Governo do Estado de SP/Divulgação
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SP vê adesão ao isolamento cair e estende quarentena até 22 de abril

Queda foi identificada entre 3ª semana de maio e início de abril; Doria diz que PM será acionada contra quem infringir restrições

Pedro Venceslau, Paloma Cotes, João Ker e Tulio Kruse, O Estado de S.Paulo

06 de abril de 2020 | 11h52
Atualizado 06 de abril de 2020 | 22h36

SÃO PAULO - O governador João Doria (PSDB) prorrogou a quarentena em São Paulo para conter o avanço do novo coronavírus. A medida começou no Estado no dia 24 de março e teria validade até esta terça-feira, 7, mas foi prorrogada por mais 15 dias, até o dia 22 deste mês.

O Estado já identificou, entre a terceira semana de março e a primeira semana de abril, redução do número de pessoas que continuaram dentro de casa. Segundo estimativas do governo, o total de mortes nos próximos seis meses deve chegar a 111 mil, mesmo com as medidas de isolamento. Sem a quarentena, o número de óbitos projetado é de 277 mil até outubro. 

O decreto do Estado de São Paulo determina o fechamento do comércio e de serviços não essenciais, o que inclui bares, restaurantes e cafés, que só podem funcionar com serviços de delivery. Já os serviços considerados essenciais, como farmácias e supermercados, podem abrir as portas. A medida vale para todos os 645 municípios paulistas e o decreto a ser publicado nesta terça-feira, 8, tem os mesmo itens do anunciado no dia 24.

"Vocês terão a obrigação de seguir a deliberação do governo de São Paulo. Ela é constitucional", frisou Doria, afirmando que a medida tem de ser cumprida pelos prefeitos. Na última semana, algumas cidades do interior publicaram normas para afrouxar as restrições. 

"Nenhuma aglomeração, de nenhuma espécie, em nenhuma cidade ou área de São Paulo será permitida", afirmou Doria. O anúncio foi feito em entrevista coletiva no Palácio dos Bandeirantes e participaram diversos médicos, entre eles David Uip, chefe do Centro de Contingência do Covid-19, que estava afastado por ter sido infectado pelo vírus

Isolamento diminui em SP

A circulação de pessoas na cidade de São Paulo aumentou na última semana, em meio à recomendação de que a população fique em casa para frear o contágio. Em uma semana, de 23 de março a 2 de abril, o isolamento na capital foi de 66% dos paulistas a 52,4%, segundo a projeção feita por um estudo do Instituto Butantã e da Universidade de Brasília (UnB), divulgada pelo governo estadual. 

Após o início das medidas restritivas, o isolamento atingiu o nível mais baixo no dia 3. Foi a primeira vez, desde o início do fechamento de comércio, que mais da metade dos paulistas foram às ruas – só 47% ficaram em casa. A estimativa foi feita com base em dados de geolocalização de telefones celulares. 

“Através da triangulação das antenas que recebem o sinal do celular, a gente sabe que você andou mais de cem ou duzentos metros da sua casa”, afirmou o pesquisador Júlio Croda, que participou do estudo. O médico integrava a equipe do Ministério da Saúde há até duas semanas. “Existe uma variação de 47% a 70%, sendo que nos finais de semana é que há maiores níveis de isolamento”, acrescentou. 

Diferentemente do presidente Jair Bolsonaro, que fala em receio de crise econômica e defende reabrir o comércio, Doria tem afirmado que pretende manter o isolamento social. 

Repressão

Doria afirmou que fará uso de força policial para quem infringir as regras. Há orientação para que a Polícia Militar disperse aglomerações. Serão medidas de orientação, em um primeiro momento. Em um segundo momento, seriam medidas coercitivas, mas Doria afirmou que "espera que isso não seja necessário". 

Questionado se poderia vir a tomar outras medidas restritivas, Doria afirmou que a orientação é aumentar o rigor. "Se houver necessidade de mais medidas restritivas, não hesitaremos em fazê-lo seguindo a orientação dos especialistas." 

Segundo a Prefeitura, 50 estabelecimentos já foram interditados na cidade por descumprir o isolamento. Até ontem, a Prefeitura recebeu 9.744 denúncias de furo à quarentena. 

São Paulo é o Estado com o maior número de mortes e de casos do novo coronavírus. Balanço divulgado na tarde desta segunda-feira, 6, pelo Ministério da Saúde mostrava que o Estado tinha 304 mortes e 4.866 casos confirmados. Em todo o Brasil, são 553 mortes e 12.056 casos confirmados da doença.

Balanço

São Paulo é o Estado com o maior número de mortes e de casos, com 304 óbitos e 4.866 notificações. Segundo as projeções do governo estadual, o isolamento pode poupar mais de 160 mil vidas. No cenário sem qualquer medida, haveria 277 mil óbitos em seis meses. Com o isolamento social, o número caiu para 111 mil. 

De acordo com a projeção do governo estadual, 89 mil mortes serão evitadas nos próximos 70 dias em toda a região metropolitana de São Paulo, caso as atuais medidas sejam mantidas. Essa projeção foi calculada com base nas taxas atuais de isolamento, mesmo com a média menor na última semana. 

Croda alerta que é preciso manter ou aumentar ainda mais as restrições de circulação de pessoas. O Ministério da Saúde, porém, já sinaliza querer afrouxar as restrições (mais na pág. A10). “As medidas que foram implementadas são bastante favoráveis do ponto de vista de preservar a capacidade do serviço de saúde na resposta”, disse ele. 

A projeção do Estado também foi feita para internações em hospitais. Sem quarentena, seria 1,3 milhão em 180 dias. O estudo mostra que esse número cai para 670 mil com o isolamento social. 

Para internação em UTIs, o estudo do governo paulista aponta que as restrições podem fazer os casos caírem de 315 mil para 147 mil.

Críticas ao governo federal

Durante o anúncio da ampliação da quarentena, Doria voltou a criticar Bolsonaro. "Não pauto minhas ações por populismo. Pauto pela verdade e pela ciência. Todas as iniciativas de São Paulo são amparadas na ciência e em opinião médica", disse. "Temos que nos afastar dos que pregam o ódio, que não assumem o interesse maior que é o de salvar vidas. No Brasil, defendem o isolamento social o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandeta, o ministro da Justiça, Sergio Moro, o ministro da Economia, Paulo Guedes, o vice-presidente, Hamilton Mourão. Será que a Organização Mundial da Saúde (OMS) está errada? Será que ministros e secretários de Saúde de 56 países do mundo estão errados? Será que um único presidente da República no mundo é o certo?", disse.

E continuou: "Aqueles que incentivam a vida normal, que pressionam o prefeito da capital e que me pressionam pelo whatsapp, por cartas, e que violam os princípios da medicina, a eles eu pergunto: vocês estão preparados para os caixões com as vítimas do coronavírus? Vocês que defendem a abertura, aglomerações, que minimizam a crise gravíssima em que estamos, vão enterrar as vítimas? Depois de salvar vidas, vamos salvar a Economia", disse Doria. 

Antes do anúncio, Doria voltou a pedir que empresários não demitam funcionários neste período de quarentena. "Um apelo, façam todo o possível para não demitir. Compreendo as restrições deste momento. Mais do que nunca, seus funcionários e colaboradores esperam de vocês que exerçam sua responsabilidade social e seu lado humanitário. O sofrimento é de todos, mas principalmente dos que dependem do salário para sobreviver", disse Doria. /COLABOROU MARCO ANTÔNIO CARVALHO

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