Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Taxa de transmissão da covid no Brasil é a maior desde maio, diz Imperial College

Instituto britânico aponta elevação de 1,10 para 1,30 no índice chamado Rt (taxa de contágio) na última semana. Número indica avanço da doença no País

Gonçalo Junior, O Estado de S. Paulo

24 de novembro de 2020 | 12h01
Atualizado 24 de novembro de 2020 | 21h33

A taxa de transmissão do novo coronavírus (Rt) no Brasil nesta semana é a maior desde maio, de acordo com monitoramento do centro de controle de epidemias do Imperial College de Londres, no Reino Unido. O índice passou de 1,10 no dia 16 de novembro para 1,30 no balanço divulgado nesta terça-feira, dia 24. Especialistas ouvidos pelo Estadão evitam a expressão "segunda onda" de contaminação simplesmente porque o Brasil ainda não conseguiu controlar a primeira. O aumento atual seria apenas um repique, uma piora dos dados da primeira onda. 

A última vez que a taxa de transmissão se aproximou deste patamar no País foi na semana de 24 de maio, quando atingiu 1,31. A taxa de contágio (Rt) indica para quantas pessoas um paciente infectado consegue transmitir o novo coronavírus. De acordo com os números atuais, cada 100 pessoas contaminadas transmitem o vírus para outras 130.

Quando o número é superior a 1, cada infectado transmite a doença para mais de uma pessoa. Isso representa o avanço da doença. Para a epidemia ser considerada controlada, a taxa de transmissão precisa estar abaixo de 1. "Esse aumento aponta claramente que estamos vivendo uma recrudescência, um aumento da pandemia no País", afirma Eduardo Flores, virologista da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) no Rio Grande do Sul.

Há duas semanas, o número ficou em 0,68, o menor valor desde abril. A data coincide com o atraso na atualização de casos e mortes por Covid-19 pelo Ministério da Saúde. Problemas técnicos atrasaram o registro de informações. A pasta reconheceu na sexta-feira, 13, indícios de um ataque cibernético em seu sistema, mas ainda não há laudo conclusivo. Como o estudo britânico considera esses dados, as estimativas também foram afetadas. 

O virologista Rômulo Neris, mestre em Microbiologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), afirma que a taxa de contágio no País poderia ser ainda maior se não fossse o "apagão de dados". "Os pesquisadores britânicos usam os dados das secretarias de saúde para fazer esse cálculo. E nós tivemos essa defasagem exatamente onde o número de casos começou a aumentar. Acredito que a taxa de transmissão poderia ser ainda maior", opina. Professor da Faculdade de Saúde Pública da USP, o epidemiologista Eliseu Waldman adota tom mais cauteloso e pondera que é difícil mensurar o quanto desse aumento da incidência deve-se ao represamento de dados nas últimas semanas. 

Além do Brasil, vários países europeus como Polônia, Sérvia, Bulgária, Alemanha e Dinamarca também apresentam taxas de contágio próximas de 1,30. A Grécia tem índice de 1,47, o maior da Europa atualmente. 

Segunda onda? 

Especialistas ouvidos pelo Estadão evitam cravar que o Brasil esteja vivendo uma segunda onda de contaminação simplesmente por que o País ainda não superior a primeira. É uma questão apenas de rigor científico, pois todos reconhecem o agravamento da situação. "Apesar do cenário de aumento de casos e mortes, é difícil dizer que o Brasil está numa segunda onda por que ainda não houve a resolução da primeira. Vimos um fenômeno de interiorização, com diminuição dos casos nos grandes centros, mas não controlamos o surto. A doença se manteve no platô", explica Neris. 

Rodrigo Stabeli, pesquisador da Fiocruz e professor de Medicina da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), usa a Espanha para explicar um caso clássico de primeira e segunda ondas de contaminação. "No auge da epidemia, a Espanha foi o país com maior número de casos e mortes por 1oo mil habitantes. Depois da primeira onda, as autoridades sanitárias conseguiram controlar a transmissão. O índice de contágio, esse mesmo analisado pelo Imperial College, caiu para menos de 0,50. Depois, veio o novo aumento e a segunda onda", diz o especialista. "No Brasil, ainda estamos no repique da primeira onda", completa. 

No final de outubro, o presidente espanhol, Pedro Sánchez, decretou toque de recolher para tentar conter a contaminação. A medida foi tomada dias depois que o país oficialmente ultrapassou um milhão de casos diagnosticados desde o início da epidemia, sendo o primeiro país da União Europeia e o sexto do mundo a fazê-lo.

A meta do governo é resistir à pandemia durante o inverno no hemisfério norte, quando circunstâncias climáticas favorecem a disseminação do vírus, e reduzir sua incidência para 25 casos por 100 mil habitantes. No momento, a situação é de 368 por 100 mil habitantes.

O virologista Paulo Eduardo Brandão, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (USP), é categórico. "Considerando a rápida elevação da taxa de transmissão nas últimas semanas e os relatos de hospitais, públicos e privados, que registram aumento da ocupação por covid, não há dúvida de o Brasil vive uma segunda onda de contaminação", afirma. 

No Brasil, a média móvel diária de mortes causadas pelo novo coronavírus no Brasil ficou em 496 nesta segunda-feira, 23. O cálculo registra as oscilações dos últimos sete dias e elimina distorções entre um número alto de meio de semana e baixo de fim de semana. Desde ontem, foram registrados mais 17.585 casos e 344 mortes, segundo levantamento feito por Estadão, G1, O Globo, Extra, Folha e UOL junto às secretarias estaduais de saúde.

Stabeli afirma que o País deve percorrer um triste ciclo nas próximas semanas. "A gente vai observar agora um aumento do número de internações nos leitos clínicos, um aumento no número de internações em UTI e o número de mortos. Isso é preocupante. Temos uma desmobilização generalizada dos leitos de covid. Precisamos de um sinal de alerta", opina. 

Domingos Alves, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP), acrescenta outro dado ao complicado enfrentamento da pandemia no País: os baixos índices de testagem. O Boletim Epidemiológico do dia 17 de outubro, o último divulgado pelo Ministério da Saúde, aponta 60 mil óbitos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG).

Segundo o especialista, esse número indica a falta de testes. "Desde agosto, todos os Estados estão reduzindo o número de testes. No caso dos 60 mil óbitos, podemos admitir que eles faleceram de covid, mas não foram testados. Ou temos que admitiram que existe uma epidemia paralela, também respiratória, que já matou mais de 60 mil pessoas", afirma.

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