GAELEN MORSE/REUTERS
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Subvariante XE do coronavírus: o que se sabe sobre a mescla de linhagens da Ômicron

Especialistas acreditam que novas recombinações do vírus vão surgir, mas situação tende a ser mais tranquila em regiões que já tiveram grandes ondas da doença, com alto nº de infecções prévias, e amplo esquema vacinal

Renata Okumura, O Estado de S.Paulo

06 de abril de 2022 | 16h25

Depois da Deltacron, mistura entre a Delta e a Ômicron, uma nova recombinação genética tem ganhado destaque. Embora ainda sejam necessários mais estudos sobre a descoberta, a Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que a subvariante conhecida como XE (recombinante da BA.1 e BA.2 da Ômicron) pode ser mais infecciosa dentre todas as versões já identificadas do novo coronavírus até o momento. Especialistas consultados pelo Estadão acreditam que novas cepas e recombinações vão surgir, mas ainda não há motivo para preocupação.

Desde que foi descoberta no Reino Unido, em meados de janeiro, mais de 700 casos já foram associados ao recombinante, segundo autoridades britânicas. Embora no Brasil a situação tenha se estabilizado, China, Reino Unido, Alemanha e França, por exemplo, voltaram a registrar aumento de infecções causadas pela Ômicron e subvariantes. 

O que é a subvariante XE?

A subvariante XE é um recombinante que mistura materiais genéticos da BA.1 - cepa original da Ômicron - e da BA.2, uma subvariante da Ômicron. Ou seja, uma pessoa pode ser infectada simultaneamente por duas sublinhagens de uma mesma variante. A situação também pode acontecer sendo duas cepas diferentes, como foi o caso da Deltacron.

Estimativas da OMS apontam que a XE é aproximadamente 10% mais transmissível que a BA.2, mas ainda faltam evidências mais sólidas para determinar essa característica. “Estimativas iniciais indicam uma vantagem na taxa de crescimento da comunidade de 10% em comparação com BA.2, no entanto, essa descoberta requer confirmação adicional. A XE pertence à variante Ômicron até que diferenças significativas na transmissão e nas características da doença, incluindo gravidade, possam ser relatadas”, disse, em nota, recentemente.

Onde e quando ela surgiu?

Desde que foi detectada pela primeira vez no Reino Unido em 19 de janeiro, as autoridades de saúde britânicas detectaram mais de 700 casos da subvariante XE. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os primeiros testes mostraram que poderia ser mais transmissível. Especialistas tentam agora estabelecer se ela é mais contagiosa ou se provoca sintomas mais graves do que outras variantes ou subvariantes. 

Como está o cenário no Reino Unido com relação a subvariante XE?

De acordo com as últimas estatísticas divulgadas pela Agência de Segurança da Saúde do Reino Unido (UKHSA), foram detectados 763 casos da Ômicron XE no Reino Unido até 22 de março, enquanto o país registra aumento de infecções por covid-19, a maioria foi detectada no sul e sudeste da Inglaterra, assim como em Londres. 

No último fim de semana, o país tinha 4,9 milhões da doença, segundo o Instituto Nacional de Estatística (ONS), e as autoridades relacionam o aumento ao relaxamento das restrições para conter a pandemia.  Nesta quarta-feira, 6, a Índia reportou que registrou o primeiro caso da subvariante XE no país.

A nova subvariante é motivo de preocupação?

Durante a pandemia, especialistas detectaram inúmeras variantes, mas algumas conseguiram se tornar dominantes, como Delta e Ômicron. Até o momento, ainda não há evidências do Reino Unido que indiquem sintomas mais graves da subvariante XE. 

A conselheira médica da UKHSA, Susan Hopkins, disse em um comunicado que, como outros tipos, a maioria das variantes e subvariantes morrerá de forma relativamente rápida. "Este recombinante XE tem apresentado taxa de crescimento variável e ainda não podemos confirmar se tem uma verdadeira vantagem de crescimento. Até agora não há evidências suficientes para tirar conclusões sobre a transmissibilidade, gravidade ou eficácia da vacina", acrescentou.

A pesquisadora e professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) Ester Sabino avalia que, daqui para a frente, é preciso acompanhar recombinantes ou variantes que venham da Ômicron, assim como o cenário no Reino Unido com a subvariante XE. "Os países que ainda não tiveram a Ômicron ainda vão ter. No entanto, com a vacinação e infecção prévia pela Ômicron, é provável que não tenhamos grandes surtos, embora a gente precise acompanhar os números", diz. 

