Divulgação/Prefeitura de SP
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SP retoma rodízio tradicional e tenta antecipar feriados para manter população em casa

Medidas foram anunciadas por Bruno Covas em coletiva de imprensa excepcional neste domingo, 17

João Ker e Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2020 | 11h48
Atualizado 19 de maio de 2020 | 11h51

SÃO PAULO - Sem conseguir aumentar o isolamento social na cidade, o prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), decidiu neste domingo, 17, retomar o esquema tradicional de rodízio de carro, que volta ao normal já nesta segunda, mas anunciou que quer antecipar os feriados de Corpus Christi (11 de junho) e da Consciência Negra (20 de novembro) “para já” a fim de “parar” a cidade. Ele apelou à população que fique em casa para conter o avanço do coronavírus. “São Paulo precisa desacelerar ainda mais o ritmo para diminuir o contágio. Me resta na manga o uso dos feriados municipais”, afirmou Covas. 

A decisão foi tomada porque a ampliação do rodízio para 50% da frota, adotada ao longo da semana que passou, não teve o impacto esperado. Segundo Covas, foi possível tirar das ruas, em média, 1,27 milhão de veículos por dia e houve uma diminuição de 5,5% nos passageiros de ônibus, mas ainda assim as pessoas continuaram saindo às ruas e a taxa média de isolamento não subiu.  

Comparando a última sexta, 15, com a anterior, o ganho com o rodízio mais amplo foi de apenas dois pontos percentuais, de 48%, ante 46%. Mas quanto comparada a média semanal, verifica-se que “ficamos na mesma linha insuficiente”, disse. 

Na última semana, não houve um único dia útil em que o índice de isolamento na capital tenha atingido o mínimo de 50%. Apenas fins de semana e feriados alcançaram o número em maio – neste sábado foi de 52%. A última vez que a cidade teve mais de 50% de isolamento durante a semana foi em 15 de abril.


Covas afirmou, porém, que retomar o rodízio ao modelo tradicional "não pode ser desculpa para as pessoas se sentirem à vontade para retomar a circulação pela cidade". "Precisamos ampliar o isolamento, precisamos rápido e estamos ficando sem alternativa”, disse.

Parece ser um "contrassenso", comentou Covas, "o prefeito da cidade mais dinâmica do País, a cidade símbolo do trabalho, a cidade símbolo do empreendedorismo, pedir para a cidade parar, pisar no freio e se esforçar ainda mais para apertar o cinto". Mas ele fez exatamente esse pedido,

"Eu não vou me omitr. Essa é a minha escolha, o meu dever. É difícil acreditar que alguns prefiram que a população seja submetida a uma roleta russa. A indiferença diante da morte é indecorosa, é crime de responsabilidade, é contra a nossa Constituição federal. Não há outro caminho neste momento em que estamos. Não há melhor vacina. Antes de pensarmos em abrir, precisamos parar.”

Covas deu indicativos de que gostaria de implementar o lockdown na cidade, mas afirmou que não tem os instrumentos para fechar totalmente a cidade nem tem como fazer isso sozinho, sem o apoio do Estado e das cidades vizinhas.

“Nossa competência constitucional em segurança é muito limitada. Não há no mundo caso de autoridade pública sem poder de polícia, sem segurança pública, que consiga implantar um lockdown. Além disso, a capital não é uma ilha como a Nova Zelândia, não somos isolados do mundo. Nossa região metropolitana é interdependente. Nossas ruas se misturam. São 1.746 ruas que começam numa cidade e terminam em outra. Não há divisas. Temos de organizar isso juntos", afirmou.

"Não somos somente 12,3 milhões de paulistanos ou paulistanas. Somos mais de 21 milhões de habitantes na maior região metropolitana do País. A cidade de São Paulo não controla o metrô nem os trens. São Paulo precisa desacelerar ainda mais por uns dias para diminuir novamente o ritmo de contágio e salvar vidas", complementou. 

Sem essa possibilidade, ele disse que seria "criativo" e usaria os instrumentos que tem ao seu alcance, sugerindo antecipar os feriados municipais. Acompanhado na coletiva pelo presidente da Câmara Municipal, o vereador Eduardo Tuma (PSDB), Covas disse que entregou um projeto de lei para ser votado em regime de urgência "para antecipar para já os dois últimos feriados municipais deste ano".

