Felipe Rau
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Skincare: entenda como criar uma rotina de cuidados com a pele

Limpeza, hidratação e proteção: seja em poucas etapas ou demoradamente, uma rotina de cuidados é fundamental para manter a saúde da pele

Ana Lourenço , O Estado de S.Paulo

Atualizado

  Felipe Rau

Entrar no banheiro, alinhar seus produtos favoritos, talvez acender uma vela ou colocar uma música gostosa de fundo e pronto. O ritual de cuidado com a pele, o skincare, está pronto para começar. Com a pandemia e o isolamento social, falar de autocuidado se tornou algo mais fundamental do que nunca. É possível fazer o processo em poucas etapas ou demoradamente – o importante é incorporar esses cuidados no dia a dia para manter a pele saudável e encontrar um sistema que funcione para você.

Pedimos a especialistas – e também a pessoas que não saem de casa sem cuidar da pele – para dar dicas de como fazer um skincare eficiente.

“A rotina de skincare é importante porque esses produtos ajudam a minimizar os danos externos que aceleram o processo de envelhecimento da pele”, explica a dermatologista Bianca Viscomi. Segundo ela, fazer a limpeza correta é essencial nesse processo, para que sejam removidas as substâncias que permitem a produção de radicais livres, os quais aceleram a degradação do colágeno. 

Outras etapas importantes do processo, explica Bianca, é a aplicação de protetor solar e de hidratante. “O filtro solar protege contra a agressão da radiação ultravioleta que também oxida nosso colágeno. E a aplicação do hidratante melhora a barreira cutânea e o metabolismo das células.” Eis o tripé do autocuidado: limpeza, hidratação e proteção. Conhecido como “skip-care”, o método aposta em uma rotina minimalista, prática e confortável. 

O primeiro passo é higienizar a pele com um sabonete facial e/ou cleanser oil – óleo vegetal que retira mais facilmente os resíduos de maquiagem à prova d’água e de protetor solar. “Pela noite, especialmente, o ideal é fazer a dupla limpeza. Ou seja, primeiro limpar a pele com o cleanser e, em seguida, com água”, conta Fernanda Chauvin, presidente da Ellementti Dermocosméticos, empresa que tem como meta desenvolver cosméticos com base na tecnologia e na etnobotânica.

O uso de lenços umedecidos e de água micelar deve ser controlado, já que ambos podem conter agentes químicos que causam danos à pele. Além disso, não garantem uma pele 100% limpa. “Eles ajudam a remover a maquiagem e a sujeira, porém as substâncias da água micelar, por exemplo, captam essas sujeiras e isso fica na pele. Então, depois de usar, lave o rosto com um sabonete específico”, indica Bianca.

Em seguida, é hora da hidratação. Um hidratante facial e outro para a área dos olhos é o suficiente. Eles vão regular o nível de água e sebo da pele e também atender às necessidades de cada região do rosto, como em relação à firmeza e às rugas. Para finalizar, protetor solar

De acordo com Wendel Santos, especialista de skincare da Lancôme, o fator de proteção não impede apenas a ação dos raios ultravioleta, mas também que a pele fique mais propícia a ter marcas e tons irregulares, além de “não permitir que a produção de colágeno se torne fraca”. “O protetor solar é necessário mesmo para os dias nublados e deve te acompanhar dentro e fora de casa”, indica.

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O protetor solar é necessário mesmo para os dias nublados e deve te acompanhar dentro e fora de casa
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Wendel Santos, especialista de Skincare

Alessandra Ribeiro Romiti, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, explica que nem sempre é possível manter apenas o cuidado básico. “Uma coisa é o cuidado diário básico que a gente faz numa pele que não tem nenhuma alteração, nenhuma necessidade maior. Mas quando a gente precisa de um cuidado a mais, seja por conta de manchas, espinhas, oleosidade, aí entramos na rotina de tratamento”, explica. “Nesse caso, colocaríamos adstringentes, ácidos, clareadores e faríamos uma skincare mais profunda.”

Como encontrar o produto ideal

Antes de escolher qualquer produto, é importante fazer uma consulta com o dermatologista para ter um maior conhecimento das necessidades da sua pele. “A partir daí é que vai ser traçada uma estratégia de acordo com aquilo que você precisa e também com o seu tipo de pele”, diz Bianca.

