Síndrome metabólica, uma mistura de doenças

Manuel Caro Ruiz tem 41 anos. Aos 30, recebeu um diagnóstico de síndrome metabólica, um mal que só nos Estados Unidos atinge 24% da população adulta. A descoberta da doença veio com uma crise de hipertensão em 2001. Ele, que na época pesava 125 quilos, foi internado com a pressão de 25 x 15. Foram três dias dentro do hospital. Ruiz conta que, ao saber do que se tratava, ficou mais tranqüilo. "Foi bom para eu me conscientizar", conta.A síndrome metabólica é desencadeada por um conjunto de fatores de risco normalmente relacionados com a obesidade abdominal e a resistência à insulina. Os principais fatores que, associados, provocam a doença são: obesidade central, problemas cardiovasculares, pressão alta, ácido úrico elevado, dislipidemia (alteração de colesterol e triglicérides) e alta taxa de glicose. Apesar de existir resistência à insulina, a patologia não é exclusiva de portadores de diabete, (embora os doentes corram os riscos de desenvolvê-la no tipo 2). Pelas diretrizes brasileiras, a presença de pelo menos três destes fatores já indica síndrome metabólica.No caso de Ruiz, a pressão arterial foi o estopim da doença, mas ele apresentava outros fatores de risco como obesidade e pequenas alterações no colesterol e triglicérides. O excesso de peso, sobretudo na região do abdômen, é quase que uma constante nos portadores da doença. "A questão do peso é subvalorizada. Muitas mulheres dizem que o marido não é gordo, só tem uma barriguinha. Mal sabem elas que a gordura abdominal é a mais perigosa", explica Márcio Mancini, endocrinologista do Grupo de Obesidade e Síndrome Metabólica do Hospital das Clínicas de São Paulo. A doença não é nova. Sua primeira descrição data de 1988, quando Gerald Reaven, um endocrinologista da Universidade de Stanford, nos EUA, a denominou como "síndrome X", após a observação de alguns fatores de risco cardiovasculares, como HDL (colesterol bom) baixo. Na época, a doença era disseminada como "síndrome de resistência à insulina". O excesso de gordura, sobretudo no abdômen, gera essa resistência. Três anos depois, o Programa Nacional de Educação de Colesterol do Instituto Nacional de Saúde norte-americano (NCEP sigla em inglês), reconheceu a associação dos fatores, com ênfase para a obesidade, e a renomeou como síndrome metabólica. "A obesidade e o sedentarismo crescentes tendem a aumentar a incidência da doença", alerta Marcos Antônio Tambascia, presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes. A definição da doença, bem como a forma de melhor diagnosticá-la gerou divergências na área médica. Atualmente, existem duas diretrizes utilizadas para avaliar e precisar os casos: a européia ou do International Diabetes Federation (IDF) e a norte-americana ou do NCEP, que foi elaborada em conjunto com a Organização Mundial da Saúde (OMS). O Brasil aderiu ao método americano, embora não seja consenso entre os especialistas da área. "O IDF contemplou diferenças étnicas. Ele coloca valores diferenciados para chineses, negros e europeus. Com o tempo, passará a ser mais utilizado", informa Mancini. Os critérios utilizados atualmente envolvem a população adulta, acima dos 20 anos. "Em 1990, analisamos um trabalho de um paciente de 20 que já apresentava os fatores. Mesmo não sendo obesos, filhos de hipertensos têm indícios de síndrome metabólica. Esse seria o início, uma predisposição genética", lembra Heno Ferreira Lopes, coordenador do Ambulatório de Síndrome Metabólica do Instituto do Coração (Incor), do Hospital das Clínicas de São Paulo.O diagnóstico depende da avaliação dos fatores de risco e os valores variam conforme o sexo: obesidade central (medida da circunferência abdominal) maior que 102cm para homens e 88cm para mulheres; pressão arterial superior a 130 mmHg para homens e 85mmHg para mulheres; triglicérides maiores que 150mg/dl para ambos os sexos; HDL colesterol menor que 40mg/dl para homens e 50mg/dl para mulheres e taxa de glicose superior a 110mg/dl para homens e mulheres.Existem várias divergências sobre os valores de corte da circunferência abdominal. Especialistas alegam que as medidas estabelecidas pelo NCEP não se enquadram em muitas etnias e valores similares ao do IDF estão sendo experimentados. Desta forma, apesar de o Brasil ter adotado os critérios norte-americanos, recomenda-se