"Os feriados de Corpus Christi e a consciência negra seriam excepcionalmente, e somente este ano, pontos facultativos. Vamos manter a celebração dessas datas, mas sem o feriado obrigatório. Tenho certeza que os católicos e todos do movimento negro vão compreender a importância dessa decisão", afirmou. Tuma disse que convocou para esta segunda uma sessão na Câmara Municipal para apreciar o PL.

O prefeito disse ainda que vai pedir ao governador João Doria (PSDB) para fazer o mesmo com o feriado de 9 de Julho. "Aproveitaremos que a maioria das pessoas não trabalha em feriados para garantir uma adesão ainda maior ao isolamento social. Teremos assim uma pausa forçada para diminuir a circulação de pessoas e ampliar o isolamento social. A cidade está chegando ao seu limite de opções. Vou sugerir ao governador João Doria que faça o mesmo e antecipe o feriado de 9 de Julho para ganharmos mais um dia de pausa."

Covas pediu a colaboração da população nesse período. “Nossa atitude é determinante. É uma linha divisória entre a civilização e a barbárie. Nossas atitudes de agora vão se expressar de um jeito trágico no final. A conta a fazer é de quantos mortos vamos enterrar e em quanto tempo. Precisamos decidir se queremos testar nossos limites ou se seremos prudentes e nos manteremos firmes em isolamento social pelo tempo necessário para que nosso sistema de saúde não entre em colapso. Infelizmente, estamos mais próximos disso do que gostaríamos.”

Crescimento acelerado dos casos

Neste domingo, após ultrapassar a China no número de mortes pela covid-19, o Estado de São Paulo chegou a 4.782 óbitos em decorrência da covid-19, superando o México. São 2.835 na capital.

Neste sábado, 16, o boletim divulgado pela Secretaria de Saúde do Estado mostrou que os hospitais da capital já atingiram 89% de ocupação em leitos de UTI. Em 30 de abril, esse número também foi atingido e os pacientes da Grande São Paulo começaram a ser transferidos para o interior do Estado

O secretário municipal de Saúde, Edson Aparecido, afirmou na coletiva, que a cidade teve, entre 9 de abril e 15 de maio um aumento de 432% no número de mortos pela covid-19. Além dos óbitos confirmados, ele disse que há 3.143 suspeitos. Dos 840 leitos de UTI criados na cidade para atender a epidemia, 89% estavam ocupados até este sábado. Em seis hospitais, disse ele, a ocupação já era de 100%. 

Na rede privada, afirmou, de 1.400 leitos destacados para a doença, 97% estavam ocupados. E entre os 2.500 leitos de enfermaria criados também para a emergência, a ocupação já era de 76%.

“Até 23 de abril, tínhamos 812 casos notificados por dia. Ontem chegamos a 3.787 notificações por dia”, afirmou. Ele citou ainda as mortes por síndrome respiratória aguda grave na cidade. Segundo o secretário, entre 17 de março a 31 de abril do ano passado, morreram por essa causa 27 pessoas na cidade. No mesmo período deste ano, foram 2.286 mortes.

“É o que nos faz crer que possivelmente em 15 dias o sistema de saúde da cidade de São Paulo estará profundamente comprometido, mesmo com todo o esforço feito até agora na ampliação de leitos e dos novos leitos que estão sendo contratados. Mas isso tudo será insuficiente para o grau de evolução que temos na cidade”, afirmou Aparecido.

O nível ideal de isolamento social defendido pelo governo do Estado é de 70%, enquanto 60% seria um índice “aceitável”. No último dia 8, o secretário de Saúde José Henrique Germann já havia alertado que, caso esse número permanecesse abaixo dos 55%, haveria “problemas no atendimento aos pacientes"

Cidades com lockdown

Até o momento, o lockdown ou “isolamento total” já foi implementado em Fortaleza, capital do Ceará; em 33 cidades do Tocatins; em todo o estado do Amapá; em Recife e em outras quatro cidades de Pernambuco; em quatro municípios da Região Metropolitana de São Luís, no Maranhão; em dez cidades do Pará; e em Campos dos Goytacazes, no interior do Rio de Janeiro.

Até a última sexta, 15, pelo menos 32 municípios da Grande São Paulo se declararam contrários ao lockdown, de acordo com levantamento feito pelo Estadão. O único prefeito que se mostrou favorável à medida foi Gabriel Maranhão (Cidadania), de Rio Grande da Serra.

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