WANG Zhao / AFP
O laboratório da fabricante de vacinas Sinovac Biotech em Pequim, China WANG Zhao / AFP

Sinovac: como uma biotech promissora, mas com problemas de gestão, virou esperança de vacina

Empresa chinesa desenvolvedora da Coronavac vive ascensão científica em meio a brigas de acionistas pelo controle da companhia

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2020 | 05h00

Desconhecida nos países ocidentais até poucos meses atrás, a biofarmacêutica chinesa Sinovac ganhou destaque mundial ao aparecer como uma das líderes na corrida pela vacina da covid-19 ao lado de multinacionais como Pfizer e AstraZeneca. Mas enquanto investe na pesquisa daquela que poderá ser sua nona vacina registrada, a biotech de Pequim tem de lidar com uma briga de acionistas pelo controle da empresa que se arrasta há mais de dois anos e já teve, no enredo, tentativas de golpe, invasão de fábrica e até suspensão das ações da companhia na bolsa de valores americana.

Parceira do Instituto Butantã nos testes da Coronavac, a Sinovac atua há quase 20 anos na área de pesquisa e desenvolvimento de vacinas, mas, perto de farmacêuticas multinacionais, é considerada pequena. Seu faturamento em 2019 foi de U$ 246 milhões, muito inferior, por exemplo, aos U$ 51 bilhões de receita obtidos no mesmo ano pela Pfizer.  Com 910 funcionários, a biotech vende, em média, 20 milhões de doses de seus imunizantes por ano, com 15% a 20% de market share na China.

Nos últimos anos, a companhia vem se consolidando como um importante fornecedor de vacinas no país asiático, com um portfolio de oito vacinas registradas - uma delas com certificação da Organização Mundial da Saúde (OMS) - e outras quatro em testes clínicos. Um eventual sucesso da Coronavac, porém, deve elevar a Sinovac a outro patamar. Antes mesmo de finalizar os testes clínicos da vacina (e descobrir se ela terá eficácia), a empresa inaugurou, em setembro, uma fábrica com capacidade para produzir 300 milhões de doses anualmente. E prepara uma nova linha de produção para 2021 que pode ampliar esse número para um bilhão. “Eles receberam investimento do Ali Baba (gigante chinesa do ramo de comércio eletrônico) para construir outra fábrica que tem previsão de entrega para maio”, afirma Dimas Covas, diretor do Butantã.

Mesmo com o crescente interesse mundial, conseguir informações sobre a empresa não é tarefa fácil, ao menos para jornalistas de fora da China. Para traçar o perfil da companhia, o Estadão tentou, por um mês, entrevistar porta-vozes da Sinovac. Para isso, mandou inúmeros e-mails a diferentes departamentos da empresa, fez mais de 20 ligações, pediu ajuda ao Butantã e à Embaixada da China no Brasil, mas não obteve retorno da companhia.

As informações sobre a história, as operações, a ascensão científica e os problemas administrativos foram obtidas pela reportagem nos relatórios apresentados pela Sinovac à Securities and Exchange Commission (SEC), órgão que regula o mercado de capitais americano e é equivalente à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) brasileira.

De administração privada, a Sinovac foi fundada em 2001 e, no ano seguinte, obteve o registro de seu primeiro produto: uma vacina contra a hepatite A. Em 2009, foi a primeira empresa a desenvolver e conseguir registro de um imunizante contra o vírus H1N1, que causou uma pandemia de gripe. O portfólio atual da farmacêutica inclui também as vacinas para hepatite B, caxumba, varicela, enterovírus 71 (causador da síndrome mão-pé-boca), influenza sazonal e H5N1.