Ou seja, é preciso entender o que cabe no seu bolso, na sua rotina e, claro, no seu tipo de pele. A jornalista Duda Yamaguchi, de 22 anos, aprendeu isso na infância, quando foi diagnosticada com dermatite atópica, um processo inflamatório crônico da pele, que pode levar ao aparecimento de lesões e coceira. Ela conta que, aos 14 anos, sua crise foi tão forte que a fez desenvolver piodermite, um tipo de infecção bacteriana, por todo o corpo. “Só melhorou depois que eu entrei com medicamento. E isso me fez perceber que eu não podia mais ter crises tão fortes e que precisava me cuidar. A crise ia acontecer, mas se eu cuidasse da pele a longo prazo, evitaria as mais intensas.”

Além de diminuir as crises, a rotina trouxe outros benefícios para Duda. “Na pele foi essa questão de entender que era um cuidado com a minha saúde, muito mais do que estética. Antes eu não conseguia sair de casa sem maquiagem, e cuidando da minha pele eu passei a me sentir mais confiante.” 

De acordo com os especialistas, a prevenção é o melhor caminho. Por isso é interessante que a rotina de cuidados comece ainda na adolescência. Além de trazer benefícios para a pele, a prática incentiva o autoconhecimento – e pode ser associada a um momento de relax. 

Para uma rotina mais longa

Quem pega gosto pela rotina de beleza vai, aos poucos, aumentando a quantidade de produtos utilizados – e a complexidade do processo. “Costumo dizer que o skincare é o bê-á-bá do autocuidado e, conforme nos apaixonamos, começamos a incluir mais itens em nossa rotina”, diz Wendel. Nesse ponto, o ideal é criar ao menos duas rotinas: uma para a manhã e outra para a noite.

Para a rotina matinal, limpe a pele e aplique um tônico facial assim que acordar. Ele ajudará a finalizar a limpeza do rosto e vai equilibrar o PH da pele. Em seguida é hora do sérum, que vai preparar a superfície e conduzir os demais ativos e produtos que serão aplicados em seguida. O hidratante e o protetor solar vêm logo depois; só então é hora de aplicar a maquiagem. Lembre-se apenas que é preciso esperar de 30 a 60 segundos para um produto ser absorvido para então seguir para o próximo.

Pela noite, como a pele fica mais permeável, é o momento de investir no tratamento. “Cleanser, tônico, esfoliantes ou máscaras faciais, sérum, hidratante e óleo essencial (que repõe a hidratação para períodos mais frios e secos) criam uma boa skincare noturna”, conta Wendel.

O criador de conteúdo Kaiqui Andrade, de 26 anos, diz que faz o cuidado matinal por necessidade, e é no noturno, que ele consegue relaxar. “De manhã é tudo muito corrido. Agora, depois do trabalho, vai muito além do que só passar um produto. Eu falo sozinho, eu coloco música, é o meu spa diário, é o meu momento”, conta. Ele começou a intensificar os cuidados com a pele em 2018, depois de fazer um tratamento para acne. A partir daí, passou a pesquisar sobre produtos e suas composições e pegou gosto. 

Para Patrícia Camargo, sócia-fundadora da Care Natural Beauty, foi na pandemia que descobrimos o quanto o banheiro pode ser um santuário. “O ritual do skincare deixou de ser visto como algo fútil para ser colocado num lugar de autocuidado e de estímulo ao amor-próprio”, afirma.

E foi justamente durante esse período que Kaiqui lançou o seu Instagram, @hidrataquepassa. “O skincare entrou na minha vida para me ajudar a aceitar quem eu sou. Hoje o conteúdo que eu crio fala até de maquiagem. Foi uma desconstrução, sabe? Eu morria de medo de sofrer preconceito.” 

Cuidados

Com o crescimento das rotinas de beleza pelo mundo das redes sociais é preciso tomar cuidado na hora de escolher um produto novo para testar ou seguir os passo de alguém que não tem o mesmo tipo de pele que o seu. De acordo com os especialistas, isso pode ser ainda pior do que não ter uma rotina de skincare.

Lembre-se também de que as máscaras faciais fornecem benefícios instantâneos para a pele e podem ser usadas à vontade. O esfoliante, no entanto, deve ser usado de uma a duas vezes por semana para remoção das células mortas.

“O uso diário pode interferir no processo de limpeza e gerar o efeito rebote: em vez de desobstruir os poros, a produção de sebo se torna ainda maior e perdemos a camada de proteção da pele”, comenta Wendel.

É possível também criar seus próprios produtos de skincare. “A clara em neve pode servir como máscara facial se misturada com uma colher de sobremesa de pó de café, uma colher de chá de mel e uma pitada de canela, que melhora a circulação da pele”, indica a dermatologista Natália Venturelli. “Já o açúcar pode ser um ótimo esfoliante natural.” Atente-se, no entanto, em garantir um bom protetor solar e hidratante específico para sua pele e, assim, evitar futuros problemas. No mercado as opções, com diferentes faixas de preço, são várias.

