Wes Frazer/The New York Times
Wes Frazer/The New York Times

'Sinto como se tivesse demência': confusão mental afeta sobreviventes da covid

Condição está afetando milhares de pacientes, impedindo sua capacidade de trabalhar e funcionar no cotidiano

Pam Belluck, The New York Times, O Estado de S.Paulo

13 de outubro de 2020 | 14h00

Depois de contrair o coronavírus em março, Michael Reagan perdeu todas as lembranças dos 12 dias de férias que passou em Paris, apesar de a viagem ter ocorrido poucas semanas antes. Várias semanas depois de Erica Taylor ter se recuperado dos sintomas de náusea e tosse provocados pela covid-19, ela passou a sofrer de confusão mental e lapsos de memória, sem conseguir nem mesmo reconhecer o próprio carro, o único Toyota Prius no estacionamento do seu prédio.

Lisa Mizelle, enfermeira veterana de uma unidade de terapia intensiva que contraiu o vírus em julho, vê-se esquecendo tratamentos de rotina e testes de laboratório, chegando a perguntar aos colegas a respeito de uma terminologia que ela tinha na ponta da língua. "Saio do quarto e já não consigo lembrar do que o paciente acabou de me contar", disse ela, acrescentando que tiraria mais tempo de folga se o seu período de licença médica não tivesse terminado. "É assustador pensar que estou trabalhando", disse Lisa, de 53 anos. "Sinto-me como se tivesse demência."

Trata-se de uma condição que está se tornando conhecida como confusão mental da covid: preocupantes sintomas cognitivos que incluem perda da memória, confusão, dificuldade de concentração, tontura e problemas para lembrar palavras do cotidiano. Cada vez mais, pessoas que sobreviveram à covid dizem que a confusão mental está prejudicando sua capacidade de trabalhar e funcionar normalmente.

"Há milhares de pessoas com esses sintomas", disse Igor Koralnik, chefe do departamento de doenças neuro-infecciosas da Northwestern Medicine, em Chicago, que já atendeu centenas de sobreviventes em uma clínica para atendimento pós-covid comandada por ele. O impacto na força de trabalho afetada será significativo, acrescentou.

Os cientistas não sabem ao certo o que está causando a confusão mental, cujas características variam muito e afetam até aqueles que tiveram sintomas leves da covid-19 sem apresentar comorbidades anteriores. As principais teorias apontam para a possibilidade de ela surgir quando a resposta imunológica ao vírus não é interrompida ou da inflamação de glóbulos sanguíneos que chegam ao cérebro.

Confusão, delírio e outros tipos de alteração nas faculdades mentais, chamadas coletivamente de encefalopatia, ocorreram durante a hospitalização em decorrência dos sintomas respiratórios da covid-19, e um estudo apontou que esses pacientes precisaram de períodos mais longos de hospitalização, apresentando mortalidade mais elevada e, frequentemente, dificuldades para retomar as atividades cotidianas após a hospitalização.

Mas as pesquisas envolvendo a confusão mental mais duradoura estão apenas começando. Um relatório francês publicado em agosto envolvendo 120 pacientes que tinham sido hospitalizados identificou que 34% sofriam de perda da memória e 27% tinham problemas de concentração meses depois de curados.

Em levantamento ainda não publicado envolvendo 3.930 membros dos Survivor Corps, grupo de pessoas que se reuniram para debater como será a vida após a covid, mais da metade relatou dificuldade de concentração, disse Natalie Lambert, professora assistente de pesquisas da Faculdade de Medicina da Universidade de Indiana, que ajudou a comandar o estudo. Foi o quarto sintoma mais comum dentre as 101 condições físicas, neurológicas e psicológicas de longo e curto prazo informadas pelos sobreviventes. Problemas de memória, tontura ou confusão foram relatados por um terço dos participantes ou mais.

"É debilitante", disse Rick Sullivan, de 60 anos, de Brentwood, Califórnia, que teve episódios de confusão mental desde julho, depois de superar um caso de covid-19 que durou semanas, com problemas respiratórios e dores no corpo. "Fico quase catatônico. A sensação é como a de estar sob efeito de anestesia."

