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SOS Amazonas: coletivos montam força-tarefa para ajudar hospitais de Manaus sem oxigênio

Campanha formada pela população já arrecadou quase R$ 5 milhões em apoio para o sistema de Saúde do Estado, que está em colapso pela pandemia do coronavírus

João Ker, O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2021 | 13h40

Uma rede com 10 coletivos e organizações sem fins lucrativos se uniu nesta semana para concentrar doações aos sistemas de saúde pública e privada em Manaus. Batizada SOS Amazonas, a força-tarefa conseguiu em apenas dois dias um montante de quase R$ 5 milhões revertidos em cilindros e concentradores de oxigênio para os hospitais da capital. 

A campanha começou ainda na segunda-feira, 11, e inicialmente tinha como objetivo oferecer apenas os insumos que já estavam em falta nos hospitais, como luvas, máscaras, fraldas geriátricas etc. “Quando chegou essa demanda na quinta-feira, de já vermos logo de manhã os amigos médicos pedirem ajuda porque não tinha mais oxigênio e as empresas fornecedoras locais também não tinham para atender, voltamos nossa atenção para os cilindros”, explica Suelen Araújo.

Aos 25 anos, a assistente social é presidente do Instituto Ágape, uma associação civil fundada há cinco anos para atuar no Amazonas com projetos para educação, sustentabilidade, empreendedorismo e ações emergenciais como enchentes e incêndios. “Na tarde de quinta-feira, o mundo todo começou a olhar aqui para Manaus, nossa campanha viralizou e temos recebido muitas ajudas de logística, transporte e doações”, conta.

Até o momento, a SOS Amazonas já conseguiu comprar 140 cilindros e 38 concentradores de oxigênio que chegaram no sábado, 16, em Manaus. O frete do transporte aéreo foi fornecido pela Azul e pela Latam, que não cobraram pela operação. Suelen conta que o grupo ainda está em negociações para comprar outros 350 cilindros de 50 litros.

Na tarde de sábado, a Azul confirmou que a aeronave inicialmente destinada a buscar as doses da vacina contra a covid-19 na Índia pousou em Manaus com 40 cilindros e 60 concentradores de oxigênio, além de 700 kg de máscaras de proteção facial. Outros 40 cilindros serão transportados em um segundo voo da empresa, ainda sem data definida para decolagem.

Em nota, a Latam afirma que também já enviou 500 cilindros para Manaus na quinta-feira, 14, em parceria com o governo do Estado e a pedido do Ministério da Saúde. Na sexta, a empresa se uniu à Universidade de São Paulo (USP) e ao Governo de São Paulo para o transporte de ventiladores pulmonares Inspire, desenvolvidos pela Escola Politécnica da USP. Os equipamentos foram enviados para cinco hospitais da capital amazonense e novos voos partirão para o Estado na próxima semana. Neste domingo, 17, um novo avião da companhia transportou .

Apesar do valor alto nas doações, Suelen explica que elas ainda não são suficientes para atender toda a demanda do Estado. Cada cilindro tem custado em média R$ 2,2 mil reais e é o suficiente para atender por dois dias um paciente internado em enfermaria. Para os de UTI, um cilindro não é suficiente nem para 24 horas de uso. “Uma pessoa consome muito oxigênio por dia. Mesmo que esteja chegando muito, ainda tem muita demanda aqui, fora o interior. Nossos vizinhos estão clamando por socorro.”

“A gente entende que o governo não dá conta, então estamos nos movimentando”, explica Sarah Figueiredo, advogada de 28 anos. Fundadora da Amor Sem Caô, organização de Manaus criada em 2015 e que também faz parte da SOS Amazonas, ela conta por telefone que também está com diagnóstico positivo para a covid-19, já perdeu familiares para a doença e tem outros parentes internados neste momento em Manaus. “Ajudamos como dá.”

Ao todo, são cerca de 100 voluntários, de todas as idades e profissões, divididos nas operações da SOS Amazonas. Além de 23 pessoas no grupo principal de trabalho, os outros têm atuado na cotação de preços, distribuição, entrega, contato direto com os médicos e hospitais, prestação de contas e divulgação. Nos últimos dias, a campanha ganhou o apoio de nomes como o comediante Whindersson Nunes, o jogador de futebol Richarlison e a apresentadora Sonia Abrão.

“É uma mistura de sentimentos e muita emoção. Ao mesmo tempo que recebemos a demanda de gente sem oxigênio, em contrapartida temos muitas doações. A gente fica triste, sente esperança, vemos pessoas que têm como fazer pelo Estado não fazendo e assumindo um papel omisso…”, desabafa Suelen, que também está com familiares internados por covid-19. “Nós, voluntários, às vezes deixamos nossa dor particular para olhar o todo, para quem também está precisando. Não queremos sair como heróis, mas exercer nosso amor enquanto seres humanos.”

“Vemos muitas pessoas falando, principalmente no Sul e Sudeste, que é ataque da mídia e que estão exagerando, mas a gente aqui sabe que não é assim. Eu fui para dentro de dois hospitais particulares e vi gente gritando socorro em todos os cantos. Não quero nem imaginar como deve ser na rede pública”, conta Sarah.

Uma planilha online e de acesso público foi disponibilizada neste domingo, onde é possível acompanhar a prestação de contas das doações e com as notas fiscais. Além do Instituto Ágape e da Amor Sem Caô, também participam da SOS Amazonas os grupos Salaada Solidário, BorAjudar, Projeto Mais Amor, Projeto Somar, Instituto Tchibum, ONG Moradia e Cidadania, Global Shapers e o Grupo de Apoio Solidário. 

Veja abaixo como contribuir com a campanha.

 

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