Mesmo com suas quatro fábricas na China e tendo o mercado doméstico como principal comprador, a companhia não é, ao menos no papel, chinesa. Sua holding, a Sinovac Biotech, está registrada em Antígua e Barbuda – pequeno país conhecido por oferecer atrativos fiscais a empresas – e tem, desde 2009, capital aberto no índice Nasdaq da bolsa americana. Suas ações, porém, não podem ser comercializadas desde fevereiro do ano passado por causa de brigas entre a direção atual e grupos de acionistas. Leia abaixo, em uma série de reportagens, os detalhes sobre os avanços científicos, os problemas de gestão e a história da companhia:

Briga pelo poder na Sinovac incluiu tentativa de golpe, invasão de fábrica e suspensão na Nasdaq

No ‘Vale do Silício chinês’, Sinovac tenta avançar mundialmente com certificação da OMS e parcerias

Rede de fabricantes de vacinas e missão do governo de SP à China aproximaram Butantã da Sinovac

Um terço dos insumos importados para a produção de medicamentos vem da China

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Briga pelo poder na Sinovac incluiu tentativa de golpe, invasão de fábrica e suspensão na Nasdaq

A empresa chinesa, que está desenvolvendo uma vacina contra a covid-19, trava disputas judiciais contra acionistas minoritários

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2020 | 05h00

Em meio ao desenvolvimento da vacina contra a covid-19, a Sinovac trava disputas judiciais contra acionistas minoritários que tentaram, em ao menos duas ocasiões nos últimos dois anos, tomar o controle da companhia à força. Os problemas administrativos, que ameaçam as finanças e até as operações da empresa, envolvem tentativas de golpe, invasão de fábrica e suspensão da venda das ações da empresa na Nasdaq.

A primeira tentativa de golpe ocorreu em abril de 2018, quando um dos acionistas, acompanhado de dezenas de aliados, invadiu um dos escritórios da companhia em Pequim na tentativa de impedir a movimentação de funcionários e assumir os escritórios de executivos, onde estavam documentos financeiros e contábeis.

O grupo dissidente cortou a energia elétrica do prédio, interrompendo assim a linha de produção das vacinas contra hepatite A e influenza, conforme relato feito pela própria Sinovac no seu mais recente relatório anual para investidores. O documento foi consultado pelo Estadão no site da Securities and Exchange Commission (SEC), órgão que regula o mercado de capitais americano. 

Por causa da invasão, a Sinovac foi obrigada a destruir os produtos da fábrica atacada. “Para manter a segurança do produto, a Sinovac Pequim suspendeu temporariamente a produção na instalação afetada”, disse a empresa no documento. A produção ficou paralisada por meses e o prejuízo com as doses descartadas foi de aproximadamente US$ 2 milhões. 

Menos de um ano após a invasão, em fevereiro de 2019, houve nova tentativa de golpe, desta vez sem violência física, mas com sérias consequências para as finanças e governança da companhia.

De acordo com a Sinovac, os mesmos dissidentes de 2018 se uniram a um fundo de capital para comprar, secretamente, o maior número de ações possíveis da empresa na Nasdaq e, assim, passar a ter o controle acionário da companhia, em uma prática conhecida no mercado financeiro como aquisição hostil.

Para prevenir esse tipo de conduta, o acordo de acionistas da Sinovac veta que um mesmo grupo detenha mais de 15% das ações, regra que foi desrespeitada pelos dissidentes.

Diante da falta de entendimento entre os grupos, a direção da Sinovac teve de lançar mão da chamada poison pill (pílula do veneno), prática em que uma empresa oferta no mercado um número expressivo de novas ações para aumentar o volume de acionistas e, assim, “diluir” o poder de grupos que tenham um percentual grande de papéis da empresa.

No caso da Sinovac, foram 27 milhões de novas ações emitidas, aumento de mais de 30% sobre o que a empresa possuía. A estratégia, porém, só deve ser usada em casos de extrema necessidade, pois pode ser desastrosa.

“Isso não acontecia no mercado americano havia dez anos. Não é algo trivial porque traz problemas. A poison pill é como se fosse uma bomba atômica. A empresa tem aquilo para o caso de precisar se defender (de uma aquisição hostil), mas não deveria usar, pois ela pode trazer danos à própria empresa. Pode depreciar o preço da ação e trazer incerteza ao mercado”, explica Henrique Castro, professor da Escola de Economia de São Paulo da FGV.

No caso da Sinovac, nem deu tempo de os preços caírem. Logo após a companhia emitir milhões de novas ações, a Nasdaq suspendeu a negociação dos papéis até que o litígio entre acionistas fosse solucionado. O objetivo era proteger os investidores de grandes perdas.

