Fernando Sette / Prefeitura de Belém
Fernando Sette / Prefeitura de Belém

Perto do colapso funerário, famílias no Pará esperam mais de um dia pela liberação de corpos

Funerárias e cemitérios do Estado estão abarrotados  

Roberta Paraense, especial para O Estado

07 de maio de 2020 | 05h00

BELÉM - O sistema funerário do Pará está à beira do colapso. O avanço no número de óbitos por complicações em decorrência do novo coronavírus deixa funerárias e cemitérios abarrotados. O Serviço de Verificação de Óbito (SVO) da Secretaria de Saúde do Pará (Sespa) registrou em 27 dias de abril cerca de 525 atendimentos. O índice comparativo para o mesmo período de 2019 não foi divulgado pelo Governo, que afirma evitar comparações na demanda do serviço, antes e depois da pandemia.

Para suprir os atendimentos, estão sendo usados um caminhão frigorífico e dois contêineres. O tempo para a liberação de corpos é outro indício. Antes da pandemia, o período de espera era de cerca de cinco horas; hoje, as famílias aguardam por mais de um dia. No dia 22 de março, o Centro de Perícias Científicas Renato Chaves (CPCRC) publicou edital de abertura de novo Processo Seletivo para a contratação temporária de 72 profissionais.

Em entrevista a uma emissora de TV local, o secretário estadual de Saúde, Alberto Beltrame, reconheceu os problemas no sistema. “Queremos que a população consiga perceber que estamos em um grave problema de crise sanitária no Brasil inteiro e, em especial, em Belém", disse. "Não só o sistema de saúde tem problema e entrou em colapso. O próprio sistema funerário tem causado alguns inconvenientes, seja na liberação de corpos em domicílio ou de corpos no IML ou da verificação de óbitos. Pedimos perdão por isso”, reconheceu o titular da pasta.

Espera

À frente do Centro de Perícias, fileiras de carros fúnebres se formam a qualquer hora do dia. Na manhã da quarta-feira, 6, o congestionamento dos veículos funerários chegava próximo à entrada do Estádio Olímpico do Pará (Mangueirão) – distância equivalente a 450 metros. As funerárias aguardam no local para fazer o traslado mais de três horas. Antes da pandemia, quase não se via fila, tampouco demora para o serviço de transportar os cadáveres aos velórios.

Na calçada no Centro de Perícias, tendas foram montadas para abrigar os familiares que passam mais de um dia aguardando a liberação dos corpos. Demora que aumenta mais ainda a dor de perder um ente querido.

Vera Lúcia, de 28 anos, aguardava entristecida a liberação do corpo da mãe por mais de 24 horas em frente ao local. Além de ter visto a doméstica Maria Isolina Mota da Silva, de 69, morrer em menos de uma semana desde que ficou doente, Vera não terá o direito de se despedir da mãe. Com a pandemia, não há mais velórios e os corpos são levados diretamente ao cemitério.

“É uma sensação angustiante. Tivemos de esperar por mais de sete horas para irem buscar o corpo em casa. Agora, faz mais de um dia que estamos esperando a liberação”, lamentou a filha. Maria Isolina faleceu na madrugada da última segunda-feira, 4, após apresentar sintomas como falta de ar, fadiga, dor no corpo e febre. No atestado de óbito, a causa-morte está como “Síndrome Respiratória Aguda Grave, a esclarecer, dependendo de exame complementar”.

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Além da espera, restou à família de Maria apenas a dúvida. “Ela morreu de covid, sim. Não teve nem a dignidade de ter sido acompanhada por um médico, de fazer o exame. Minha mãe não tinha outras doenças. Ela morreu em menos de cinco dias”, continuou Vera.

O corpo da doméstica será enterrado em um cemitério público, em Ananindeua. Os parentes conseguiram o espaço por meio de ajuda de um político local. “Se não fosse isso, o desespero era maior. Não vamos nem velar minha mãe”.

