Raphael Alves/ EFE
Homens carregam um cilindro de oxigênio no Hospital Universitário Getúlio Vargas em Manaus Raphael Alves/ EFE

SP tem 54 cidades com estoque crítico de cilindros de oxigênio, diz conselho de secretários de Saúde

Avanço da covid-19 preocupa gestores; chegada de pacientes mais graves e alta ocupação em UTI aumenta demanda em unidades de atendimento de média e baixa complexidade

Priscila Mengue e Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

20 de março de 2021 | 05h00

Ao menos 54 municípios paulistas estão em “estado crítico” de abastecimento de oxigênio medicinal, diz levantamento do Conselho de Secretários Municipais de Saúde de São Paulo (Cosems/SP) obtido pelo Estadão. Na lista, estão cidades do interior, como Bragança Paulista, da Baixada, como Santos, e da região metropolitana da capital, como Franco da Rocha.  A pandemia da covid-19 alcançou o pico na maioria das regiões do Brasil, que tem registrado mais de 2 mil mortes diárias pelo novo coronavírus

Há pressão sobre o sistema de saúde, com o aumento recorde de internações. São Paulo, por exemplo, registra uma média de 2.992 por dia, a maior de toda a crise sanitária e praticamente o dobro de um mês atrás.  Dos 645 municípios de São Paulo, 69 responderam ao conselho de secretários sobre a falta de cilindros de oxigênio, entre terça e sexta-feira, em uma enquete virtual. Segundo o presidente do órgão e titular de Saúde de São Bernardo do Campo, Geraldo Reple Sobrinho, a situação se deve especialmente às dificuldades de ampliar o fornecimento de cilindros de oxigênio no mesmo ritmo das hospitalizações.

Como em outros Estados do País, municípios de médio e pequeno porte paulistas dependem majoritariamente do oxigênio em cilindros, cuja logística, por vezes, envolve grandes deslocamentos e tem volume de entrega limitado. Hospitais de maior porte costumam receber, por exemplo, o produto na forma líquida, que é armazenado em tanques. “Há aumento de quase cinco vezes no consumo. Isso é geral”, diz o secretário.

Reple Sobrinho conta ter se reunido com o governo estadual sobre o tema duas vezes nesta semana. Além disso, o conselho prepara um documento sobre as “dificuldades que São Paulo está passando” para envio ao Ministério da Saúde. Em São Bernardo, ele relata que tanques de oxigênio líquido serão instalados em algumas UPAs para permitir o remanejamento dos cilindros.

Na quinta-feira, 18, o secretário estadual da Saúde, Jean Gorinchteyn, admitiu que municípios paulistas têm relatado o problema e disse que a situação é discutida no gabinete de crise da pasta. “Não podemos assistir ao que foi visto em Manaus.” Em janeiro, hospitais da capital amazonense ficaram sem oxigênio e pacientes morreram asfixiados.

São Paulo está com 91,5% de ocupação na UTI para covid-19, média que é de 91,6% na Grande São Paulo. Em enfermaria, as taxas são, respectivamente, de 79,9% e 86,6%. Ao todo, 27.527 pessoas estão internadas com suspeita ou confirmação do vírus.

Em Araçatuba, a secretária de Saúde Carmem Silvia Guariente conta que o sistema “entrou em colapso”, mesmo após conseguir cilindros emprestados de clínicas, ambulatórios e até de pacientes de oxigenoterapia. “Mesmo assim, é insuficiente. Ficamos com iminente risco de desabastecimento com o aumento do consumo.”

Com a dificuldade de conseguir vaga em UTI, pacientes graves estão ficando no pronto-socorro, demandando mais oxigênio que o habitual para esse tipo de unidade. Carmem explica que o município está prestes a abrir um espaço com novos leitos de enfermaria, o que está ameaçado pela falta do insumo. “Se não tiver garantia de oxigênio, não adianta. A situação é muito drástica. Não temos certeza que a cidade garante abastecimento de acordo com a sua necessidade.”

Até mesmo a Santa Casa local, por ter um tanque de armazenamento pequeno para a demanda atual, está com dificuldade para manter o abastecimento, em parte porque a fornecedora vai até Cubatão buscar o material, embora haja opções mais próximas. “Ela (a carreta com o produto) chega e tem que ir de novo buscar.”

Bragança guarda insumo para evitar colapso; Rio Claro pediu reforço a fornecedor

Bragança Paulista, no interior, afirma estocar cilindros para evitar o desabastecimento. "Estamos preocupados, pois o consumo aumentou muito e os fornecedores estão começando a ter dificuldades para abastecer nossos cilindros", informou a prefeitura, que também disse ter contratado pessoal para a construção de uma usina de oxigênio. 