Como o imbróglio ainda está na Justiça, a suspensão segue até hoje, o que coloca a Sinovac em situação inusitada. Enquanto outras farmacêuticas adiantadas na corrida pela vacina contra a covid veem suas ações dispararem diante de resultados promissores das pesquisas científicas, as ações da companhia de Pequim estão congeladas e valem hoje pouco mais de US$ 6 cada.

A BioNTech, por exemplo, biotech alemã que desenvolve vacina contra a covid em parceria com a Pfizer e divulgou nesta semana que o produto tem 95% de eficácia, teve valorização de 365% nas suas ações no último ano, com cada papel valendo hoje US$ 90.

“Esses episódios da Sinovac demonstram um problema de governança na empresa. Esse tipo de coisa aumenta o risco do negócio, traz mais dificuldade para obter financiamento em um momento crucial da pesquisa. Por outro lado, ela é uma forte concorrente para lançar uma vacina bem-sucedida. Se as agências regulatórias dos países verificarem a eficácia do produto e se ele tiver preço competitivo, os problemas de governança devem ficar em segundo plano”, avalia Castro.

Embora a disputa ainda não tenha chegado ao fim, a direção da Sinovac obteve duas vitórias este ano contra os grupos dissidentes. Em maio, a SEC condenou o investidor Jiaqiang Li e sua empresa, a 1Globe Capital LLC, a pagarem US$ 290 mil em multas pela tentativa irregular de substituir o conselho da Sinovac ao se unir secretamente a outros grupos para comprar mais ações do que o limite permitido.

Em setembro, a Justiça chinesa considerou o acionista Aihua Pan e sua empresa, Sinobioway Medicine, culpados pela invasão à fábrica da companhia em 2018 e determinou que sejam responsabilizados pelas perdas que a empresa sofreu durante o episódio.

Citação em caso de propina

Antes mesmo do início das disputas pelo poder, a Sinovac já havia sofrido desgaste por outras questões relacionadas à gestão. Em 2016, um ex-oficial da agência regulatória de medicamentos chinesa foi acusado de cobrar propina de membros da indústria de vacinas para acelerar o processo de aprovação de estudos e registros no órgão governamental. 

No julgamento do ex-servidor, o presidente da Sinovac, Weidong Yin, que está no comando da empresa desde 2003, foi citado como um dos que fizeram pagamentos ao antigo membro da agência. A denúncia não se confirmou. De acordo com os relatórios da Sinovac, a Justiça chinesa não acusou Yin de nenhum ato ilícito. No documento da companhia, porém, não são fornecidos detalhes sobre o processo.

O caso levou à abertura de uma investigação na SEC e no Departamento de Justiça dos EUA. Ao final da apuração, o caso foi encerrado sem que nenhuma responsabilidade ou sanção fosse atribuída à Sinovac.

O Estadão tentou, durante um mês, contato por e-mail e por telefone com representantes da empresa para entender melhor o conflito entre acionistas e demais problemas de governança, mas nunca obteve retorno sobre as perguntas feitas.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

No ‘Vale do Silício chinês’, Sinovac tenta avançar mundialmente com certificação da OMS e parcerias

Nos últimos anos, a empresa vem tentando afastar a imagem negativa que alguns países ainda têm sobre a indústria farmacêutica chinesa

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2020 | 05h00

A sede da Sinovac e a maior parte de suas fábricas ficam estrategicamente localizadas no Parque de Ciência e Tecnologia Zhongguancun, em Pequim, conhecido como o Vale do Silício chinês. A zona, voltada para inovação, reúne empresas multinacionais, startups, universidades e centros de pesquisa.

Nos últimos anos, a biotech chinesa, de olho no mercado internacional, ampliou investimentos em ciência e tecnologia e buscou parcerias e certificações que atestem a qualidade dos seus produtos e afastem a imagem negativa que alguns países ainda têm sobre a indústria farmacêutica chinesa.

“Aquela ideia da China chão de fábrica, com mão-de-obra barata, precarização e produto de baixa qualidade é totalmente equivocada. O país tem passado por um upgrade tecnológico significativo. Entre 2010 e 2017, o investimento em pesquisa e desenvolvimento cresceu 17% ao ano. Nos Estados Unidos, a média foi de 4,3%”, diz Isabela Nogueira, professora do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio (UFRJ) e coordenadora do Laboratório de Estudos em Economia Política da China (LabChina).