O que acontece na pele reflete nas emoções

Seja pelo cheiro agradável de um produto ou pelo toque na pele, os estímulos sensoriais são incontestáveis durante o skincare. Mas a rotina de beleza pode também mexer com as suas emoções. Isso porque a pele e o sistema nervoso têm a mesma origem embrionária (ambos derivam da ectoderma). “A nossa pele tem um eixo bilateral que é uma ligação com o nosso cérebro. Então tudo que acontece na pele tem uma reflexão na área cerebral e vice-versa, pois existem na pele inúmeros receptores neurossensoriais”, explica Fernanda Chauvin. 

A neurocosmética é a evolução da cosmética sensorial. Fica simples entender um aspecto dessa relação quando pensamos nas diversas doenças de pele que têm origem emocional – ou em sentimentos como a vergonha, que proporciona uma coloração avermelhada na pele. Outro lado pode ser compreendido quando entendemos que o corpo tem alto poder de absorção – evidenciado tanto em pomadas como em adesivos para a pele que ajudam na liberação de nicotina, por exemplo. 

Um dos neurotransmissores mais famosos na área da neurocosmética é a beta-endorfina, que busca reproduzir os efeitos positivos da felicidade na pele. A marca Care recentemente lançou o Beauty Night Oil, um sérum de tratamento noturno que possui ativos estimuladores do neurotransmissor. “Ele atua na pele de forma reparadora e calmante, diminuindo a resposta inflamatória, ao mesmo tempo que ajuda a combater o estresse e aumentar a sensação de relaxamento mental”, explica Patrícia. Segundo ela, a beta-endorfina está diretamente ligada àquilo que colocamos na pele, sendo estimulada tanto pela parte olfativa, graças aos óleos essenciais, quanto sensorial, pela massagem.

Outras marcas nacionais que vêm investindo na tecnologia são a Simple Organic e a Ellementti Dermocosméticos, que criaram o Balm CB2 e o D-Stress Oil, respectivamente, feitos com um blend de complexos naturais (Cannabinoid Active System) e aumentam a produção de beta-endorfina.

A novidade coloca a beleza ainda mais conectada com a saúde mental e física. No entanto, a dermatologista Alessandra ressalta que essa ainda é uma área que está sendo estudada. “O mercado da skincare está em constante movimento. As pessoas estão se conscientizando sobre os cuidados com a pele e é um mercado que se especializa cada vez mais”, diz.

“Mas esse é um assunto que está começando. Não é algo que a gente veja na rotina das prescrições dos dermatologistas. Ainda são necessárias mais evidências para ver o quanto eles entregam do que prometem.”

Dicas para começar  a cuidar da pele

  • Básico

Limpeza, hidratação e proteção. Esse é o tripé que deve estar presente em toda rotina de skincare.

  •  Especificidades

Cada pele é única, por isso procure um dermatologista para descobrir quais produtos devem ser utilizados no seu caso. Isso garantirá a eficácia no cuidado com a pele.

  •  Movimento

A hora de passar os produtos é de extrema importância. Muito além de uma massagem, o movimento das mãos também pode conferir benefícios como o lifting, redefinição das maçãs do rosto e até drenar as bolsas da região dos olhos.

  •  Ordem

Caso os produtos sejam aplicados na ordem incorreta, a pele não sofrerá danos, mas também não aproveitará totalmente os produtos e seus benefícios. Uma dica é pensar que as texturas mais leves (séruns e tônicos) vêm antes das mais enriquecidas (cremes e óleos).

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'É revolucionário poder falar de algo que nunca foi dito', diz a psicanalista Mariana Stock

Os questionamentos da vida laboral fizeram a psicanalista redescobrir a felicidade e ter um propósito. Hoje, ela ajuda mulheres a também encontrar essa resposta

Ana Lourenço, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2022 | 05h00

“Eu apresento um espelho bonito para as pessoas, sabe? Um espelho de uma possibilidade que está em cada uma, que todas nós temos, dessa potência de habitar o corpo, de sentir lindamente. E o que eu faço é partilhar a minha experiência e fazer o outro perceber que ele também pode.” 

É assim que Mariana Stock, comunicadora, psicanalista, terapeuta orgástica e fundadora do Prazerela, núcleo de sexualidade positiva e bem-estar, sintetiza seu trabalho.

Para ela, dar prazer ao corpo é uma forma de cuidado e beleza. “É uma questão de se olhar, de se colocar em primeiro lugar e questionar o que te traz felicidade, o que te dá prazer de viver. Se a gente se dedicar um pouquinho todo dia ao nosso corpo, a gente vai chegar lá”, coloca ela, que percorreu um longo caminho para redescobrir o prazer.

