Agustin Marcarian/Reuters
Agustin Marcarian/Reuters

Sputnik: chegada de vacina ao Nordeste tem risco de atraso

Primeiro lote, com 1,6 milhão de doses, estava previsto para chegar no Recife dia 28, mas cronograma ficou indefinido

Ítalo Lo Re, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2021 | 19h55
Atualizado 22 de julho de 2021 | 21h06

O Fundo Russo de Investimento Direto (RDIF), responsável pelo fornecimento da vacina anticovid Sputnik V, solicitou ontem a governadores que representam o Consórcio Nordeste um prazo até sexta-feira, 23, para informar sobre o envio do imunizante. O primeiro lote, com 1,6 milhão de doses, estava previsto para chegar no Recife dia 28, mas o cronograma ficou indefinido.

Segundo o Consórcio Nordeste, o Fundo Russo pediu o prazo de 48 horas após uma declaração do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, indicando que não incluiria a Sputnik V no Plano Nacional de Imunizações (PNI).

Em audiência na Câmara semana passada, Queiroga disse que o número de doses contratadas já seria suficiente para vacinar toda a população adulta com as duas doses. Desse modo, não haveria necessidade de incorporar à campanha nacional doses adicionais, como as da Sputnik V e da Covaxin, cujo a compra é alvo de investigações na CPI da Covid. 

“Não tem cabimento mandarem a vacina e o governo brasileiro não aceitar”, disse ao Estadão o presidente do Consórcio Nordeste e governador do Piauí, Wellington Dias (PT). “Se não fosse essa declaração, já daria para dizer que no dia 28 chegaria a primeira etapa do 1% liberado pela Anvisa. Tinha um compromisso de entrega do volume completo até o mês de setembro”, afirmou. 

Segundo ele, a expectativa era de que a reunião ontem com o Fundo Russo pudesse confirmar a logística de chegada da primeira remessa da Sputnik V ao Brasil, mas a indefinição em relação à incorporação do imunizante na campanha nacional mudou os planos. “Nossa avaliação é de que, a cada momento, temos mais e mais obstáculos. É um tratamento diferente do que foi feito com outras vacinas”, reclama Dias.

O Consórcio Nordeste enviou no dia 19, ofício ao ministério reiterando a importância de incluir a vacina russa na campanha. “Estamos aguardando o Ministério até amanhã”, afirma Dias. “Haverá um prejuízo, inclusive de vidas humanas, dependendo da decisão.”

“Os governadores estão se esforçando para trazê-la, mas não temos tido a colaboração da Anvisa e do Governo Federal”, escreveu na terça-feira, nas redes sociais o governador da Bahia, Rui Costa (PT).

Atualmente, 16 Estados brasileiros, incluindo Piauí e Bahia, estão autorizados, mediante algumas condições, a fazer a importação excepcional da vacina russa. Entre as restrições impostas, está a limitação de uso do imunizante apenas em adultos, de 18 a 60 anos, sem comorbidade e ainda não vacinados, e em até o máximo de 1% da população de cada Estado. Não fossem as restrições de quantidade, aponta Wellington Dias, mais de 30 milhões de doses da Sputnik V poderiam ser entregues.

Procurado, o ministério não se posicionou até 19h30.

Pressão

A Argentina, um dos primeiros países a usar a Sputnik V em larga escala, tem pressionado a Rússia para apressar as entregas de remessas, previstas para a aplicação em larga escala. No total, 22,9 pessoas já receberam a 1ª injeção do imunizante, mas só 5,8 têm o esquema vacinal completo até agora. /COM AGÊNCIAS

Perguntas e respostas sobre a Sputnik V

1.Como funciona a Sputnik?

Desenvolvida pelo Instituto Gamaleya, parte do Ministério da Saúde da Rússia, ela é baseada nas instruções genéticas do vírus para produzir a proteína spike. Diferentemente da vacina da Pfizer, que armazena as instruções em RNA de fita simples, a Sputnik usa DNA de fita dupla. Os cientistas desenvolveram a vacina a partir de adenovírus, um tipo de vírus que causa resfriados. Eles adicionaram o gene da proteína spike do coronavírus em dois tipos de adenovírus, o Ad26 e o Ad5, e os modificaram para que pudessem invadir as células, mas sem conseguir se replicar.

2.Quais são as condições impostas aos Estados?

Entre as restrições impostas pela Anvisa para a aplicação da Sputnik V está a limitação de se usar o imunizante só em adultos, de 18 a 60 anos, sem comorbidade e ainda não vacinados, e em até 1% da população de cada Estado. A agência vai monitorar os resultados e pode suspender a autorização a qualquer momento. Outros pontos previstos são a importação só de vacinas das fábricas inspecionadas pela Anvisa na Rússia, a obrigação de análise lote a lote que comprove ausência de vírus replicantes e a notificação de eventos adversos graves em até 24 horas.

3. O uso emergencial já foi aprovado no Brasil?

Não. Como ainda faltam informações sobre qualidade, eficácia e segurança da Sputnik V, o aval de uso emergencial, como tem a Coronavac, ainda não ocorreu. Conforme o painel da Anvisa, só foi concluída a análise de 13% da documentação necessária e 63% têm complementações pendentes. Mais 15% das informações necessárias ainda não foram apresentadas.

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