Ela explica que, com maior investimento em ciência e inovação e o desejo das empresas chinesas de exportarem produtos de maior valor para o mundo, as companhias do país têm se esforçado na busca por certificações que atestem boas práticas de produção.

No caso da Sinovac, a mais importante chancela veio da Organização Mundial da Saúde (OMS). Em 2017, a empresa conseguiu que sua vacina contra hepatite A obtivesse a pré-qualificação da OMS. “A pré-qualificação é como se fosse um registro de uma agência regulatória, só que dado por um grupo de experts da OMS. Eles fazem vistorias na fábrica e checam todos os processos. É uma forma de chancelar que aquele produto passou por todos os controles de qualidade”, explica Carla Domingues, epidemiologista e ex-coordenadora do Programa Nacional de Imunizações (PNI).

Ela diz ainda que só vacinas pré-qualificadas pela OMS podem ser compradas por agências da ONU para distribuição em países mais pobres ou que enfrentem dificuldades logísticas na aquisição de algum produto.

Na busca por parcerias internacionais e maior integração com o mercado global, a Sinovac já firmou acordos de cooperação com instituições como a farmacêutica britânica GlaxoSmithKline (GSK) e os Institutos Nacionais de Saúde (NIH), dos EUA.

Dos 910 funcionários que a companhia tinha em 2019, 154 eram dedicados à área de pesquisa e desenvolvimento. Desde sua fundação, a empresa já registrou 53 patentes.

A Sinovac também tornou-se membro da Rede de Fabricantes de Vacinas dos Países em Desenvolvimento (DCVMN, na sigla em inglês), entidade criada em 2000, com o apoio da OMS, para apoiar o aprimoramento dos processos de produção de empresas de nações emergentes.

“Fundamos a DCVMN em 2000 porque, na época, éramos poucos laboratórios em países emergentes produzindo vacinas. Só as grandes multinacionais produziam, então tínhamos limitação de ofertas, principalmente à população mais pobre”, explica Akira Homma, ex-presidente da DCVMN e assessor científico sênior de Bio-Manguinhos/Fiocruz, instituição associada à rede.

“Um dos objetivos é justamente apoiar os laboratórios associados a cumprirem os requisitos de qualidade para conseguirem a pré-qualificação”, explica ele. A aliança conta hoje com 41 empresas de países emergentes e 70 vacinas pré-qualificadas pela OMS.

A tentativa de se inserir no mercado internacional é essencial para que a Sinovac consiga expandir seus negócios, hoje centrados em seu país de origem. Embora já tenha exportado seus produtos para 18 países, a companhia sobrevive graças ao mercado doméstico. Em 2019, 92% das suas vendas foram feitas dentro da China.

Na América Latina, a Sinovac já obteve registro de produtos em ao menos dois países (Chile e no México) e teve o imunizante contra hepatite usado na Guatemala e em Honduras por meio de compra intermediada pela Organização Panamericana da Saúde (Opas).

Ao contrário do que vem sendo divulgado em alguns posts nas redes sociais, a companhia nunca teve vacina licenciada e usada no Brasil, segundo informaram ao Estadão a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e o Ministério da Saúde.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Rede de fabricantes de vacinas e missão do governo de SP à China aproximaram Butantã da Sinovac

As duas instituições são parceiras no desenvolvimento e nos estudos clínicos da Coronavac, uma das vacinas contra o coronavírus que está em teste

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2020 | 05h00

Hoje parceiros no desenvolvimento e nos estudos clínicos da Coronavac, o Instituto Butantã e a Sinovac tiveram seu primeiro contato há alguns anos, por meio da Rede de Fabricantes de Vacinas dos Países em Desenvolvimento (DCVMN, na sigla em inglês), entidade criada em 2000, com o apoio da Organização Mundial da Saúde (OMS), para apoiar o aprimoramento dos processos de produção de empresas de nações emergentes.

Butantã e Sinovac são membros da entidade e eventualmente se encontravam nos eventos e reuniões anuais da aliança, que possui 41 fabricantes associados. A relação ficou mais próxima a partir de agosto do ano passado, quando técnicos do Butantã conheceram uma das fábricas da Sinovac em Pequim durante missão do governo de São Paulo à China. 