DESPERTAR

Criada por uma família conservadora de Curitiba (PR), Mariana foi ensinada a estimular a parte intelectual em vez da emocional. Assim, aos 21 anos Mariana já trabalhava no marketing de uma importante multinacional. “Mas aí chegou um momento, depois de quatro anos trabalhando lá, que começaram a vir alguns questionamentos a respeito do que eu estava fazendo ali, de qual era o objetivo daquilo tudo”, conta. 

A crise interna foi tamanha que ela decidiu pedir demissão e sair pelo mundo. E depois de quase um ano conhecendo sozinha todos os continentes, Mariana ampliou seu olhar e voltou com a certeza de que a vida precisava ser aproveitada ao máximo. 

Decidiu vir para São Paulo trabalhar em uma empresa que tivesse mais a ver com a “nova Mari”. Porém, depois de sete anos, os questionamentos voltaram a encher a cabeça da empresária. “Essa minha autoinvestigação faz parte de toda a minha trajetória desde sempre. Óbvio que há um ego que me impulsiona, que me mobiliza a tomar decisões. Mas essas decisões sempre se aprofundam na consciência.” 

SE ENCONTRAR

Como uma viagem sozinha a ajudou na primeira vez, não teria como ser diferente. Dessa vez, ela partiu para o Caminho de Santiago, rota peregrina majoritariamente na Espanha. “Foi um momento bem importante para minha vida, de perceber o quanto o peso nas costas dificulta o caminhar, o quanto a gente vai acumulando coisas e isso atrapalha a nossa capacidade de ver beleza no caminho.”

Na volta, decidiu dedicar seus dias a descobrir o que lhe dava prazer em viver. A cada dia ela se propôs a fazer uma atividade: dança, escrita, pintura, não importava. A ideia era mexer com o corpo e o lúdico. “Eu sou uma pessoa muito apegada à ciência, com um discurso muito racional. E naquele momento ficou evidente que para eu achar prazer eu precisava investigar o meu corpo.”

A partir daí começou a nascer uma necessidade de falar sobre um campo da sexualidade a partir de um viés feminista. “É revolucionário poder falar de algo que nunca foi dito. Uma sexualidade como caminho de potência, autoestima e prazer, não sobre sexo, mas sobre a nossa individualidade.”

RENASCER

As viagens, os afetos e diálogos compartilhados e principalmente a liberdade de ser quem se é permitiram que o Prazerela nascesse.

“É uma experiência pensada por mulheres e para mulheres. Não é sobre uma massagem genital, mas sim sobre uma experiência de vida, uma experiência de corpo”, conta ela.

De acordo com Mariana, nossa autoestima ainda está muito pautada no elogio e no padrão. “Muito do meu trabalho é a construção de autoestima a partir de um outro lugar. Que não é mais sobre essa expectativa em relação ao olhar do outro, mas sim um olhar amoroso próprio a nosso respeito”, diz. 

Para mudar essa situação e colocar a individualidade como protagonista da experiência do autocuidado, ela ensina mulheres a resgatar a potência de viver através da redescoberta do prazer.

“A experiência do viver é sensorial. Mas na nossa sociedade o corpo vira objeto de troca, objeto de locomoção. Deixa de ser vivenciada. A gente não tem contato com educação de sentir e qualquer menção à sua sensibilidade é cortada”, afirma. 

Com a redescoberta de si mesma, Mariana ajudou mais de 5 mil mulheres a resgatar a potência do prazer de viver por meio do autoconhecimento. “Saí de um lugar egocêntrico para ir para um lugar de entender uma necessidade humana, feminina e poder estar a serviço disso”, diz.

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  HELCIO NAGAMINE|ESTADÃO

Fios naturais, saudáveis e sem química: as tendências trazidas pela pandemia

Se antes valia tudo para ter o cabelo perfeito, a prioridade agora vai além da estética para garantir a saúde capilar

Ana Lourenço , O Estado de S.Paulo

Atualizado

  HELCIO NAGAMINE|ESTADÃO

Estresse, ansiedade, incertezas. Os sentimentos confusos foram vários ao longo dos meses dentro de casa e tudo isso, claro, afetou a saúde. O relato de quedas de cabelo, por exemplo, aumentaram consideravelmente durante o período. De acordo com o estudo feito pela Academia Brasileira de Tricologia (ABT), o impacto da covid-19 na saúde dos cabelos pode ser dividido entre fisiológico e mental.

