Foto: Alex Silva/Estadão - 19/4/2020
Grafite na região da Avenida Paulista pedem que a população fique em casa durante a pandemia. Foto: Alex Silva/Estadão - 19/4/2020

Só pela subnotificação, já devemos ter mais casos que os Estados Unidos

Nossa estimativa é de que, se fossem incluídos os casos que ainda não foram notificados, o número total passaria dos 4 milhões

Domingos Alves, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP

26 de maio de 2020 | 10h00

Todas as evidências apontam que o Brasil é o epicentro do novo coronavírus. Primeiro, é preciso considerar o fato de que o número de casos e óbitos aqui são subnotificados. O que aparece nos boletins brasileiros são números de pessoas internadas. A verdadeira chama dessa fogueira não aparece nesses números de uma maneira geral: são os assintomáticos e os sintomáticos leves. São essas pessoas que estão levando mais gente a ser infectada.

O número de casos no Brasil é de pouco mais de 374 mil, segundo os números oficiais. Nossa estimativa é de que, se fosse incluída a subnotificação, o número de casos passaria dos 4 milhões. Esse é o primeiro motivo para dizer que o Brasil é o principal polo da pandemia. Só pela questão de subnotificação, já devemos ter mais casos que os Estados Unidos.

Além disso, nossas taxas de crescimento oficiais são maiores do que a da maioria dos países. A nossa taxa de óbitos por dia ultrapassou a França no dia 62. No dia 63 para 64, que estamos agora, ultrapassamos a Espanha e a Itália. Nessa época, quando olhávamos para a Europa, todos achávamos o número absurdo. E, até o final desta semana, devemos ultrapassar a taxa da Grã-Bretanha.

A partir do dia 50, a nossa curva ainda foi aumentando, enquanto a dos outros países foi diminuindo - tanto no número de casos quanto no de óbitos. E isso pode estar relacionado às mudanças de comportamento e ao histórico da adesão da população diante das medidas de restrição de mobilidade.

O pico no Brasil, que era estimado para junho, vai ser jogado meses para frente. Faz dois meses que foram decretadas medidas de restrição e mobilidade em diversas regiões do País. No cenário que vemos, as medidas ainda não foram suficientes para mudar o comportamento da curva por aqui.

Os modelos usados para acompanhar a pandemia não indicam a data de quando ela vai acabar. E nossas análises não apresentam proximidade do pico. O que conseguimos mostrar é que há uma tendência de subida, com um crescimento ainda de comportamento exponencial. Os casos estão dobrando no Brasil em uma semana, uma semana e meia, em média. Mas pode ser que, na próxima semana, dobre em menos tempo. 

Há mais de um mês, o Brasil já era o epicentro mundial. A epidemia brasileira e a do Peru são as mais graves na América do Sul, que ultrapassa todos os continentes e países isolados no número de casos e de óbitos.

Quando se olha os números, pode ficar parecendo que as medidas de isolamento até agora não funcionaram. Mas não é isso. Se nada tivesse sido feito, talvez estivéssemos com um milhão de óbitos no Brasil. Mas a questão é que as medidas não funcionaram adequadamente. Por isso, é preciso que os governantes e gestores façam um pacto com a população, dando apoio para que o isolamento de fato aconteça. 

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Brasil já passa os Estados Unidos em número de mortes diárias

Embora notificações diárias estejam sujeitas a problemas, números mostram aceleração do vírus pelo Brasil e apontam cenário preocupante

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2020 | 10h00

O Brasil superou os Estados Unidos no registro diário de mortes decorrentes do novo coronavírus. O Ministério da Saúde brasileiro confirmou 807 novos óbitos nessa segunda-feira, 25, dia em que o Centro de Prevenção e Controle de Doenças (CDC) americano incluiu 620 mortes no balanço oficial. Foi a primeira vez, segundos os dados oficiais, que a pandemia fez com que o Brasil tivesse mais notificações de mortes do que os Estados Unidos. 

Já de acordo com o levantamento da Universidade Johns Hopkins, o registro diário de óbitos nos EUA foi de 532 nesta segunda-feira, 25. O que diferencia as fontes é a multiplicidade de bancos de informações usada pela Johns Hopkins, enquanto o CDC, órgão do governo federal americano, depende de dados dos departamentos de saúde estaduais e municipais. 

Balanços diários de mortes, porém, muitas vezes são influenciados por problemas de notificação. Os registros no Brasil despencam em fins de semana e feriados, por exemplo, por causa dos regimes de plantão nos centros de saúde e em laboratórios, o que atrasa o repasse das informações.  A escassez de testes faz também que óbitos sejam incluídos no balanço apenas semanas depois da morte, pela falta de confirmação do diagnóstico. 

OS EUA registraram até esta segunda 1,6 milhão de casos, com 97,6 mil mortes, de acordo com o CDC. Os dados brasileiros mostram 374,8 mil casos, com 23,4 mil mortes. Mas, enquanto os números começam a cair por lá, por aqui a expectativa é de alta.

A ultrapassagem nos dados diários de óbitos ocorre em um contexto no qual a América do Sul é considerada um novo epicentro da pandemia. A constatação foi feita pela Organização Mundial da Saúde (OMS) na semana passada, que alertou para a situação de Estados como o Amazonas, onde a taxa de infectados é de 652,4 infectados a cada 100 mil habitantes.

