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Sinais importam

Para os autistas, esperar muito tempo numa fila de banco pode desencadear crise de desconforto

Renata Simões, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2022 | 05h00

Não sei como acontece com você, leitor, mas aqui, a partir do momento em que começo a pesquisar um assunto, ele pipoca em todos os cantos, das paredes do mercado ao carro que passa na rua. Assim, nem estranhei quando, recentemente, cruzei com um carro que exibia o adesivo “Criança autista a bordo. Em uma emergência, saiba que ele pode: gritar, não saber falar, sair correndo, não aceitar ajuda, não entender, não ter noção do perigo”. Existe uma variação marcando apenas que um dos passageiros é autista, com as mesmas indicações de procedimento. 

Esses sinais, cada dia mais presentes nas ruas, são resultado de um conjunto de fatores promotores da difusão de informações e que, por consequência, geram uma maior consciência sobre o assunto. Até o atual governo, pouco dado às questões da diversidade e da educação, em 9 de fevereiro enviou ao Congresso Nacional um projeto de lei que atualiza a nomenclatura utilizada na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional: “transtornos globais do desenvolvimento” dá lugar a “transtorno do espectro autista”, unificando a nomenclatura em âmbito nacional. 

Tão importante quanto a lei é a obrigação da inclusão do símbolo sobre o TEA, a “fita quebra-cabeça”, em cartazes de atendimento prioritário em estabelecimentos públicos e privados, como lojas, restaurantes, bancos e repartições públicas. A obrigatoriedade da exibição do cartaz simboliza a convergência das legislações em âmbito federal, estadual e municipal. A prefeitura de Araraquara, por exemplo, distribuiu cartazes informativos sobre a Carteira de Identificação da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (Ciptea), documento que deve ser emitido gratuitamente por estados e municípios desde janeiro 2020, com a aprovação da lei Romeo Mion, e visa facilitar o acesso aos direitos previstos na lei Berenice Piana, de 2012, que institui a Política Nacional de Proteção aos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista. 

Leis, cartazes e carteirinhas ajudam a evidenciar o que as pessoas não conseguem enxergar: ali está uma pessoa que precisa de suporte para estar em pé de igualdade com as demais do ambiente. Para os autistas adultos com sensibilidade auditiva, esperar muito tempo numa fila de banco pode desencadear uma crise de desconforto impensável para um neurotípico. Imagine escutar todo e qualquer barulho e voz que acontece naquele ambiente? A organização dos estímulos pelo cérebro pode ocasionar o chamado meltdown, um colapso que resulta em níveis maiores de ansiedade e falta de controle emocional temporário pela pessoa. 

Enxergar que os indivíduos que compõem uma sociedade têm suas particularidades também é uma forma de generosidade. É acolher essa pessoa. E uma vez isso feito, não tem “dever”.

*É JORNALISTA, CURIOSA, PALPITEIRA E VICIADA EM PAPEL

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