“A questão de saúde mental veio inclusive de depressão, da falta de contato das pessoas e isso desencadeou o gatilho de patologias como psoríase, dermatites e principalmente aquilo que a gente chama de queda capilar específica, que são as não cicatriciais, derivadas de questões psicossomáticas, como, por exemplo, a alopecia androgenética (ou seja, determinada geneticamente para os homens)”, explica o CEO da ABT, Celso Martins Junior. “Existe uma relação importante da elevação do estresse, da cascata bioquímica do estresse, da elevação de cortisol no sangue com as questões psicossomáticas e o encurtamento da fase de crescimento do fio capilar.”

João, que prefere não ser identificado, sabe bem sobre essa questão. Com 22 anos, ele passou a perceber queda acentuada de cabelo e decidiu procurar uma médica dermatologista especializada no assunto. “Meu avô por parte de mãe não tinha quase nada de cabelo, então eu tenho histórico na família de calvície. Mas com vinte e poucos anos achei que fosse muito novo para isso, por isso comecei o tratamento”, conta ele, que via tufos de cabelo espalhados pelos lugares em que passava tempo. 

O tratamento ia bem até que ele pegou coronavírus, no final de 2021. “Voltei ao consultório e ela me explicou que normalmente, pelo histórico dos pacientes e os estudos que ela havia acompanhado, o cabelo pode cair com a doença. Assim, aumentamos a dose dos remédios”, diz.

Muito mais do que o lado emocional trazido à tona pelo coronavírus, as medicações usadas no tratamento, como corticoides e anticoagulantes, também geram o enfraquecimento do cabelo. “Hoje a gente sabe que a covid é uma tempestade inflamatória, com liberação de mediadores inflamatórios que são as interleucinas e elas vão circular no seu corpo como um todo, inclusive no couro cabeludo. Além disso, várias doenças febris, virais podem levar à vasculite dos vasos do couro cabeludo que pode levar à queda”, esclarece a dermatologista Marcela Mattos. 

Ela explica que, por outro lado, os pacientes também acabaram olhando mais para si mesmos e passaram a investir no autocuidado. “Depois que o paciente passa por uma situação traumática, tanto física quanto emocional, ele quer se cuidar mais. Então veio uma pegada do cuidado do skincare, a oportunidade do home office das pessoas ficarem se olhando mais pelo vídeo, por exemplo, de quererem se cuidar mais.”

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A gente não tem de ser bonito igual o fulano, a gente tem de ser bonito na nossa própria essência
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Marcela Mattos, dermatologista

ACEITAÇÃO. A onda do autocuidado esbarrou também no fechamento dos salões de beleza durante a quarentena. O que levou diversas mulheres e homens a assumirem os cabelos brancos, largarem as químicas ou iniciarem o processo de transição capilar. “Depois da pandemia, começamos a ver uma consciência muito maior. As pessoas estão passando por um processo de entender que a saúde é muito mais interessante do que um padrão de beleza estático e a qualquer preço”, diz Marcela.

A fisioterapeuta Keisa Negrão, de 48 anos, morria de vergonha dos cabelos brancos, mas decidiu assumi-los e se libertar. “Eu retocava a minha raiz a cada 15 dias. Comecei a mexer com química no cabelo muito cedo e desenvolvi alergias que provocavam coceira e feridas por todo o couro cabeludo”, conta. “Agora eu vejo o quanto sofri em busca de um padrão. Me libertei, estou muito feliz. Me sinto até mais bonita.”

Ao reabrirem, os salões entenderam esse movimento e passaram a se preocupar também em orientar o cliente. O espaço comandado pelo cabeleireiro Celso Kamura, por exemplo, investiu em um Hair Spa, para o cuidado dos fios com aromaterapia, cromoterapia e musicoterapia. “A gente inaugurou no final de 2018 e ainda estava em processo de maturação quando aconteceu a pandemia. Mas hoje em dia eu percebo uma procura maior, justamente pelas pessoas estarem pensando mais em saúde”, diz Rodrigo Tanamati, terapeuta capilar do salão. 

O processo começa com uma anamnese (entrevista com o cliente) realizada para entender o estilo de vida da pessoa. Logo é feita a análise do couro cabeludo com uma câmera chamada dermatoscópio, permitindo achar descamações, ver a densidade do fio e reconhecer o cabelo, desde o couro até a ponta dos fios. “Em vez de embelezar, a gente está cuidando”, diz Rodrigo.

Uma das clientes fiéis do salão é a modelo trans Marcela Thomé. Em suas redes sociais, ela já deixou claro a importância do seu cabelo. “Meu cabelo me deu força para eu ser quem eu sou hoje”, afirma. Assim, sempre frequentou o salão preocupada com hidratações e cortes, mas desde que o hair spa surgiu, o cuidado com os fios se tornou ainda maior.

