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Ministério da Saúde pede que mulheres não engravidem durante o pico da pandemia Pixabay/@free-photos

Taxa de morte materna pela covid no Brasil dobra em 2021; nº de vítimas na pandemia é de 979

Pico de mortes de gestantes e mães que acabaram de dar à luz em março é superior ao registrado em junho do ano passado; governo recomendou adiar gravidez

Júlia Marques e Jefferson Perleberg, Especial para o Estadão

16 de abril de 2021 | 18h58
Atualizado 07 de maio de 2021 | 14h24

As taxas de morte materna pela covid-19 no Brasil dobraram este ano na comparação com 2020. Em média, foram 108 mortes mensais em 2021, ante 54 no ano passado. O cálculo considera dados do Sistema de Informação de Vigilância da Gripe (Sivep-Gripe) divulgados pelo Ministério da Saúde e leva em conta os meses de março a dezembro do ano passado e janeiro a abril deste ano. Desde o início da pandemia, o Brasil registrou 979 mortes de grávidas ou mulheres que acabaram de dar à luz diagnosticadas com a covid-19.

Nesta sexta-feira, 16, o secretário de Atenção Primária à Saúde do Ministério da Saúde, Raphael Câmara Medeiros afirmou que a pasta recomenda às mulheres adiar a gravidez, se possível, enquanto durar o pico da pandemia da covid-19 no Brasil. Especialistas apontam que grande parte das mortes maternas pela covid-19 é decorrentes de falhas na assistência a grávidas e mulheres que acabaram de dar à luz.

Só entre janeiro e abril deste ano, pelo menos 433 gestantes e puérperas morreram em decorrência da covid-19, segundo dados do Sivep-Gripe divulgados pelo Ministério da Saúde - em todo o ano passado, foram 546 mortes de grávidas e mulheres que acabaram de dar à luz.

Levantamento do Estadão no Sivep-Gripe mostra que os óbitos maternos este ano atingiram o pico em março - os dados de abril ainda não estão consolidados. Foram 263 mortes em março, mais do que o dobro do registrado em junho do ano passado (111), durante o pico da primeira onda da covid-19.

Segundo Medeiros, apesar da falta de estudos, "a visão clínica de especialistas mostra que a variante nova tem ação mais agressiva nas grávidas". "Antes estava mais ligada ao final da gravidez e puerpério e hoje já vemos evolução mais grave no segundo trimestre e quiçá, por vezes, até no primeiro trimestre."   

Dados sobre as mortes de gestantes e puérperas, porém, revelam falhas na assistência a esse público - um quarto das gestantes que morreram este ano não receberam atendimento em Unidade de Terapia Intensiva (UTI), segundo levantamento do Estadão. De acordo com os dados do Sivep-Gripe, a proporção de grávidas que morreram no início da gestação não se alterou em relação ao verificado no ano passado. Em 2020 e neste ano, a maior parte dos óbitos ocorreu no último trimestre de gestação. 

Há casos de mulheres que moram longe de centros urbanos com assistência adequada. A distância até receber atendimento complica a evolução da doença. Em casos de mortes maternas identificados pelo Estadão, mulheres foram testadas com exames de baixa qualidade e demoraram a receber atenção médica específica para a covid-19. Algumas deram à luz intubadas e nem chegaram a conhecer as crianças.

Especialista reforça importância do pré-natal e vacinação

“É prudente acompanhar o número de casos, aumento do contágio e gravidade de internações por covid, antes de tomar a decisão de engravidar”, diz a ginecologista e coordenadora científica de obstetrícia da Associação de Ginecologia e Obstetrícia do Estado de São Paulo, Silvana Maria Quintana, que destaca ser uma decisão exclusiva da família.

Segundo ela, “mulheres com idade avançada, que fazem algum tipo de tratamento e não podem esperar, podem optar pela gestação com acompanhamento médico”. Silvana ainda reforça a importância do pré-natal. “Temos visto casos de gestantes com medo de sair, deixando de fazer pré-natal e tendo complicações durante a gestação como descontrole da pressão. Deve-se manter o acompanhamento médico em dia, até para evitar situações que levem a agravamento do quadro da mãe, caso venha a contrair covid.” 

Elaine Candido, ginecologista e obstetra, médica do Hospital Pérola Byington, diz que toda variante é prejudicial para a grávida. “Existe risco por haver imunossupressão fisiológica da gestação, ou seja, a condição de gravidez deixa a mulher mais frágil, há sobrecarga para o organismo materno. O que pode gerar quadros mais graves com uma cepa mais agressiva", explica.  Para ela, a variante atinge mais as gestantes por ser mais contagiosa. "Estamos todos suscetíveis a transmitir o vírus, consequentemente o risco dele chegar até grávidas acaba sendo maior." 