A Casa Branca antecipou nesta segunda, em dois dias, as restrições de viagens do Brasil aos Estados Unidos, anunciadas depois que o país tornou-se um dos maiores focos da crise do coronavírus no mundo. A medida entrará em vigor às 23h59 de terça-feira, 26, segundo comunicado oficial americano. A pressão vinha crescendo sobre o presidente Donald Trump diante do agravamento da situação no Brasil, onde o patamar diário de mortes ultrapassou as mil vítimas na semana passada.

Repercussão

O fracasso na adoção do isolamento social, o déficit de testagem e a postura negacionista de parte dos líderes políticos são apontados por especialistas como fatores que levaram o Brasil ao agravamento do quadro. 

Na opinião de Mario Scheffer, professor da Faculdade de Medicina da USP, o País atingiu esse patamar por conta do fracasso no distanciamento social e da falta de testes para identificar os infectados. “Não foi estruturada uma rede de testagem para detectar e isolar os sintomáticos, persistindo a infecção intra e extra domiciliar, o que acelerou a disseminação do vírus”, diz o especialista. “Três meses depois de decretada a emergência nacional, ainda é improvisada e insuficiente a rede de terapia intensiva e de suporte a casos graves”, completa.

O virologista Rômulo Neris, mestre em Microbiologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), atuou na Universidade da Califórnia como pesquisador visitante até a semana passada. Mas decidiu retornar ao Brasil para trabalhar na força-tarefa contra a covid-19. O especialista afirma que os dois países mostraram trajetórias similares no início do enfrentamento à pandemia, mas depois se distanciaram. “No início da pandemia, os dois países tinham déficit na capacidade de exames, mas os EUA conseguiram aumentá-la. Eles adquiriram respiradores e máscaras, em alguns casos de maneira até questionável. Mas se preocuparam em acumular recursos para enfrentar a pandemia. O Brasil continua com déficit na capacidade de exames a ponto de não conseguir fazer previsões sobre o surto”, opina.

O País supera os Estados Unidos depois de três meses desde o primeiro caso confirmado (26 de fevereiro) e pouco mais de dois meses desde que foi registrada a primeira morte em decorrência da doença (17 de março). Nos Estados Unidos, o primeiro caso foi registrado no dia 26 de janeiro. A primeira morte de um cidadão norte-americano aconteceu no dia 6 de fevereiro.

O epidemiologista Paulo Lotufo também vê similaridades entre EUA e Brasil nas dificuldades de enfrentamento à pandemia. “Brasil, Estados Unidos e outros países que tomaram atitudes baseadas no desejo político dos governantes, minimizando os efeitos da pandemia, estão se dando mal”, opina o especialista. “O negacionismo dos presidentes (Donald Trump e Jair Bolsonaro) e a demora em adotar a quarentena são algumas semelhanças entre os dois países. Lá pesou um sistema privado fragmentado e aqui, um SUS sucateado”, analisa Scheffer.

O especialista se refere à postura de Trump, que minimizou os efeitos da covid-19 no início da pandemia. Depois que seu país se transformou no epicentro mundial do novo vírus, ele mudou a atitude, negociou com o Congresso um pacote financeiro para resgatar a economia e estendeu as restrições à circulação. No Brasil, Bolsonaro defende o isolamento vertical, que deveria ser realizado apenas pelos grupos de risco em sua opinião, e critica a quarentena por conta dos prejuízos à economia.

A maneira como a doença se expandiu foi semelhante nos dois territórios, opina Márcio Bittencourt, mestre em Saúde Pública e médico do Hospital Universitário da USP. “No Brasil, tivemos surtos separados e independentes acontecendo paralelamente. Não tivemos um surto em São Paulo que foi se espalhando para outras regiões, em escala nacional. Também tivemos surtos em Fortaleza, Manaus, Recife e Rio de Janeiro”, enumera. “Nos EUA, tivemos um surto em Seattle, quase um mês antes de Nova York. Depois tivemos New Orleans e Chicago”, compara.

Nesse contexto, Neris prevê novos surtos em território americano. “O número de casos continua aumentando, pois a doença está migrando para regiões centrais, que possuem concentrações populacionais mais baixas. Alguns desses estados não implementaram o lockdown de maneira preventiva. Ainda que a situação se estabilize, provavelmente teremos uma escalada de casos nas regiões mais centrais, sem a gravidade do surto em Nova York”, explica o especialista.

Desafio

Por conta do aumento de casos no Brasil e também pelo avanço da doença em países como Equador, Chile e Peru, o diretor do programa de emergências da Organização Mundial da Saúde (OMS), Michael Ryan, classificou a América do Sul como “um novo epicentro” da pandemia na semana passada.

Agora o desafio brasileiro é desacelerar o avanço da doença para tentar diminuir o número total de casos, diz Neris. “Na falta de uma vacina, a maior parte das alternativas para tentar controlar a dispersão do vírus está relacionada a medidas de isolamento. O lockdown não pode ser para remediar o problema. Ele tem de ser preventivo, e a ideia é que seja imediato. A Califórnia estabeleceu o lockdown logo no início e não confirmou a previsão de que seria um dos centros da epidemia nos Estados Unidos”, explica.

Lotufo também defende o lockdown e recomenda isolamento radical de pelo menos 15 dias em São Paulo e no Rio de Janeiro, duas cidades com alto número de casos. Márcia Alves dos Santos, pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), defende a formação de colegiados regionais para agir contra a pandemia.

“Todos os atores sociais devem compor gabinetes de crise regionais. O repasse de recursos financeiros do nível federal, bem como as contribuições de empresas, dos fundos e da sociedade civil devem considerar esta alternativa de gestão colegiada de crise. Esta (re)condução pode reverter e diminuir os casos e mortes da covid-19 e reescrever a experiência brasileira”, afirma.  

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