Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Só 1 em cada 5 meninos tomou vacina contra HPV

Imunizante é oferecido na rede pública para o público masculino, de 11 a 14 anos, desde 2017; vírus está relacionado a câncer de colo de útero, pênis, ânus, garganta, vulva e vagina

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2019 | 14h00

SÃO PAULO - Quase três anos após começar a ser oferecida na rede pública gratuitamente para meninos, a vacina contra o HPV alcançou somente 21% do público esperado. Dados do Ministério da Saúde obtidos pelo Estado mostram que somente um em cada cinco adolescentes de 11 a 14 anos que já deveriam estar protegidos contra o vírus tomaram, de fato, as duas doses da vacina necessárias para garantir a imunização.

O HPV é mais conhecido por provocar o câncer de colo de útero, mas também pode causar outros tipos de tumores, como os de pênis, ânus, garganta, vulva e vagina. Em 2014, a vacina começou a ser ofertada para meninas no Sistema Único de Saúde (SUS) e teve a indicação ampliada para meninos no início de 2017.

A cobertura da vacina contra o HPV entre meninos é ainda menor do que a observada em meninas, também considerada baixa. Entre o público feminino, o porcentual de adolescentes que tomaram as duas doses do imunizante desde que a vacina foi incorporada na rede pública é de 42%. A meta do ministério para ambos os casos é que a cobertura chegue a 80%.

Segundo relatos de especialistas e de pais de adolescentes nessa faixa etária, o desconhecimento sobre a oferta dessa vacina no SUS é a principal razão para a adesão tão baixa ao imunizante. "A vacinação de adolescentes no geral é um desafio porque os pais geralmente associam a necessidade de vacinas somente à infância, não sabem que há vacinas que devem ser dadas na adolescência. Especificamente no caso da vacina contra o HPV para meninos, há uma dificuldade ainda maior porque a maioria das pessoas associa o vírus apenas ao câncer de colo de útero", explica Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm). Somam-se a esses fatores uma divulgação insuficiente da oferta dessa vacina para meninos e a ausência de campanhas dentro das escolas.

Mesmo já tendo vacinado a filha mais velha contra o HPV na rede pública e saber da importância da vacina, a fisioterapeuta Flavia Rosendo Angi, de 46 anos, não imunizou o filho Henrique, de 11 anos, por desconhecer que o SUS havia passado a oferecer o produto também para os adolescentes do sexo masculino. "Nem a escola nem o pediatra comentaram sobre a necessidade da vacinação e sobre estar disponível no SUS. Acho que faltam campanhas mais amplas, na internet, nos meios que os adolescentes mais utilizam, como o YouTube. Se eles entenderem a importância, serão os primeiros a comentar com os pais", diz Flavia, que, ao saber pela reportagem sobre a oferta da vacina, pretende vacinar o filho.

A farmacêutica Fabiana Areias, de 40 anos, é uma das poucas que já vacinou o filho, Pedro, de 12, contra o HPV, mas conta que só descobriu que a vacina estava disponível no SUS por acaso, ao levar o adolescente ao posto de saúde por outra razão. "Dei a vacina agora em junho quando fui ao posto vaciná-lo contra a febre amarela. Lá o profissional de saúde me disse que ele estava na idade da vacina contra o HPV também. Como eu já planejava dar essa vacina de qualquer forma, mesmo se fosse na rede particular, aproveitei a ocasião", conta ela.

Para Kfouri, o ideal é que as vacinas recomendadas para adolescentes sejam dadas em campanhas nas escolas, por meio de parcerias entre os Ministérios da Saúde e Educação, Estados e municípios. "Os países em que a vacinação nessa faixa etária deu certo foram os que instituíram a vacina na rede escolar. A primeira campanha de HPV para meninas no Brasil foi feita assim e teve altíssima adesão", comenta o especialista.

Questionado sobre as estratégias para aumentar a cobertura vacinal entre meninos, o Ministério da Saúde admitiu que a vacinação nas escolas "é bastante positiva", mas ponderou que tal decisão deve ser "de cunho estadual e municipal".

 

Perguntas e respostas sobre o HPV e a vacina

O que é o HPV?

Vírus transmitido pela relação sexual ou pelo contato direto com pele ou mucosas infectadas, o HPV é responsável pela quase totalidade dos casos de câncer do colo do útero, por mais de 90% dos casos de câncer anal e por 63% dos cânceres de pênis, além de parte de outros tipos de tumores, como os de garganta, vulva e vagina.

Quem pode se vacinar no SUS?

Devem receber a vacina no SUS meninas de 9 a 14 anos e meninos de 11 a 14 anos. Também podem receber o imunizante gratuitamente pessoas vivendo com HIV/Aids, transplantados de órgãos sólidos, de medula óssea e pacientes oncológicos, todos entre 9 e 26 anos.

Quantas doses são necessárias?

A vacina é dada em duas doses, com intervalo de seis meses entre cada uma delas. No caso de pessoas vivendo com HIV/Aids, transplantados e pacientes oncológicos, são necessárias três doses, com intervalos de dois e seis meses após a primeira.

Por que a vacina é dada nessa faixa etária?

Porque é mais favorável que a vacinação seja feita antes que a pessoa tenha atividade sexual.

Por que é importante que os meninos também se vacinem contra o HPV?

Porque além de proteger os adolescentes contra cânceres como os de pênis e de ânus e contra verrugas genitais, a vacina também permite que o número de homens infectados no futuro diminua, reduzindo, assim, o número de potenciais transmissores do vírus para mulheres.

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