"Com as próximas variantes e subvariantes, é provável que a imunidade associada à vacinação fique forte suficientemente para segurar novos picos, mas o vírus vai continuar circulando em baixa quantidade, apresentando alguma variação que o torne capaz de provocar pequenos surtos", acrescenta Ester. "Acredito em surto imediato, como o da Ômicron, somente em regiões como a China, que tem a população vacinada, mas pouca exposição anterior. Já Brasil, Índia, África do Sul e Europa podem ter esses picos, mas não tão preocupantes", acredita a pesquisadora.

O diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Renato Kfouri, concorda que há menos chances de a XE ser uma subvariante de preocupação. “Diferentemente da Ômicron que chegou, por exemplo, e em semanas atingiu o planeta inteiro, hoje temos uma situação que vemos a substituição de uma variante ou subvariante por outra. Os mecanismos de evasão e escape dos vírus são esses mesmos”, acrescenta.

Qual a importância da vacinação diante do surgimento de novas variantes?

Ainda não há dados sobre a efetividade das vacinas atuais na proteção contra a subvariante XE. No entanto, acredita-se que assim como aconteceu com o surgimento da BA.1 e a BA.2, o esquema vacinal tende a ajudar a prevenir casos graves da doença.

Nos Estados Unidos, por exemplo, a agência reguladora (FDA, na sigla em inglês) estuda quais doses de reforço serão necessárias para proteger contra cepas mais graves e mais transmissíveis. Apesar da campanha de vacinação avançar em diversos países, o surgimento de novas variantes ou subvariantes acende um alerta com relação a um possível aumento de casos, internações e também mortes, principalmente entre a população ainda não imunizada.

Para o Kfouri, a grande maioria dos locais onde se observa o recrudescimento da doença e número de casos, são locais que não tiveram boa cobertura vacinal ou que não tiveram grandes ondas de circulação prévia. 

“Essa imunidade híbrida, que chamamos, - muita gente infectada recentemente e muita gente vacinada ao mesmo tempo - se traduz em geral em uma proteção populacional mais expressiva. Os fatores cruciais para o surgimento e protagonismo de novas variantes, sem dúvida, estão associados a essas questões”, avalia o diretor da SBIm.

Conforme Raquel Stucchi, infectologista da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), os índices atuais no Brasil são favoráveis."Uma redução já há mais de seis semanas de casos novos. Uma redução expressiva das internações e uma redução da mortalidade muito expressiva, apesar de termos ainda 'um avião caindo por dia e todos morrendo na queda desse avião '."

"Eu diria que o momento é de otimismo cauteloso, porque temos duas subvariantes que hoje podem nos trazer problemas (BA.2 e XE). A nova recombinação parece ser bem mais transmissível. A BA.2 também causou aumento de hospitalizações importante na Europa e agora novamente nos Estados Unidos e Ontário, no Canadá", avalia a infectologista.

Ela defende que para evitar formas graves de variantes e subvariantes da Ômicron, é preciso ampliar a imunização. "Precisamos ter um alto porcentual de vacinação. Além disso, precisamos aguardar duas semanas para saber se essa XE trará um impacto maior em relação aos números de internações e se vai evadir às respostas induzidas pelas vacinas", defende a especialista.

"Precisamos ter um número grande de pessoas acima de 18 anos com as três doses da vacina. E, no Brasil, não temos ainda uma adesão que nos dê segurança. É ainda um momento de preocupação. Independentemente da decisão do município, aquelas pessoas que não foram vacinadas por qualquer motivo ou que não receberam a terceira dose ou aquelas completamente vacinadas, mas que têm risco de adoecimento mais grave, devem continuar com o uso de máscaras, principalmente em locais de maiores riscos de transmissão de covid-19", aconselha a professora. 

No Brasil, o número de pessoas vacinadas com ao menos uma dose contra a covid-19 chegou na terça-feira, 5, a 176.062.094, o equivalente a 81,95% da população total. Em relação à segunda dose, 161.382.404 dos brasileiros foram alcançados, ou 75,12% dos indivíduos. Já em relação à vacinação pediátrica (para crianças de 5 a 11 anos), o País chegou a 10.944.856 doses, o equivalente a 53,39% deste público. /Com Reuters e Efe

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