Javier García/EFE
Javier García/EFE

Surto de coronavírus é novo. Mas esforços para contê-lo começaram há quase 20 anos

Vírus que já matou 18 pessoas coloca à prova medidas globais para combater a epidemia

Rick Noack, Siobhán O'Grady, The Washington Post

23 de janeiro de 2020 | 13h00

Um novo coronavírus que matou pelo menos 18 pessoas na China e se propagou para vários outros países já vem colocando à prova as medidas globais para combater a epidemia.

A dúvida é se a comunidade internacional tentará conter sua propagação implementando o que aprendeu durante um outro grave surto, da síndrome respiratória aguda, SARS, entre 2002 e 2004, que também teve início na China. Na época, os chineses negaram a existência do vírus, mesmo com sua propagação pelo país e no exterior, matando mais de 770 pessoas em todo o mundo.

Desta vez as autoridades chinesas foram elogiadas pelo que alguns observadores qualificaram como uma resposta relativamente rápida. A China reportou pela primeira vez enfermidades similares à uma pneumonia na cidade de Wuhan, em dezembro.

Comunicou detalhes sobre o vírus, incluindo seu sequenciamento genético, para outros países e reviu sua avaliação inicial de que a propagação entre humanos era improvável. As autoridades chinesas têm oferecido atualizações diárias sobre o vírus e já informaram que o número de pessoas infectadas no país passou dos 600.

Stephen Morrison, diretor do Global Health Policy Center, do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, disse que está claro que o presidente Xi Jinping tenta evitar um desastre para as autoridades chinesas que seriam acusadas de sonegação de informações, como ocorreu quando da epidemia da SARS. Sua resposta, desta vez, “tem sido superior e fundamentalmente diferente” comparado com 2002 e 2003, disse Morrison.

Mas alguns analistas já vêm levantando dúvidas quanto a se os dados chineses são acurados. Pesquisadores do Imperial College, de Londres, estimaram, na quarta-feira, que o número de pessoas infectadas em Wuhan provavelmente aumentou para cerca de quatro mil no sábado - superando enormemente o número confirmado pela China. Os pesquisadores não acusaram as autoridades chinesas de ocultação de casos deliberada, sugerindo ao contrário, que “novos refinamentos nas definições e testes dos casos e uma expansão da vigilância” podem diminuir “as diferenças entre as nossas estimativas e os dados oficiais fornecidos”.

Mas essas discrepâncias refletem o ceticismo que persiste quanto a se os esforços recentes para fomentar a cooperação global no caso de epidemias têm sido suficientes e se o mundo aprendeu as lições da SARS.

Após o surto da SARS, em 2002, a Organização Mundial da Saúde (OMS) criticou uma série de países, incluindo a China, os Estados Unidos e Canadá, por não terem compartilhado informações suficientes. Mas a falta de cooperação, afirmaram os pesquisadores, refletiu falhas mais profundas de organização dentro da OMS também.

Na época, a OMS não havia mudado de maneira significativa suas regras instituídas há três décadas. A epidemia foi um alerta que acelerou sua revisão das normas.

“No decorrer do tempo, as deficiências da versão de 1969 do seu International Health Regulations ficaram cada vez mais aparentes”, admitiu uma comissão de revisão da OMS em 2011. A comissão declarou que, em geral, as regras não eram mais adequadas ao mundo cada vez mais globalizado em 2003, quando a epidemia de SARS atingiu seu pico.

Desde então o mundo ficou mais interligado, o que gera temores de que a forte movimentação de pessoas dentro e para fora da China aumente o risco de propagação do vírus com centenas de milhões de pessoas se preparando para viajar nos feriados do Ano Novo Chinês.

Em 2003, a Assembleia Mundial da Saúde também votou no sentido de conceder mais poderes à OMS para se envolver nas respostas dos países individuais a crises de saúde pública. Embora a medida tenha visado amplamente a China, foram os Estados Unidos que, sem sucesso, tentaram reverter a medida em meio a preocupações de que as mudanças diminuiriam o papel dos seus Centros de Prevenção e Controle de Doenças.

Dois anos depois, em 2005, as chamadas International Health Regulations, da OMS, que definem o poder da organização e as regras a que está obrigada - foram radicalmente reformulados para refletir o papel expandido da organização. Se as normas anteriormente exigiam apenas a comunicação de casos de febre amarela, peste e cólera, na revisão passaram a abranger “qualquer evento que possa constituir emergência de saúde pública de preocupação internacional” (PHEIC na sigla em inglês).

Alguns especialistas questionam até que ponto essas revisões foram implementadas. Kelley Lee, autor de um livro sobre a OMS, disse em e-mail que muitos países ainda não assumiram seu compromisso feito em 2005 no sentido de ampliar sua capacidade de resposta às emergências de saúde.

A OMS não enquadrou este surto recente como PHEIC, mas Morrison disse que ela deve fazê-lo porque a epidemia vem se alastrando rapidamente para outros países, com um caso diagnosticado nos Estados Unidos.

Os países nem sempre acatam essas medidas porque “não querem que as pessoas pensem que eles perderam o controle de uma doença”, disse Morrison.

No Congo, a OMS levou um ano para qualificar como mortal o surto de ebola, mesmo depois de o vírus ter infectado mais de 2.500 pessoas, matando quase 1.700. O atraso gerou críticas por parte de muitos especialistas em saúde pública.

Mesmo após a declaração, Robert Steffen, responsável pela comissão de emergência da OMS, afirmou que a epidemia de ebola no Congo “ainda é uma emergência regional e não é uma ameaça global”.

A declaração de emergência foi feita em meio a preocupações de que o ebola tinha potencial para se propagar para países vizinhos, especialmente depois que um paciente morreu em Goma, cidade de dois milhões de habitantes na fronteira com Ruanda.

Mas os esforços para controlar a epidemia ficaram limitados à província de Kivu, ao norte do Congo. A região viveu décadas de conflitos, gerando uma profunda desconfiança do governo por parte da população. Grupos armados atacaram clínicas e mataram muitas pessoas do serviço médico, aumentando o medo entre as pessoas que já hesitavam em buscar tratamento.

Mas as autoridades congolesas também sabiam que a ameaça de uma violenta epidemia internacional era pouco provável, uma vez que estavam lidando com comunidades com menos probabilidade de realizar viagens internacionais de avião ou receber visitantes estrangeiros.

Em Wuhan, com 11 milhões de habitantes, o número de pessoas que viaja para fora ou chega à cidade é assombroso, disse Morrison. E as autoridades só suspenderam as viagens na quarta-feira, semanas depois de o surto ser pela primeira vez informado. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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