Salto nos óbitos

Os óbitos recebidos pelo SVO não são causados apenas por complicações da covid-19. No entanto, a maior parte deles está relacionada às doenças respiratórias. Na manhã da quarta-feira, 6, ao menos seis famílias que estavam no local, tinham atestados de óbito com a causa da morte por Síndrome Respiratória Aguda Grave.

O Pará chegou, até a manhã da quarta-feira, 6, à marca de 5.017 positivados com a covid-19. A Sespa informou que foram registrados 392 óbitos causados pela doença.

Em apenas sete dias, os óbitos causados pela covid-19 cresceram 215%, saltando de 95, no dia 25 de abril, para mais de 300 no sábado, 2. O número é muito superior à média nacional que, no mesmo período, registrou 68% de aumento, conforme o Ministério da Saúde.

Para se ter um recorte do cenário, no último dia 23, o SVO retirou oito corpos que estavam no chão de uma Unidade de Pronto Atendimento de Belém. Até caminhões frigoríficos estão sendo usado para abrigar os cadáveres.

O mês de abril registrou outro índice alarmante no serviço funerário. O número diário de sepultamentos no Cemitério Público São Jorge quintuplicou. Já o cemitério mais tradicional do Pará, o Santa Izabel, também administrado pela Prefeitura de Belém, bateu uma marca histórica de 28 pessoas enterradas em um dia, quando, normalmente, a média é de oito.

No último dia 30, o Cemitério Parque do Tapanã foi desativado por falta de covas. No último mês, diariamente, estavam sendo sepultadas cerca de 25 pessoas, mas a média diária, antes da pandemia, era de nove.

Os enterros foram direcionados ao cemitério particular Parque Nazaré, onde foram adquiridas 312 novas covas, segundo informou a Prefeitura de Belém.

Trabalhar no sistema funerário no Pará se tornou uma atividade de alto risco.  O Sindicato das Empresas Funerárias do Pará (Sidef) acionou o Ministério Público do Estado para pedir apoio do Governo Estadual na aquisição de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) para os profissionais do setor. A preocupação da categoria é com o risco de contaminação.

Reginaldo Soares, de 26 anos, trabalha há cinco em uma funerária em Belém. Fadigado e até mesmo impressionado com o que tem visto nos últimos dias, ele pensa em abandonar o emprego. “Estou com o meu psicológico abalado. São muitos corpos, muitos chamados, temos medo de ficar doentes”, confessou ele, que aguardava na fila de carros fúnebres a liberação de dois corpos do CPR. “Eu nunca fiquei em fila para remover corpos aqui (IML). Agora, aguardamos mais de três horas. O trabalho se multiplicou. Está um caos, pessoas adoecendo. Estamos em constante risco”, denunciou.

Reginaldo também fala sobre lidar com a dor das famílias. “Ver velório é muito difícil. Agora, ver o parente não poder nem ver o corpo é pior ainda”, disse.

Medida emergencial

Na noite de domingo, 3, a Defensoria Pública do Pará, por meio do Grupo criado para acompanhar sepultamentos e cremações das vítimas de covid-19, ajuizou uma ação em que requer à Justiça para que o município de Belém instale, como medida emergencial, câmaras ou caminhões frigoríficos próximos a estabelecimentos de saúde ou em locais centralizados, a fim de acomodar provisoriamente os corpos dos falecidos em hospitais.

Outro pedido na ação é que, havendo utilização destas câmaras frigoríficas por falecidos oriundos de hospitais privados ou mantidos por outros entes federados, a Prefeitura de Belém convoque planos e de saúde, hospitais, entre outros entes a participarem dos custos e da logística de funcionamento das câmaras.

No documento, a Defensoria Pública afirma que o colapso na saúde e no sistema funerário já é risco à saúde pública. O Grupo de Trabalho de Sepultamentos e Cremações já fez uma série de pedidos à Prefeitura de Belém solicitando que fossem indicadas as medidas já concretizadas e planejadas no âmbito da força-tarefa para enfrentamento dos sepultamentos em massa causados pela covid-19. 

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