“Visitamos produtores de vacinas em várias partes do país. Não cheguei a ir à Sinovac porque estava em outra agenda, mas uma equipe do Butantã foi e ficou impressionada. A tecnologia chinesa hoje compete com a das melhores multinacionais”, diz Dimas Covas, diretor do instituto.

Dois meses depois, foi a vez da Sinovac retribuir a visita. No final de outubro de 2019, representantes da empresa chinesa viajaram ao Rio para a reunião anual da DCVMN e aproveitaram a vinda ao Brasil para conhecer as fábricas do Butantã em São Paulo.

“Foi feito um termo de entendimento com intenções de cooperação porque há produtos que ambas as empresas tinham interesse, como a vacina da dengue. Foram conversas normais, não houve nenhum acordo específico. Não existia nenhum indicativo de que haveria pandemia”, diz Covas sobre o encontro de outubro.

Quando o coronavírus chegou com força ao Brasil, o Butantã iniciou o trabalho de prospecção de empresas que já haviam iniciado o processo de desenvolvimento de uma vacina para firmar parcerias.

O instituto, diz Covas, chegou a avaliar projetos de várias empresas, inclusive de gigantes farmacêuticas multinacionais, mas optou por uma empresa menor não por acaso. De acordo com o diretor, a proposta mais promissora do ponto de vista tecnológico, experiência prévia e proximidade entre as duas instituições foi a da Sinovac.

Em número de funcionários e receita, a Sinovac se aproxima mais de outras duas biotechs que também ganharam destaque na corrida pela vacina da covid-19: a americana Moderna e a alemã BioNTech. A primeira se aliou ao Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (NIAID) dos EUA e recebeu investimento de U$ 1 bilhão do governo americano para a pesquisa. A segunda conduz estudos em parceria com a Pfizer.

“Levamos em consideração o fato de não ser uma grande multinacional, porque uma empresa menor tem interesses mais próximos aos do Butantã. Quando você se associa com alguém igual, você não fica na posição de submissão e dependência. Eles também precisam da gente para realizar os testes clínicos, então é uma associação de ganha-ganha”, destacou.

A rapidez no processo de desenvolvimento da vacina pela Sinovac foi possível graças a estudos prévios feitos pela companhia de um imunizante contra outro coronavírus, causador do surto de SARS entre 2002 e 2003. Na época, a companhia chegou a realizar a fase 1 de testes clínicos do imunizante, mas não pôde conduzir as etapas seguintes pois o vírus praticamente desapareceu. Com a vantagem da pesquisa prévia, a empresa foi uma das primeiras a iniciar, ainda em julho, a fase 3 de testes clínicos de uma vacina contra a covid.

A parceria entre Butantã e Sinovac foi tornada pública em junho, com um termo de cooperação, e oficializada em setembro, com a assinatura de um contrato prevendo o fornecimento, ainda neste ano, de 6 milhões de doses prontas da vacina e matéria-prima para a produção local de outras 40 milhões de unidades do produto.

O contrato, que prevê ainda a transferência completa da tecnologia para o Butantã, determina o repasse de cerca de U$ 90 milhões do instituto à empresa chinesa. O valor equivale a pouco mais de um terço de todo o faturamento da companhia em 2019.

Embora não seja o único país a firmar parceria com a Sinovac para os testes da Coronavac, o Brasil tornou-se estratégico para que a Sinovac finalize o estudo por causa do grande número de voluntários que estão sendo recrutados (13 mil) e dos altos índices de infecção no País, o que pode acelerar a comprovação da eficácia da vacina.

A Coronavac é testada também na Indonésia, em 2 mil voluntários, e na Turquia, em 1,3 mil participantes. Em outubro, o Chile anunciou que também participará da pesquisa com 3 mil voluntários e firmou acordo para receber 20 milhões de doses da vacina.

Dados das fases 1 e 2 dos testes e de uma primeira análise da fase 3 feita com 9 mil voluntários mostraram que a Coronavac se mostrou segura. Os resultados de eficácia devem sair até o fim do ano. Apesar de promissora, a vacina da companhia chinesa pode não ser comprada pelo Ministério da Saúde mesmo se comprovada sua eficácia por causa da resistência do presidente Jair Bolsonaro em incorporá-la ao SUS.

