Taxa de sífilis em recém-nascidos é 7 vezes maior que meta

Doença que causa aumento do fígado e do baço do bebê poderia ser evitada com pré-natal adequado

Lígia Formenti, O Estado de S. Paulo

31 Outubro 2014 | 23h08

BRASÍLIA - Sentada na cama do hospital, A. R. C. ainda pensava no que a médica acabara de lhe dizer. Sua filha, G, nascida dois dias antes, havia minutos antes recebido o diagnóstico de sífilis congênita, uma doença transmitida durante a gestação e que poderia ter sido evitada, caso o tratamento tivesse sido dado em tempo adequado. 

"Não sei como se transmite isso, não sei como se combate. Mas estou tranquila, porque fui informada que tem cura", disse, pouco antes de receber a primeira das três doses do remédio indicado para terapia. "G. também vai receber, acho que ainda hoje", completou.

Provocada por um vírus, a doença causa aumento do fígado e baço do bebê, alterações ósseas e visuais, no sistema nervoso central e, numa fase mais tardia, dificuldade no aprendizado. Para evitar a transmissão vertical, basta que a mãe, também portadora da doença, receba três doses de um antibiótico. A terapia tem ser concluída no máximo um mês antes da previsão do parto. O companheiro da gestante tem de ser submetido a tratamento semelhante. 

Diante da facilidade e baixo custo do tratamento, o Brasil havia assumido a meta de eliminar a sífilis congênita até 2015. Os números, no entanto, estão muito mais altos do que o estabelecido no compromisso. Em 2012, a taxa nacional de incidência da doença era de 3,9 casos por cada mil nascidos vivos - um indicador quase sete vezes maior do que teria de ser alcançado. 

Somente no Hospital Materno Infantil de Brasília (HMIB), uma unidade de referência que atende parte da capital e cidades do entorno, pelo menos duas crianças por semana são diagnosticadas com a doença."É um número alto, principalmente quando levamos em consideração que a doença poderia ser evitada", afirma a chefe da Ginecologia e Obstetrícia do HMIB, Lucila Nagata. 

No Rio, os números são alarmantes. Em 2012, foram identificadas 524 bebês com a doença, o equivalente a 11 casos a cada mil nascidos vivos. No Rio Grande do Sul, a taxa é de 5,4 casos. "Não podemos dizer que os casos estão aumentando, porque a notificação da doença não era adequada. Mas, sem sombra de dúvida, os números são altos e poderiam ter sido evitados com pré-natal adequado e uma boa adesão ao tratamento", afirma Carmem Bruniera Domingues, da coordenação da ação para eliminação da transmissão vertical do HIV/Sífilis do Centro de Referência de DST-Aids do Estado de São Paulo.

Lucila também avalia que os números da sífilis indicam que o pré-natal da brasileira ainda tem muito que ser melhorado. "Teoricamente, o programa Rede Cegonha teria de ter elevado a qualidade da assistência, mas não é isso que vemos", diz. Muitas gestantes chegam no momento do parto sem ter realizado o número menor de consultas pré-natal do que seria considerado ideal. "E mesmo quando o número é em tese recomendável, elas chegam em condições que uma orientação correta, um exame um pouco mais detalhado poderia ter evitado." A médica observa que muitas gestantes são atendidas por médicos que não têm formação obstétrica, algo que, em sua avaliação, pode fazer a diferença.

"Os pacientes fazem de conta que se consultam, o médico, faz de conta que atende", afirma uma das funcionárias destacadas para atender pacientes numa unidade básica de saúde do Distrito Federal ouvida pelo Estado.  A. R. C. conta, por exemplo, que funcionários chegaram a informá-la do risco de ela estar com sífilis. Um teste rápido, realizado no posto, indicava a contaminação. "Fiz o teste para confirmação. Disseram que se o problema fosse confirmado, ligariam. Nunca ninguém ligou. E não se tocou mais no assunto. Deixei o problema para lá."

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