“Quando ela veio passar comigo, senti que o couro dela estava inflamado e aí para cuidar, para dar uma acalmada, eu fiz a oleoterapia, que são os óleos essenciais junto com o óleo vegetal. Usei lavanda que é calmante, melaleuca que é bactericida e fungicida, aí fui nessa parte que é mais natural e menos invasiva”, conta Rodrigo.

SUSTENTÁVEIS. Já tem um tempo que surgem cabeleireiros com a expertise em cuidar da saúde dos fios e do couro cabeludo, priorizando o bem-estar sobre a estética. No mesmo ano da Hair Spa, surgiu a Ritu, do Studio W. Um ano mais tarde, o Studio Tez abriu as portas, assim como o Mariá Spa do Cabelo. E finalmente em 2021, o Br Concept Hair Spa

Muito mais do que deixar a cliente com um cabelo bonito, os salões propõem tratamentos para oleosidade, ressecamento e fortalecimento dos fios, priorizando o bem-estar e a saúde dos visitantes. “A gente tem construído uma dinâmica técnica dentro dos salões que tem se transformado em algo muito maior que só beleza. Os profissionais têm aprendido a enxergar e compreender o cabelo como um marcador de saúde que é o que de fato ele é”, pontua Celso Martins Junior. 

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Os profissionais têm aprendido a enxergar e compreender o cabelo como um marcador de saúde que é o que de fato ele é
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Celso Martins Junior, CEO da Academia Brasileira de Tricologia

A busca pelo cuidado intenso do fio, assumindo sua própria beleza, envolve também o aumento do uso de produtos naturais nos salões. No Satch, por exemplo, criado pelo cabeleireiro turco Ertan Karadeniz, as especiarias são colhidas no próprio local. Para o tratamento de queda e fortalecimento, uma mistura com a babosa plantada e colhida ali mesmo promove a selagem natural do cabelo.

“Eu sou do ramo há 20 anos, mas no momento que decidi criar o salão, queria algo que tivesse coerência do que faz e com o que faz. Aqui não usamos nada que tenha contaminação de metal. Nos últimos anos, diminuímos muito a aplicação de luzes e de progressivas – apesar de já não usarmos a progressiva convencional”, explica ele. “Temos que pensar que o mercado convencional se coloca como indústria. Você não consegue identificar a qualidade de matéria-prima e é um produto só para todos. Aqui gostamos de avaliar cabelo a cabelo e ver o que necessita. Nossa progressiva, que deve não ter mais no salão em breve, é vegetal e não afeta muito o Ph do fio.”

Para Karadeniz, a sustentabilidade vai além de escolher um produto. “No Satch, a gente rega as plantas com o próprio adubo que eu faço. A sustentabilidade começa do momento em que você acorda, até dormir.”

A junção da tecnologia da indústria com os benefícios dos produtos naturais, segundo os profissionais, é ideal. Um ritual com óleo de coco, por exemplo, pode tornar difícil a remoção do produto e machucar o cabelo em vez de hidratar, como talvez uma máscara pronta faria. Por isso, opções veganas e da chamada química verde vêm sendo muito valorizada pelo mercado.

A marca Keune, por exemplo, além da sua linha normal, passou a ter a “So Pure”, que é vegana, não tem sulfato e com aromas naturais de óleos essenciais. Já a italiana Davines ganha cada vez mais espaço nos grandes salões por combinar sustentabilidade e eficiência dermatológicas. Recentemente ela lançou a linha Elevating, voltada para o equilíbrio e a proteção do couro cabeludo, feito com argila brasileira.

“O Brasil é um dos maiores lugares de referência de matérias-primas naturais do mundo por conta da nossa biodiversidade. Às vezes, a nossa falta de investimento em pesquisas faz com que a gente tenha preciosidades na nossa mão, sem o uso adequado”, opina o cabeleireiro Sérgio G, da Hair Glass Brasil. Para ele, ainda estamos no começo da transição dos naturais. “Nosso câmbio dificulta o consumo de muitos produtos importados, então abriu-se essa necessidade do desenvolvimentos dos produtos naturais – que está dando oportunidades para novos negócios e um resultado esplendoroso.” 