Situação crítica também é relatada por Franco da Rocha. "Devido ao aumento expressivo de oxigênio, Franco da Rocha emitiu ao Cosems/SP alerta sobre o risco de desabastecimento, uma vez que o município foi notificado pelo fornecedor que faltam cilindros suficientes no mercado para o armazenamento do gás e que pode haver falta do insumo”, disse a prefeitura, em nota, na qual também cita o investimento em uma usina.

Em Santos, fornecedores e iniciativa privada também apontam a dificuldade de oferta de oxigênio para abrir leitos, segundo a prefeitura. “Ainda não há falta de oxigênio na Baixada Santista, mas a situação preocupa porque se o Estado e o País estão com problemas, pode refletir aqui”, declarou o prefeito, Rogério Santos (PSDB).

Bertioga diz contar com 20 cilindros, reabastecidos diariamente conforme o uso pelos internados nos leitos de enfermaria covid, além da rede canalizada de gases que supre os 10 leitos de UTI. "Embora esse quantitativo seja suficiente para atender os pacientes internados no hospital, atualmente com 80% de ocupação da UTI covid, a preocupação é que o crescimento do número de casos da doença em todo o Estado, acarrete no desabastecimento", informou a prefeitura.

Em Rio Claro, o aumento de pacientes fez a prefeitura pedir à fornecedora a ampliação da quantidade de cilindros. "Por enquanto, não faltou oxigênio em Rio Claro para o atendimento de pacientes com covid", informou. Segundo a prefeitura, há 155 pessoas internadas com a doença, 77 delas em UTI. O número de internados é o maior desde o início do ano.

Outros municípios, que não estão no levantamento do Cosems/SP, também têm relatado problemas, como Presidente Venceslau. Taquarituba, de 23 mil habitantes, relatou à Frente Nacional de Prefeitos (FNP) passar por uma “crise no sistema de saúde”, com alta de 500% no consumo de oxigênio. “Até aqui, estamos conseguindo encontrar o reabastecimento de cilindros, garantindo o funcionamento do atendimento, porém, estamos incertos quanto à próxima semana", afirmou à entidade. 

Rinópolis, com quase 10 mil habitantes e a 80 quilômetros de Araçatuba, informou à FNP ter estoque para 20 dias. Já Cajuru, com 26 mil habitantes e a 60 quilômetros de Ribeirão Preto, disse ter “receio de desabastecimento” para os próximos meses. Mendonça, a 50 quilômetros de São José do Rio Preto e com 5 mil moradores, afirmou que poderá ter desabastecimento em um mês se o ritmo permanecer como está. “A grande demanda já está deixando a gente em alguns dias com a falta do mesmo", completou.

Águas de Lindoia disse que o estoque é suficiente uma semana, “caso o cenário se mantenha dessa forma”, mesmo prazo informado por Piedade, de 55 habitantes. Urânia, de 9 mil moradores, reportou ter para mais 10 dias. Guararapes, a 20 quilômetros de Araçatuba, informou que estoque pode acabar até o fim do mês. Floreal, a 80 quilômetros de Birigui, relatou preocupação, pois o fornecedor comunicou que pode haver desabastecimento - mesma situação apontada por Ilha Solteira.

Segundo o levantamento do Cosems/SP, as 54 cidades com relatos de estoque crítico de cilindros de oxigênio são: Alto Alegre, Araçatuba, Auriflama, Bálsamo, Bebedouro, Bertioga, Bragança Paulista, Brodowski, Caieiras, Catiguá, Dracena, Eldorado, Fernandópolis, Francisco Morato, Franco da Rocha, General Salgado, Getulina, Guapiaçu, Guararapes, Ibirá, Iporanga, Iracemápolis, Itariri, Itirapina, Jandira, Jardinópolis, Junqueirópolis, Lourdes, Macaubal, Miracatu, Mongaguá, Nhandeara, Nova Aliança, Nova Canaã Paulista, Nova Granada, Olímpia, Panorama, Paranapanema, Piacatu, Pirapozinho, Pontal, Potirendaba, Rio Claro, Santa, Albertina, Santa Gertrudes, Santos, Sete Barras, Severínia, Terra Roxa, Tupi Paulista, Urânia, Valentim Gentil, Viradouro e Votuporanga.

Escassez de oxigênio se repete em outras partes do País, indicam levantamentos

Um levantamento feito pela FNP aponta que a escassez de oxigênio é relatada em 78 de 574 municípios brasileiros consultados. Venâncio Aires, no Rio Grande do Sul, e Uraí, no Paraná, dizem já ter falta do produto.

Ibiapina, município de 25 mil habitantes, no Ceará, por exemplo, informou já depender de cilindros de outros municípios — mesma situação relatada por Delfim Moreira, em Minas. As cearenses Apuiarés e Granja disseram ter estoque, respectivamente, para três e dois dias, mesmo prazo citado pelo também cearense Guaraciaba do Norte.