Sem nenhuma evidência, o presidente já questionou a segurança do imunizante e até comemorou a pausa nos testes clínicos da vacina por causa de um evento adverso não relacionado ao produto. A implicância de Bolsonaro é atribuída a razões político-ideológicas. O presidente estaria resistindo a considerar a compra da vacina pelo fato de ela estar sendo desenvolvida em um país comunista e ter sido trazida ao Brasil por iniciativa do Estado de São Paulo, comandado por seu rival político João Doria. 

Na China, empresa já iniciou plano de vacinação emergencial

Paralelamente aos testes clínicos, a Sinovac iniciou, em julho, um programa de uso emergencial da Coronavac em cidadãos chineses. A prática teve o aval das autoridades sanitárias do país e vale também para outras farmacêuticas locais que estão desenvolvendo vacinas contra a covid.

Balanço de dois meses atrás indicava que cerca de 60 mil pessoas já haviam tomado o imunizante da Sinovac por meio do programa, a maioria profissionais de saúde e outros trabalhadores expostos a maior risco de contaminação. Estariam incluídos no programa todos os funcionários da Sinovac e seus familiares.

A mídia estatal chinesa noticiou que, em algumas cidades, a Sinovac já abriu cadastro para que qualquer indivíduo pudesse se inscrever para tomar as doses. O custo delas, de acordo com o site China Daily, é de U$ 30 por dose, mas não ficou claro se é o governo local ou o paciente quem paga. 

O Estadão tentou, por duas semanas, entrevistar algum porta-voz da Embaixada da China no Brasil para falar sobre o programa de uso emergencial das vacinas contra covid e outras iniciativas do processo de desenvolvimento dos imunizantes, mas não obteve resposta sobre o pedido.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Um terço dos insumos importados para a produção de medicamentos vem da China

País asiático é o segundo no mundo com mais vistorias realizadas pela Anvisa, com 95 certificados de boas práticas ativos no momento  

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2020 | 05h00

O mercado farmacêutico chinês têm ganhado cada vez mais espaço não só no desenvolvimento de vacinas como a Coronavac, mas também no fornecimento de matéria-prima para a produção de medicamentos ao redor do mundo.

De acordo com relatório da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicado no fim de outubro com dados sobre a inspeção internacional de fabricantes de insumos farmacêuticos ativos (IFAs), 35% dos ingredientes de medicamentos básicos importados pelo Brasil vêm da China. Nesse aspecto, o país asiático só perde para a Índia, país de origem de 37% desses insumos.

"Hoje, quase todo antibiótico que a gente toma é chinês. Anti-inflamatório, remédio para hipertensão, protetor gástrico, medicamento para asma. Tudo isso tem ingrediente vindo da China", explica Nelson Mussolini, presidente do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos (Sindusfarma).

Ele destaca que, com a importação de grande parte dos insumos, só a etapa final de produção da droga é feita em território nacional. "As fábricas saíram do Brasil e de vários lugares do mundo. Acabaram concentradas na Ásia. Hoje recebemos os ingredientes e só fazemos a formulação, o envase, a embalagem e testes de estabilidade e farmacodinâmica", diz.

Mussolini afirma que, como boa parte das fábricas produtoras de insumos precisam passar por inspeção sanitária do país onde o remédio será registrado, as empresas chinesas tiveram de se adequar aos padrões de qualidade internacionais.

De acordo com dados da Anvisa, se somadas as inspeções feitas em fábricas de insumos sintéticos e biológicos (que incluem matéria-prima para vacinas), a China é o segundo país do mundo com mais vistorias realizadas pela agência brasileira, com 95 certificados de boas práticas ativos no momento.  

Para Ronaldo Gomes, gerente-geral de inspeção e fiscalização sanitária da Anvisa, os baixos custos e os processos de modernização das empresas chinesas ajudam a explicar a alta produção de insumos farmacêuticos no país asiático. 

"Se formos analisar os insumos farmacêuticos sintéticos, é possível que o principal motivo (da alta produção na China) sejam os custos operacionais mais baixos. Tem também a questão de oferecerem a cadeia produtiva completa, da química de base até a química fina", explica ele. "Já quanto aos insumos farmacêuticos biológicos, como os de vacina, que exigem mais inovação, estão se modernizando, com parcerias com universidades e instituições de pesquisa.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.