rachel Lambert, era contrária à crueldade terapêutica.

No entanto, depois de anos de batalha legal na ausência de um testamento vital que refletiu sua vontade, os pais, Viviane e Pierre, aceitaram na última segunda-feira, 8, sua morte como algo inevitável e anunciaram que não apresentariam novos recursos.

"Agora é a hora de a família se reunir. Temos que tirar lições deste caso que às vezes foi obsceno em nível judicial. As incoerências judiciais foram desgastantes para todos", disse o advogado do sobrinho, Gérard Chemla, à emissora local BFM TV.

Acidente de trânsito em 2008

Lambert, um ex-enfermeiro de 42 anos, sofreu um acidente de trânsito em 2008 que o deixou tetraplégico e totalmente dependente. Em 2011, os médicos descartaram qualquer possibilidade de melhora.

A equipe médica iniciou o processo para retirar o tratamento no dia 2, depois que a Suprema Corte reabriu a via para fazê-lo ao anular uma sentença anterior do Tribunal de Apelação e encerrar a possibilidade de interpor novos recursos.

A decisão dos pais de não apresentar novos recursos para tentar retomar os tratamentos não significa que a batalha entre os dois lados tenha terminado.

O advogado Jean Paillot, representante dos pais, sustentou em umas declarações divulgadas na última segunda pela emissora France Info que, quando chegar o momento, "os responsáveis pela morte de Vincent Lambert terão que prestar contas".

De fato, o advogado apresentou, na última sexta-feira, 5, uma denúncia no Ministério Público de Reims contra o médico Vincent Sánchez e sua equipe de cuidados paliativos por "tentativa de homicídio voluntário". 

Vaticano expressa sua dor pela morte de Lambert e reforça posição contrária à eutanásia

O Vaticano expressou sua dor pela morte de Lambert e lembrou sua oposição a toda forma da eutanásia.

"Fomos informados com dor da notícia da morte de Vincent Lambert. Pedimos ao Senhor que o acolha no seu seio. Expressamos nossa proximidade de seus entes queridos e de todos aqueles que, até o final, o ajudaram com amor e dedicação", afirmou o porta-voz interino do Vaticano, Alessandro Gisotti.

Em comunicado, o porta-voz lembrou as palavras pronunciadas pelo papa Francisco sobre o caso: "Deus é o único dono da vida desde o princípio até seu fim natural e temos o dever de protegê-la sempre e de não ceder à cultura do descarte".

O próprio papa tinha pedido em sua conta no Twitter que os médicos "sirvam à vida" e não a tirem, em uma aparente alusão ao caso de Lambert.

"Rezemos pelos enfermos que são esquecidos e abandonados à morte. Uma sociedade é humana se protege a vida, toda a vida, do início ao seu fim natural, sem escolher quem é digno ou menos para viver. Que os médicos sirvam à vida, não a tirem", escreveu o papa, em uma mensagem divulgada em nove idiomas.

A Santa Sé tem uma posição muito clara sobre estes casos de eutanásia passiva.

Um comunicado conjunto sobre o caso Lambert, redigido pelo Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida, e a Academia Pontifícia para a Vida, reiterou "a grave violação da dignidade da pessoa que a interrupção da alimentação e da hidratação significa", contestando assim a decisão dos médicos de Reims, na França. /EFE

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