DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO - 28/10/2017
DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO - 28/10/2017

Sírio-Libanês volta a destinar alas inteiras a pacientes de covid diante da alta de internações

Medida não era adotada desde abril em um dos hospitais mais tradicionais de São Paulo; são 10 leitos de UTI e 24 de enfermaria exclusivamente para infectados pelo novo coronavírus

Entrevista com

Felipe Duarte, gerente de Pacientes Internados e Práticas Médicas do Sírio-Libanês

Ítalo Lo Re, O Estado de S.Paulo

07 de junho de 2022 | 10h00
Atualizado 07 de junho de 2022 | 11h27

Um dos mais tradicionais da capital paulista, o Hospital Sírio-Libanês voltou a destinar alas inteiras a pacientes de covid-19 diante da alta de internações. Atualmente, são 43 pessoas hospitalizadas com a doença no hospital, sendo seis delas em leitos de unidades de terapia intensiva (UTI). Há duas semanas, no dia 24 de maio, eram 22 internados, sendo quatro em leitos de UTI. Os números seguem abaixo do pico de janeiro, em que o hospital chegou a ter cerca de 130 pacientes internados pela doença, mas têm demandado maior atenção da instituição.

Diante da alta, o Sírio-Libanês passou a dedicar uma ala inteira com 10 leitos de UTI e outra com 24 leitos de enfermaria exclusivamente para pacientes com a doença, medida que não era adotada desde abril. Se os casos continuarem avançando, podem ser dedicadas ainda outras unidades inteiras só para pacientes de covid, informou em entrevista ao Estadão o gerente de Pacientes Internados e Práticas Médicas do Sírio-Libanês, Felipe Duarte.

Como a nova alta de casos tem sido sentida no Sírio-Libanês?

Há mais ou menos duas semanas, principalmente na última, a procura pelo pronto-atendimento foi maior do que a gente estava acostumado desde fevereiro, quando o pico de janeiro da Ômicron arrefeceu. Até a primeira quinzena de maio, chegavam no pronto-atendimento algo em torno de 90 a 100 pacientes por dia com sintomas gripais. Na última semana, a gente chegou a atender 170, 180, foi uma alta de até 80%. Aumentou consideravelmente. 

Hoje a média de atendimento está em torno de 140. Ainda assim, dá no mínimo uns 50% de incremento se comparado com os 100 de anteriormente. É um aumento razoavelmente expressivo de síndromes gripais. Dessa quantidade, hoje uns 30% são de casos de covid, ante 10% no passado. Ou seja, a gente percebeu também que a positividade dos testes para covid vem aumentando. Quando a gente olha a curva, a tendência é ascendente. 

Alguma medida foi tomada diante desse cenário?

Na semana passada, acho que foi o nosso maior movimento desses pacientes. Isso fez com que a gente tivesse de readequar nossa estrutura, porque a gente vinha em um cenário de mais baixo atendimento. No pronto-atendimento, nunca deixamos de separar os pacientes, mas nas unidades, onde ficam os leitos, isso deixou de ser feito em abril.

Como na semana passada observamos um aumento no número de internações de pacientes com covid, a gente lançou mão de alguns recursos para conseguir acomodar pacientes com mais flexibilidade e também garantir a segurança de todos. É natural que o movimento do pronto-atendimento comece antes do que o movimento de internações.

Segunda-feira foi o primeiro dia que a gente retornou uma unidade de internação dedicada exclusivamente para pacientes de covid, com 24 leitos. A gente já tinha voltado a fazer isso com UTI na semana passada, com 10 leitos dedicados. Então, agora são 34 leitos exclusivos para pacientes com covid, ainda que esses pacientes também possam ser alocados em outras unidades.

Por que deixaram de trabalhar com unidades dedicadas exclusivas para pacientes com covid em abril?

A gente tinha encerrado as unidades dedicadas a casos específicos de covid-19 em abril porque o número de pacientes era muito pequeno, algo abaixo de cinco. Isso não era motivo para manter uma unidade de enfermaria com 24 leitos e uma de UTI com 10 leitos, por exemplo. Então, nesse caso, a gente levava esse paciente para uma UTI onde tinha outros pacientes com outras doenças, mas a gente acomodava ele em um box sob precaução. Ou levava para um quarto em uma enfermaria que tinha outros pacientes com outras doenças, mas ele ficava em isolamento. O hospital sabe que isso é seguro.