TENDÊNCIA. A necessidade de olhar para dentro e valorizar a beleza natural também é tendência fora do Brasil. Um dos espaços que se destacam nesse campo é a JVN Hair, criada por Jonathan Van Ness, estrela da série da Netflix Queer Eye. “Muitas vezes pensamos nessa ideia de beleza como algo para nos sentirmos mal com a gente mesmo, mas nos termos e nos padrões de quem? Quando você entender que o relacionamento mais íntimo e bonito que você tem em sua vida é consigo mesmo, isso lhe dará imensa liberdade para se tornar quem você deveria ser”, coloca ele. 

Seu slogan, “come as you are” (venha como você é) traz a ideia de melhorar o cabelo, e não necessariamente fazer uma grande transformação. “A linha JVN vê toda beleza, atende toda beleza e homenageia a singularidade de cada pessoa.” Além disso, o produto é sustentável, vegano e feito com materiais recicláveis. 

Muito mais do que aceitar os fios brancos, os cachos e a falta de química, o tempo dentro de casa mudou nosso olhar sobre o que é beleza. “As pessoas estão conseguindo entender que a boca da Angelina Jolie fica linda na boca dela. Mas numa paciente que tem traços delicados aquilo vai ficar mais agressivo”, explica a dermatologista Marcela. “A gente não tem de ser bonito igual o fulano, a gente tem de ser bonito na nossa própria essência.”

Como manter a saúde e a beleza capilar 

  • Observação

Analise o seu cabelo e faça isso com calma, por meio de toque e da ajuda de um espelho. “Se perceber que o cabelo está seco, busque informações para hidratar. Se tem frizz, veja indicações de gorduras vegetais que podem sustentar a degeneração da queratina do cabelo. Lembre-se: cada cabelo é um”, indica o cabeleireiro Ertan Karadeniz.

  • Lavagem

Apesar do calor, lave o cabelo somente quando a oleosidade da raiz for visível. Caso contrário, a lavagem diária não é necessária. Aproveite que é verão e utilize água fria, ou no máximo morna. A água quente deixa o cabelo mais oleoso. Também é recomendado deixar o cabelo secar naturalmente, evitando o uso de secador e chapinha. 

  • Passo a passo

Antes de mais nada, escolha o produto específico para o seu tipo de cabelo. A higienização com o xampu deve ser feita apenas no couro cabeludo, com movimentos circulares com os dedos. Já o condicionador deve ser aplicado no comprimento e pontas, para evitar fios quebradiços. 

  • Alimentação

O que você come pode ter interferência direta na saúde dos fios. Atente-se para a ingestão de vitaminas C e D, além de alimentos ricos em ferro e proteínas. A ingestão de água regularmente também é importante. 

  • Cronograma capilar

Como cada tipo de cabelo tem uma necessidade, o cronograma varia de pessoa a pessoa, mas basicamente se constitui de hidratação, nutrição e reconstrução. Crie uma tabela semanal e vá alternando os cuidados, sempre pulando, pelo menos, um dia. 

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Dez fatores que podem prejudicar a fertilidade masculina

Quando um casal tenta a gravidez e não consegue, há 40% de possibilidade de o problema estar no homem. Mas em muitos casos ainda é possível ter um filho naturalmente

Kátia Arima, Especial para o Estadão

25 de junho de 2022 | 05h00

Quando um casal heterossexual deseja a gravidez e tem uma vida sexual ativa sem uso de contraceptivos, mas ela não acontece depois de 12 meses de tentativas, é possível investigar se há alguma condição, doença ou comportamento que esteja afetando a fertilidade. Tanto o homem como a mulher precisam ser examinados. 

“Cerca de 40% dos casos de infertilidade no casal são devido a problemas masculinos, 40% a problemas femininos, 10% dos casos são atribuídos aos dois e 10% sem causa aparente”, afirma Maurício Chehin, especialista em reprodução assistida da Huntington Medicina Reprodutiva e coordenador científico do Grupo Huntington.

Um exame simples para examinar a fertilidade masculina é o espermograma, que analisa o sêmen para avaliar concentração, motilidade e morfologia dos espermatozoides, entre outros aspectos. A pesquisa pode ser aprofundada com exames complementares, como os que avaliam dosagens hormonais, os que investigam se há alguma doença e os que buscam causas genéticas. “É uma avaliação que considera múltiplos aspectos”, explica Chehin.

O urologista Jorge Hallak, coordenador do Grupo de Estudos em Saúde Masculina do Instituto de Estudos Avançados da USP (IEA-USP), alerta que há um abuso da indicação das técnicas de reprodução assistida, de custo e risco mais altos. Na sua visão, é preciso avaliar e cuidar da saúde do homem como um todo para que ele possa, se possível, ter um filho pelo processo natural. “Não dá para pegar um simples espermograma e dizer que um homem deve recorrer a um método de fertilização in vitro”, ensina. 

