André Borges/Estadão
Idoso dorme na rodoviária em Brasília André Borges/Estadão

Sozinhos na rua: a tragédia anunciada pelo coronavírus nos centros urbanos das cidades

Cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Brasília não têm abrigos suficientes para acomodar aqueles que não têm casa

André Borges, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2020 | 05h00

BRASÍLIA – A rua. O espaço onde a vida social acontece e que passou a ser evitado por todos é o lar de mais de 120 mil famílias no Brasil, pessoas que perambulam de um lado para o outro, sem ter para onde ir. Invisíveis no cotidiano das grandes cidades, os moradores de rua estão na linha de frente do novo coronavírus, com risco iminente de serem varridos pela doença.

Na rodoviária de Brasília, a três quilômetros do Palácio do Planalto, onde o presidente Jair Bolsonaro abraçou pessoas uma semana atrás e disse que a covid-19 não passava de uma fantasia, o morador de rua Rubens da Silva, 53 anos, afirma que está com medo da doença, mas que vê riscos de, antes dela, morrer de fome. “Ouvi falar dessa coisa, a gente fica com medo. Mas pra mim, a tristeza mesmo é não ter o que comer. Eles fecharam tudo. A gente tá ficando sozinho na rua.”

Rubens da Silva faz parte da crescente estatística dos esquecidos. Nos últimos sete anos, a quantidade de famílias em situação de rua registradas no Cadastro Único, que serve de base para o Ministério da Cidadania tocar programas sociais, aumentou mais de 16 vezes, de 7.368 famílias em 2012 para mais de 120 mil famílias em 2019.

Cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Brasília não têm abrigos suficientes para acomodar aqueles que não têm casa. Em muitas situações, essas pessoas preferem seguir nas ruas, morando em becos, viadutos, portarias e onde mais for possível. “Eu prefiro a rodoviária, melhor que ficar no albergue. Aqui tem luz, tem câmera filmando a gente, é menos perigoso”, diz Marlon Alves, 45 anos, que mora há cinco anos ao lado das colunas de concreto da rodoviária da capital federal. Como muitos daqueles que vivem na mesma situação, ele não tem ideia dos riscos do coronavírus. “Sei não. As pessoas passam, usando máscaras. Deve ser mais uma gripe.”

Marlon Alves é uma das cerca de 3 mil pessoas que dormem nas ruas da capital federal. Em Belo Horizonte, 7 mil não têm lar. No Rio de Janeiro, há 15 mil pelas calçadas. Em São Paulo, que viveu uma explosão de pessoas em situação de rua nos últimos anos, há 24 mil habitantes sem lar, largados pelas ruas da cidade.

O pedido persistente para que as pessoas se recolham em suas casas para evitar a propagação da covid-19, saindo para a rua somente em situações de extrema necessidade, deixou milhares de pessoas lançadas à própria sorte. Ao abandono, soma-se agora um inimigo invisível. É grande o risco de muitos virem a óbito pelo coronavírus, e sequer entrarem para as estatísticas alarmantes da doença.

Tentativas. Alarmadas com o prenúncio de uma catástrofe, as cidades se mobilizam às pressas para fazer alguma coisa. Dona da maior população de rua do País, a cidade de São Paulo tenta dar um jeito de frear uma nova tragédia sobre a que já existe. Pias serão instaladas no centro da cidade, onde se concentram o maior número de pessoas nesta situação para que possam fazer higienização como forma de prevenção.

A prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Saúde, aumentou as abordagens àqueles que vivem em situação de rua para um primeiro atendimento. Se for identificado um caso suspeito, é feita uma pesquisa sobre onde a pessoa dorme e circula, para encontrar possíveis novos suspeitos. A pessoa é encaminhada à unidade de saúde para atendimento e diagnóstico e, em caso de maior gravidade, o (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) Samu é acionado.

São Paulo possui 17,2 mil vagas em abrigos, para uma população de mais de 24 mil pessoas em situação de rua. Nos abrigos, estão afastando as camas, para manter a distância mínima de dois metros entre cada morador. Ao Estado, o governador João Dória disse que não faltará assistência. “Não seremos omissos nem levianos com a população de rua e estaremos ao lado das prefeituras no acolhimento e amparo de quem mais precisa”, disse.

No Rio, o Sambódromo, que há menos de um mês recebia milhares de pessoas para ver o espetáculo das escolas de samba, poderá ser abrigo para moradores de rua. O Estado fluminense também avalia uma forma de alocar as pessoas em hotéis populares, com o uso de recursos do fundo de combate à pobreza. Os números iniciais apontam para cerca de 400 vagas de hotéis. Outra medida prevê a distribuição de 2 milhões de kits de comida e higiene, só que ainda não sabe como isso será feito. Pensaram em usar algum cadastro social para facilitar a distribuição e evitar aglomerações, mas há muita gente que não está dentro de cadastro nenhum e que vive nas ruas.