O ministério recomenda que grávidas com comorbidades como diabete, hipertensão e obesidade recebam a vacina, segundo portaria de 15 de março. As recomendações permitem a vacinação de grávidas, lactantes e puérperas com comorbidades, mas consideram que a decisão deve ser tomada por elas após avaliação de risco e benefícios com auxílio médico. Grávidas sem doenças prévias podem tomar a vacina se fizerem parte de outros grupos prioritários do Plano Nacional de Vacinação. São grupos prioritários, por exemplo, profissionais da saúde, professores e agentes de segurança, com ou sem comorbidades. Ainda não há data prevista para grávidas sem comorbidades de categorias profissionais não prioritárias.

Projeto prevê dispensa do trabalho, mas ainda falta sanção

Gestantes também enfrentam dificuldades para conseguir dispensa do trabalho, o que aumenta o risco de infecção. Nesta semana, o Senado aprovou um projeto de lei que determina o trabalho remoto para funcionárias gestantes durante a pandemia. O texto foi enviado para a sanção do presidente Jair Bolsonaro. Segundo o projeto aprovado, a empregada gestante deverá permanecer afastada de atividades de trabalho presencial, sem redução no salário, no período de emergência decretado pelo Ministério da Saúde em função da covid, sem data para terminar.

Não é prevista punição ou multa para empresas que descumprirem a norma. Nesse caso, porém, elas podem ser acionadas na Justiça com ações trabalhistas. Parte dos parlamentares, no entanto, vê risco de empresas pequenas ligadas a atividades presenciais, como de cozinha, não terem recursos para manter suas funcionárias grávidas em trabalho remoto. 

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'Se tivesse sido tratada rápido, estaria aqui', diz homem que perdeu mulher por covid após o parto

Cantora de 39 anos morreu em Manaus em janeiro; Ministério da Saúde recomendou adiar gravidez por causa da doença

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2021 | 20h55

A cantora Roci Mendonça, de 39 anos, estava grávida e teve dois testes negativos antes de obter a confirmação da covid-19, no fim de dezembro do ano passado. O parto foi em um hospital de Manaus, mas ela não resistiu às complicações da doença e morreu em 9 de janeiro. Ela é uma entre quase mil grávidas e mães que acabaram de dar à luz no Brasil vítimas da doença durante toda a pandemia. Neste ano, as taxas de morte materna dobraram em comparação a 2020

“Se tivesse sido tratada rápido, ela estaria aqui”, diz o marido, o coreógrafo e dançarino Raony Silva, de 28 anos. “É muito complicada a situação do SUS em Manaus, é muita gente. A demanda de pessoas que pegaram na segunda onda foi muito grande.” Diante da escalada de mortes de mulheres nessa situação, o Ministério da Saúde recomendou o adiamento da gravidez. 

Roci continuou a dar aulas de canto durante a gestação - o viúvo não sabe dizer onde a mulher pegou o vírus. “Quando teve a baixa da primeira onda, a gente se descuidou. Não só a gente, mas praticamente toda a população de Manaus”, conta Silva. Com tosse e febre, Roci procurou assistência, mas os primeiros testes rápidos que fez deram negativo e ela foi mandada para casa. Só depois de fazer um exame do tipo PCR (o padrão-ouro para detectar a infecção ativa), é que a doença foi confirmada.

A mulher deu à luz no dia 31 de dezembro em uma cesariana. O bebê, Max, nasceu prematuro, com pouco mais de 2 quilos. Silva conta que a mulher só conheceu a criança por meio de fotos que ele mostrou. Dias após o parto, o quadro de Roci pirou e ela teve de ser internada em uma UTI. Depois, foi intubada. A mulher teve paradas cardiorrespiratórias e não aguentou passar por sessões de hemodiálise. Também infectado, Silva tentava se recuperar da covid-19 em casa.

“Fui o último a saber da morte dela. Para mim ainda não caiu a ficha, parece que ela está viajando. Sinto muita falta”, conta. Ele ia sozinho à maternidade para acompanhar o desenvolvimento do filho, que também ficou na UTI. Quando chegava, a enfermeira perguntava pela mãe da criança e ele tinha de falar: “ela não resistiu”. 

“Tive de me recuperar para ir à maternidade, para cuidar do meu filho, aprender durante uma semana a cuidar, pegar, dar banho, fazer dormir, fazer tudo. Eu tinha muito medo de segurar um bebê recém-nascido.” Hoje, Max está com três meses e é um bebê saudável. O pai publica a rotina de cuidados na internet. “Para as pessoas verem que eu estou me esforçando bastante.”

Mortes maternas pela covid-19 revelam falhas na assistência. Relatos de viúvos coletados pelo Estadão indicam demora no atendimento de grávidas e puérperas pela covid-19. Há casos de contaminação durante o parto, dificuldade para conseguir leitos para situações de alta complexididade e testagem falha, com testes rápidos que podem dar resultados negativos, como ocorreu com Roci. 

Dados do Sistema de Informação de Vigilância da Gripe (Sivep-Gripe) mostram que um quarto das gestantes que morreram neste ano vítimas da covid-19 não chegaram a ser internadas em leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

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