Veja a seguir algumas condições e comportamentos do homem que podem ter impacto na fertilidade masculina e dificultar os planos de família do casal.

Varicocele

Principal causadora da infertilidade masculina, a varicocele é caracterizada pela dilatação das veias dos testículos, semelhante às varizes que aparecem nas pernas. Geralmente ela avança silenciosamente, sem sintomas, até que esteja grave. O problema de circulação sanguínea no local pode comprometer não só a formação de espermatozoides como afetar os testículos. 

Quanto antes a doença puder ser tratada, melhor. Por isso é recomendável que o homem consulte um urologista periodicamente desde a adolescência.

Diagnosticada a doença, a partir de exame físico em consultório de urologista e talvez um exame de imagem com ultrassom com doppler, é recomendada uma cirurgia de correção, não só para eliminar uma possível causa de infertilidade, mas para evitar complicações da doença.

Covid-19 e outras doenças

O vírus da covid-19 também pode infectar os testículos e prejudicar a capacidade masculina de produzir espermatozoides e hormônios, mesmo quando o quadro é leve ou assintomático, afirma o urologista Jorge Hallak, um dos participantes do estudo realizado no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP) e no Instituto Androscience. 

Vacinas contra a covid-19 não interferem na fertilidade, segundo estudos do American Journal of Epidemiology, que analisou os imunizantes da Pfizer-BioNTech, Moderna e Janssen. Doenças sexualmente transmissíveis (DST), doenças infecciosas, como a caxumba, e crônicas como diabete também podem prejudicar a fertilidade nos homens.

Sobrepeso e obesidade

O sobrepeso e a obesidade podem provocar um desbalanço hormonal no homem capaz de prejudicar a produção de espermatozoides. Além disso, o acúmulo de gordura na região do púbis pode aumentar a temperatura do testículo, o que pode influenciar negativamente na produção de células sexuais. 

Uso de anabolizantes e medicamentos

Consumidos com o objetivo de melhorar a aparência e desempenho do corpo, os anabolizantes são hormônios sintéticos derivados principalmente do hormônio sexual testosterona. O uso de anabolizantes pode provocar uma forte queda na produção de espermatozoides. “Pode levar à azoospermia, que é a ausência de espermatozoides no sêmen. Mas, ao parar o consumo, há grande chance de se recuperar a produção no período de 3 a 6 meses”, adianta Chehin. 

Poluição

A poluição atmosférica influencia negativamente na morfologia e motilidade dos espermatozoides, segundo pesquisa conduzida por pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).

Plástico aquecido no microondas

Aquecer uma embalagem ou copo de plástico com uma bebida ou um alimento é uma péssima ideia, já que há liberação de bisfenol (BPA), um disruptor endócrino que causa alterações hormonais que podem interferir na fertilidade masculina. Portanto, nada de colocar a comida do delivery direto no micro-ondas.

Falta (ou excesso) de sono

Fundamental para o bom funcionamento dos mecanismos fisiológicos do corpo, o sono tem associação com a fertilidade masculina. Tanto o excesso como a privação de sono podem ter impacto, de acordo com uma pesquisa da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de Boston, que aponta que o tempo ideal de descanso fica entre 7 e 8 horas por noite. Quando o período de sono for menor ou maior que esse intervalo, o estudo apontou 42% de redução na possibilidade de concepção.

Álcool e cigarro

Outros fatores que podem contribuir para a infertilidade masculina relacionados ao estilo de vida é o consumo excessivo de álcool e o hábito de fumar. O impacto não é só na produção de espermatozoides, como na integridade do DNA dos espermatozoides, o que dificulta o processo de fertilização e diminui a chance de formar um embrião. Isso não significa que o álcool esteja proibido, pois estudos mostram que o consumo moderado não é prejudicial para a fertilidade masculina. 

Longos períodos na banheira quente e na sauna

Não é à toa que os testículos se encontram “pendurados”: a formação de espermatozoides exige uma temperatura mais baixa do que a temperatura corporal. Portanto, qualquer aumento de temperatura na região escrotal que seja mantido por longos períodos, como banhos demorados de imersão e sauna, podem atrapalhar esse processo, embora sejam raros. Roupas apertadas ou com tecidos sintéticos que elevem a temperatura da bolsa escrotal também são prejudiciais. 

Problemas genéticos

Existem diversas doenças genéticas associadas à infertilidade masculina, mas essa é uma causa menos comum do problema. Um exemplo é a síndrome de Klinefelter, em que o homem tem um cromossomo X a mais, o que acarreta em deficiência de produção de hormônio testosterona e impossibilita a espermatogênese normal.

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