uma monitorização freqüente dos fatores de risco para homens com circunferência entre 94cm e 102cm e para mulheres com medidas de 80cm a 88cm. Os critérios estabelecidos pelo IDF, além de distinguirem etnias utilizam valores menores no caso da obesidade abdominal. É considerado um fator de risco se o homem tiver uma circunferência maior que 94cm e mulheres acima de 80cm. "Se os EUA adotassem esses parâmetros, haveria um surto da doença por lá, já que grande parte da população norte-americana sofre de sobrepeso", analisa Mancini.Hábitos - O tratamento contra a síndrome metabólica exige a adoção de uma alimentação saudável e a prática de exercícios. O estilo de vida terá forte impacto, sobretudo para os sedentários e acostumados a dietas hipercalóricas. Normalmente, tenta-se com esses pacientes o tratamento sem o uso de medicamentos, que envolve equipe multidisciplinar e é centrado na mudança dos hábitos."No Incor, trabalhamos com a redução do peso. A obesidade tem ligação com outros problemas", lembra Lopes. O trabalho feito pelo instituto começou há três anos. Lá o paciente é avaliado como um todo. Existe um diagnóstico integrado com equipe multidisciplinar. Depois que o tratamento é iniciado, os encontros são semanais e, após 4 meses, passam a ser mensais. "Saíram notícias sobre medicamentos para a síndrome, mas o que há, até o momento, são remédios para cada um dos fatores", alerta. Ruiz fez o tratamento com a equipe do Incor e continua tendo acompanhamento médico. Desde o início do tratamento, ele já perdeu 30 quilos - passou de 125 para 95. kg. Além do medicamento para controlar a pressão, ele não fez uso de nenhuma outra droga. "Eu comia totalmente errado. Passei por uma reeducação alimentar, aderi à prática de exercícios. Os resultados vêm com o tempo. O paciente é quem decide se vai ou não se tratar", atesta Ruiz que hoje está com os sintomas controlados. A circunferência de sua cintura, antes com 133cm, hoje está em 108cm. "A doença é silenciosa, quando mostra a cara é que a situação está ruim."Existe um consenso entre os médicos de que esta é uma doença que deve ser tratada por diversos profissionais. Um outro ponto comum, na opinião dos especialistas, é de que ao reduzir peso, já existe melhora dos sintomas e do quadro. "Tem que tratar a obesidade. Pode estar certo de que com esta ação, o paciente já terá resultados. Sem tratamentos, essas são as pessoas vão ocupar os leitos dos hospitais por conta de um enfarte, derrame ou angina, por exemplo", conclui Mancini. Prevenção - Combater a obesidade é um os caminhos para se prevenir da síndrome metabólica. Embora o surgimento da doença não esteja necessariamente ligado à obesidade, o excesso de peso traz complicações para a vida do homem que contribuirão para o desenvolvimento dos demais fatores de risco como colesterol, alteração da taxa de glicose e pressão arterial. Além disso, o indivíduo obeso tende a ser sedentário o que agrava o quadro ainda mais.O Brasil tem hoje uma situação semelhante com a que os EUA viveram há 15 anos, onde 65% da população sofriam com sobrepeso. Esse fator é associado a problemas como o estresse, a que estão condicionadas as pessoas que vivem em grandes centros, e criam uma bomba relógio na sociedade moderna. "A facilidade tecnológica contribui para o sedentarismo e o corre-corre empurra o homem para os fast-food. Fora isso, tem os aspectos culturais. A sociedade induz a comer, seja num encontro de amigos ou num batizado. A comida está presente em todos os momentos", lembra Tambascia. Cirurgia - O Brasil assiste a uma explosão no número de cirurgias bariátricas, aquelas que reduzem o tamanho do estômago ou produzem alguma outra alteração com o objetivo de redução de peso. O procedimento tem seu mérito e pode salvar vidas dependendo da situação. Em alguns casos de síndrome metabólica, a cirurgia pode ser indicada. Mas tudo depende da avaliação do médico responsável. Além dos fatores de risco estarem presentes e prejudicando a vida do paciente, é necessário que a obesidade seja mórbida, quando o Índice de Massa Corpórea (IMC) está acima de 40. "O número de indicações é baixo. É um método simplista e pode gerar problemas como depressão e ansiedade", argumenta Lopes.

Agencia Estado,

18 de abril de 2006 | 12h36

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