Incapaz de trabalhar

Quando Erica, de 31 anos, contraiu o vírus em meados de junho, ela pensou que precisaria apenas de um intervalo no trabalho de advogada em uma ONG de Atlanta que ajuda inquilinos de baixa renda. Mas ela ficou tão desorientada que colocou o controle remoto da TV na máquina de lavar roupa e teve que devolver um cachorro recém-adotado por não confiar na própria capacidade de cuidar de um animal de estimação.

Certa manhã, "meu cérebro parecia preenchido por uma estática, um chiado", disse ela. "Estava sentada na beira da cama, chorando e sentindo aquela confusão, pensando, 'Há algo errado; é melhor pedir ajuda', mas não conseguia lembrar a quem deveria procurar, nem do que deveria me queixar. Esqueci quem eu era e onde estava."

Já em julho, ela se sentia melhor e disse ao chefe que poderia voltar ao trabalho. Mas, depois de outro episódio de "estática mental", ela enviou-lhe uma mensagem: "Estou assustada. Quero muito voltar ao trabalho, mas estou sempre muito cansada e confusa." Ele sugeriu que ela descansasse até se recuperar.

Ela retomou o trabalho no início de agosto. Em setembro, o empregador insistiu para que ela tirasse uma licença de 13 dias. "Eles finalmente decidiram que era melhor eu me afastar", disse Erica, que pediu para trabalhar como voluntária para a ONG durante o período de licença, mas teve a solicitação negada. "Sinceramente, estou arrasada."

Inicialmente, Reagan, de 50 anos, que passou cinco dias entrando e saindo de hospitais, retomou o trabalho como especialista vascular para uma empresa que produz stents e cateteres. Mas, com os tremores nos dedos e convulsões, sintomas neurológicos que às vezes acompanham a confusão mental, ele disse que "não há como eu participar de uma cirurgia e ensinar um médico como suturar uma artéria."

"Não consigo encontrar as palavras durante as reuniões", disse Reagan, que agora está de licença. "Tenho a sensação de falar como um idiota."

Antes de contrair o vírus em julho e ser hospitalizada por cinco dias com um quadro de pneumonia em agosto, Lisa tratava sozinha seis pacientes por hora em uma clínica de Huntsville, Alabama. Mas ela disse que, recentemente, informou à chefe de turno que não pode trabalhar sozinha porque o raciocínio está lento, sente tontura, e simplesmente precisa de alguém junto.

Às vezes, nas salas de exames, "me esforço para evitar que o paciente perceba, pois ninguém quer ser tratado por uma pessoa com confusão mental, o que é assustador", conta.

Causa misteriosa

A causa da confusão mental é um mistério em parte porque seus sintomas são diferentes. "A resposta mais simples é que a ativação imunológica persiste nas pessoas mesmo após a infecção inicial ser derrotada", disse Avindra Nath, diretor do departamento de infecções do sistema nervoso do Instituto Nacional de Distúrbios Neurológicos e Derrames.

Pode ser também algo relacionado à inflamação dos glóbulos sanguíneos, ou das células que revestem esses glóbulos, disse Serena Spudich, diretora do departamento de infecções neurológicas e neurologia global da Faculdade de Medicina da Universidade Yale. Liberadas em respostas imunológicas eficazes, as moléculas inflamatórias "também podem funcionar como toxinas, particularmente para o cérebro", disse ela.

Alguns dos sintomas podem ser causados por microderrames, disse Dona Kim Murphey, neurologista e neurocientista que teve complicações neurológicas posteriores à covid, incluindo "síndrome da mão alheia", descrita como uma "sensação bizarríssima na mão esquerda, como se não entendesse por que ela estava em determinada posição".

Outras causas possíveis são reações autoimunes, "quando os anticorpos atacam células nervosas por engano", disse Spudich.

Sintomas como formigamento e dormência podem ocorrer quando nervos danificados enviam os sinais errados, disse Allison Navis, especialista em doenças neuro-infecciosas do Mount Sinai Health System. Algumas pessoas com confusão mental ainda enfrentam complicações cardíacas e pulmonares, o que pode exacerbar os sintomas neurológicos.

Até o momento, os neurologistas dizem que exames de ressonância magnética não indicaram áreas danificadas no cérebro. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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