Sobre quando fazer isso, a gente resistiu bastante, porque esperou que o número de pacientes fosse realmente baixo o suficiente, mas depois fizemos. Quando a gente deixa uma unidade de 24 leitos ocupados com três leitos, por exemplo, eu deixo de acomodar pacientes que precisariam se internar para poder deixar aquele espaço todo dedicado. Como a gente sabe que a prática de colocar pacientes positivos com pacientes não positivos, mas garantindo o devido isolamento, é segura, a gente tomou a decisão de partir para isso. Não só o Sírio, muitos hospitais fizeram isso, justamente porque o número de pacientes era muito baixo.

As demandas médicas de uma forma geral continuam, e a população, diferentemente do que a gente viu em 2020, quando sumiu do hospital, voltou a procurar os hospitais desde 2021. As doenças continuam, os pacientes precisam continuar os tratamentos, e as pessoas estão menos temerosas em relação à própria covid.

E qual exatamente foi a avaliação feita no atual momento?

Como aumentou o número de pacientes internados na última semana, a gente ficou um pouco mais engessado, porque os leitos de pressão negativa começaram a ficar no seu limite. E aí a estratégia acaba sendo adotar unidades dedicadas nas quais eu possa receber esses pacientes sem risco para os demais, e para eles também. Então, a gente acabou voltando a dedicar alguns leitos de terapia intensiva e alguns leitos de unidades de internação para esses pacientes, para conseguir acomodá-los com mais versatilidade. 

Não foi um grande movimento, nada comparado com o que a gente já viveu principalmente em 2021. Às vezes, a sensação que a gente tem é que a alta de hoje é algo até menor do que em janeiro, que foi bastante puxado. Mas é expressiva, porque quando a gente fala de 30 pacientes internados com covid, os hospitais são sensíveis a isso, já que esse número corresponde a mais de uma unidade inteira para internação.

Mais unidades podem ser destinadas exclusivamente a pacientes com covid?

O Sírio tem algo em torno de 490 leitos. Se os casos continuarem aumentando, a gente vai ter que destinar outras unidades. Esse plano já existe, está combinado entre as equipes, e a gente vai ajeitando a demanda conforme a necessidade. Talvez suba um pouco mais, mas não é o que a gente espera. A gente não espera uma nova avalanche. O que temos que reforçar sempre é para a população tomar a dose prevista para o calendário vacinal. Isso é muito importante para evitar o contágio e o avanço da covid.

Os casos dessa nova alta estão graves?

A sensação é que a doença está cada vez menos grave. Isso pode ser atribuído ao sucesso da campanha de imunização ou também à própria evolução da doença ao longo do tempo. A gente tem observado que os pacientes estão menos graves. A gente não tem mais aquela demanda de ventilação mecânica, que a gente viu em 2021. Em janeiro já foi muito mais leve e agora parece estar até mais parecido com janeiro, senão um pouco mais leve.

A taxa de testes positivos para covid de hoje é a maior em quanto tempo?

A gente está acima da positividade de fevereiro. Em fevereiro, foi 23%. Em janeiro, a positividade bateu 48,6%. Em março, caiu para 4%. Em abril, estava por volta de 9%. Agora, está batendo 30%. O aumento da positividade é expressivo, significa que o vírus está circulando mais.

Está chegando em alguma espécie de estabilização ou continua crescendo?

A tendência ainda é de aumento do número de contaminados. Ainda não dá para falar que tem uma certa estabilidade. Nos últimos dois dias, o pronto-atendimento atendeu menos pacientes com síndromes gripais, mas isso ainda não significa muita coisa.

Os pacientes têm hoje um perfil diferente que o de outros picos? Como estão os sintomas?

É muito cedo ainda para dizer, mas aparenta ser algo similar a janeiro. Não são necessariamente pacientes tão idosos, só que são pacientes mais velhos. Meio que na média do que a gente vinha observando. Agora, na comunidade do hospital, estamos vendo muitas pessoas mais jovens, muita gente. Tem bastante gente com covid. A gente percebeu também que aumentou a busca no consultório para teleacompanhamento. Normalmente, são quadros leves, de síndrome gripal típico.

Sobre os sintomas, a gente está vendo muita gente com dor de garganta, dor de cabeça, febre, coriza, mal estar, cansaço. A gente não está vendo quase nada daqueles que a gente via no começo, de perda de paladar e olfato. Mas é quadro de uma dor de garganta, com febre e sintomas gripais de uma forma geral.

Os sintomas têm sido diferentes da onda da Ômicron do início do ano?

Não muito. Só mais dor de garganta agora, chama atenção isso. Mas nada muito diferente. O que marca mesmo é o quadro de síndrome gripal. Isso se assemelha um pouco com janeiro. Mas não fazemos sequenciamento das variantes.

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