Francisco Sá, no interior de Minas, informou à FNP que o fornecedor atual não tem entregue o produto e que outras empresas conseguem suprir a demanda apenas "temporariamente". Da Paraíba, Capim respondeu: “Infelizmente já está em falta, e já tem dia que não consigo abastecer no local onde temos contrato.”

São José do Divino, no Piauí, estima ter estoque para quatro dias — prazo que é de cinco dias para Ibaiti, no Paraná. Outro caso no mesmo Estado é de Alvorado do Sul, que prevê desabastecimento em dois dias. Lages, em Santa Catarina, acredita que a situação ocorra em três dias.

No Rio Grande do Norte, o Cosems local também fez um levantamento com 117 municípios, dos quais 59,8% disseram ter recebido sinal de alerta de fornecedores, enquanto 11,1% falaram que o estoque atual já é insuficiente. Do total, 54,2% relataram dificuldade em obter o produto. 

“Este colegiado já encaminhou demanda ao Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems) e à Federação dos Municípios do Rio Grande do Norte (FEMURN) comunicando sobre o possível colapso no abastecimento de oxigênio ao mesmo tempo em que cobrou medidas viáveis para solucionar o problema”, declarou em nota.

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Com escassez de cilindros, prefeituras alugam miniusinas para dar conta da demanda de oxigênio

Modelo também é aposta do Ministério da Saúde para cidades com dificuldades de acesso geográfico, especialmente no Norte

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

20 de março de 2021 | 05h00

O abastecimento de oxigênio medicinal ocorre majoritariamente no País por meio de carretas criogênicas, com o produto na forma líquida, repassado a tanques em grandes hospitais, ou cilindros de oxigênio, que estão com escassez em parte do fornecimento. Com o aumento da demanda causado pelo agravamento da pandemia da covid-19 no País, contudo, uma terceira via passa a chamar a atenção de prefeitos: miniusinas de produção do insumo.

No Estado de São Paulo, Araraquara e Embu das Artes recentemente alugaram estruturas do tipo, ideia também em estudo em outros municípios. Em Ibiúna, no interior paulista, a prefeitura anunciou nesta semana que irá reativar uma usina que estava há dois anos sem uso no hospital municipal.O modelo é ainda a aposta do Ministério da Saúde, especialmente para cidades com dificuldades de acesso geográfico e no Norte.

Professor de Engenharia Mecânica da Poli-USP, José Roberto Simões explica que as miniusinas utilizam um processo de produção distinto das grandes empresas. O equipamento absorve o ar, que é seco, passando a ter apenas nitrogênio, oxigênio, argônio, um pouco de CO2 e traços de outros elementos.

“O ar seco, que passa por um compressor, é direcionado para um leito cheio de zeólita (mineral), que captura o nitrogênio e deixa passar apenas o oxigênio, injetado diretamente na linha de distribuição”, descreve. “É uma tecnologia menos conhecida no Brasil e tem muitos fabricantes internacionais, embora não seja nova.”

Ele defende que a tecnologia é vantajosa porque garante independência de fornecedores. “Essas máquinas, os hospitais podem comprar, deixar instaladas no próprio hospital. Resolve permanentemente o problema. É só fazer manutenção", afirma. 

Segundo Simões, uma das mudanças que facilitam a popularização desses equipamentos é uma resolução da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), do fim de janeiro, publicada após a crise de abastecimento no Amazonas, que permite a produção de oxigênio com teor de 95%. “Tinha de ser uma determinação permanente”, defende.

Em Araraquara, a primeira usina do tipo foi alugada em abril. Neste ano, outras três foram locadas desde fevereiro. “Com o aumento da demanda e o número de casos, começamos a perceber que não estávamos dando conta mais”, conta a secretária municipal da Saúde, Eliana Honain. “Precisa de um grande número de cilindros para dar conta de pacientes graves. Uma pessoa entubada precisa de três por dia, porque duram 8 horas somente.” 

O maquinário é alugado a um custo total de R$ 267 mil por mês, mas o município tem a intenção de comprar para uso permanente mesmo após a pandemia. “Não é mais caro que cilindro. O cilindro tem custo alto e tem que ter grande quantidade”, diz. “Foi uma medida muito acertada do município para ter autonomia."

Embu das Artes, na Grande São Paulo, também apostou na tecnologia, com o funcionamento de uma estrutura inaugurada na segunda-feira, 15. “A gente já estava prevendo essa dificuldade (de obter cilindros) e tinha a preocupação de que acontecesse em São Paulo o que aconteceu em Manaus. Por isso, um dos primeiros cuidados foi (garantir) oxigênio. Montamos em três dias”, conta o prefeito, Ney Santos (Republicanos).

Ele diz que a estrutura produz o dobro de oxigênio que é demandado atualmente na unidade em que foi instalado. “Ontem (na quinta-feira, 19), me ligaram três prefeitos, se tornou referência (a iniciativa)”, afirma Santos.

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