Em Brasília, o governo começou a catalogar a população em situação de rua. Esse levantamento terminou na semana passada e identificou, até o momento, 1.851 cidadãos. Os idosos são prioridade. A primeira medida tomada foi verificar a existência de algum vínculo familiar ou comunitário, para que seja feita uma intervenção, com o propósito de que o idoso retorne à família de origem. “Não havendo um lar de referência, a pessoa será encaminhada para uma das cerca de 20 unidades de acolhimento do DF”, informou o governo do Distrito Federal. Um serviço especializado em abordagem social, que realiza o atendimento diretamente nas ruas, tem procurado informar as pessoas sobre os riscos da doença e distribuído máscaras.

Na Esplanada dos Ministérios, sentado na calçada, Marlon Alves ajusta uma máscara suja de fuligem em seu rosto. “Falaram para eu usar. Vai ficar tudo bem. Não tenho medo, não.”

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Coronavírus: com a cidade vazia, falta de bicos derruba renda dos moradores de rua em SP

‘Está difícil viver neste caos’, diz homem que está dependendo exclusivamente do Bolsa Família e de doações

Caio Nascimento*, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2020 | 04h59

Com muitas pessoas em quarentena e a cidade vazia, restam nas ruas de São Paulo os desabrigados, que só podem voltar ao albergue à noite e passam o dia perambulando pelas calçadas ou à procura de um ganha pão. O Estado conversou com alguns deles. Um morador de rua, de 34 anos, contou que a ganha a vida vendendo água, pano, distribuindo panfleto no farol ou montando palco em dia de grandes eventos. Mas tudo parou após a pandemia da covid-19.

“Pessoal está com medo de chamar para bico. Antes do coronavírus, vinham até o albergue buscar a gente para trabalhar. Até os que pagavam 50 reais para eu trabalhar 10 horas por dia carregando peso não estão vindo mais”, contou ele, que agora depende exclusivamente de doações e do Bolsa Família para sobreviver.

“A coisa está feia até para o pedinte, porque as pessoas estão com medo de se aproximar. Está difícil viver nesse caos”, completa. Outro morador de rua, de 30 anos, está na mesma situação. Ele vendia pano no semáforo, mas está sem conseguir trabalhar pela falta de movimentação. “Faz uma semana e meia que estou assim, sem dinheiro”, afirma. Para além do lado financeiro, ele trata um câncer no estômago e tem medo de a baixa imunidade lhe deixar ainda mais vulnerável à infecção pelo coronavírus.

O coordenador da Pastoral do Povo de Rua de São Paulo, padre Júlio Lancellotti, organiza doações para moradores de rua todos os dias na Paróquia de São Miguel Arcanjo, na zona leste da cidade, e relata que há muitos jovens querendo voltar para a família neste momento. “É dramático ver o sofrimento. Um deles me questionou: ‘a gente já vive no meio de tanta desgraça… será que vamos sofrer com isso também?’." O religioso analisa que a pandemia minou diversos setores da economia informal da qual a população de rua se sustenta.

“Com a menor circulação de carros, eles não estão conseguindo trabalhar em estacionamento, limpeza de retrovisores ou lava-rápidos. Tem também uma redução grande no número de doação de alimentos à noite para aqueles que dormem na rua”, explica. “O coronavírus está pesando muito sobre essas pessoas. Sem contar que eles não têm como e onde estocar alimentos”, completa.

Visando amenizar esse impacto negativo, a Defensoria Pública da União lançou na quarta-feira, 18, um ofício com recomendações emergenciais à Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social (Smads). 

“A peculiar situação das pessoas que se encontram em situação de rua demanda cuidados especiais, sobretudo se considerarmos o altíssimo poder de transmissibilidade da doença, bem como o fato de que, não raramente, tais indivíduos são portadores de doenças pré-existentes que os qualifica justamente como grupo de risco”, alegam os defensores no documento.

A cartilha contém oito sugestões, solicitando o reforço da higiene,  o fornecimento de alimentos e o uso de espaços públicos educacionais e esportivos fechados para abrigar a população de rua. Enquanto isso, o Ministério Público do Estado de São Paulo sugeriu via ofício na segunda-feira, 16, a realização de obras emergenciais para reforçar a baixa ventilação natural dos albergues, já que muitos carecem de janelas e a falta de aeração pode aumentar a disseminação de doenças infectocontagiosas. Ao todo, o município conta com 89 centros de acolhimento, totalizando 17,2 mil vagas.

Procurada pela reportagem, a Smads informou apenas que "recebeu as duas notificações e prestará os esclarecimentos solicitados". Mas os moradores de rua entrevistados contam que não presenciaram obras e continuam sem acesso a locais públicos para se abrigar. 

Enquanto as iniciativas mais estruturais não são tomadas, moradores de rua contam que dependem apenas da Pastoral do Povo de Rua e outras ONGs para conseguir insumos e retaguarda fora dos albergues. A organização católica abriu a Casa de Oração do Povo da Rua, no centro de São Paulo, para acolher em regime de quarentena os desabrigados com suspeita do coronavírus. O local tem capacidade para receber, com o devido isolamento, até 50 pessoas. 

*Estagiário sob a supervisão de Charlise Morais  

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