Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Taxa de transmissão da covid no Brasil volta a passar de 1, diz Imperial College

Taxa de 1,10 indica que cem pessoas contaminadas transmitem o vírus para outras 110; situação é considerada 'fora de controle'

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2020 | 18h01
Atualizado 17 de novembro de 2020 | 21h49

O Brasil voltou a registrar aumento nas taxas de transmissão do coronavírus segundo dados divulgados nesta terça-feira, 17, pelo Imperial College de Londres. A taxa de transmissão do vírus chegou a 1,10 no País. Há três dias o índice era estimado em 0,94.  

Uma taxa de transmissão de 1,10 significa que cem pessoas contaminadas transmitem o vírus para outras 110. A partir de abril, o País apresentou taxas acima de 1, situação considerada "fora de controle". Em agosto, o índice baixou.

Além do Brasil, países como Portugal, Itália e Reino Unido foram classificados pelo Imperial College em fase de crescimento da doença. Nações da América Latina, como Argentina (0,85) e Colômbia (0,93), estariam em fase de declínio. Dentro da margem considerada pela instituição britânica, a taxa de transmissão do Brasil pode variar de 1,05 a 1,24. 

O relatório divulgado pelo Imperial College apresenta previsões de óbitos pela doença e análise de tendências de notificação de casos para 72 países com transmissão ativa.

O Imperial College recomenda cautela na análise dos dados uma vez que “o registro de mortes e casos no Brasil está mudando frequentemente”, segundo o relatório divulgado nesta terça. Nas últimas semanas, houve falhas nos sistemas de registro do Ministério da Saúde e, portanto, subnotificação de infecções e mortes pela covid-19. 

Especialistas também consideram que é preciso acompanhar a taxa de contágio por um período prolongado de tempo para identificar tendências. Atrasos no registro de infecções também têm impacto no cálculo da taxa, assim como o tipo de teste realizado. Outro problema do dado é que ele se refere ao Brasil como um todo e não considera avanços ou declínios regionais da doença. 

Desde o início da pandemia, a instituição faz projeções matemáticas do crescimento da pandemia e avaliações das ações em andamento. 

Dado mostra tendência de expansão

Para Evaldo Stanislau, médico infectologista do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), a taxa do Imperial College sinaliza que há uma tendência de expansão da doença no Brasil. "Essa taxa significa que a pandemia se autoperpetua", diz o especialista, membro da diretoria da Sociedade Paulista de Infectologia.

Segundo Stanislau, o número é um dado a mais, um sinal laranja, para a contaminação no Brasil. "Não é o melhor marcador, mas é preocupante. Outros indicadores ainda mais subjetivos e que precisam ser compilados preocupam, entre eles a taxa de positividade dos exames que estão sendo feitos, que está aumentando, e a taxa de ocupação de leitos em vários hospitais."

Carlos Magno Fortaleza, infectologista e membro do Comitê de Contingência do Estado de São Paulo, diz que o índice divulgado pelo Imperial College não é surpreendente. O especialista acredita que o Estado de São Paulo registre taxas semelhantes à de 1,10 e que o índice pode ser ainda maior na Grande São Paulo. Na região de Botucatu, no interior, onde o médico calcula diariamente a taxa, o índice da última semana estava em 1,22. 

"O que o Imperial College está fazendo é, em nível nacional, mostrar que estamos tendo aumento de casos no Brasil", diz Fortaleza. Segundo o especialista, a taxa não é explosiva, mas faz crescer o temor de uma segunda onda da covid-19. "Se é um aumento que logo acabará ou, como na Europa, será pior do que os meses terríveis de julho e agosto, nao dá para dizer ao certo." 

Medidas de proteção já conhecidas, como uso de máscaras e distanciamento, têm de ser seguidas à risca.  "Cada indivíduo tem de ser o seu próprio país e colocar as suas fronteiras, ficando a pelo menos um metro de distância de outros e usando a máscara corretamente", diz Stanislau. Para Fortaleza, a percepção de crescimento também deve orientar ações de gestão, como evitar fechar leitos para a covid-19. 

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Precisamos nos concentrar nas atividades essenciais: trabalhar, estudar. Não dá para ter vida social como as pessoas querem ter e temos de evitar aglomerações.
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Evaldo Stanislau, médico infectologista

Hospitalizações crescem

Os dados de aumento da taxa de transmissão coincidem com uma alta das internações por covid-19 já registrada em São Paulo e em outros Estados. A média diária de novas internações ligadas à covid-19 em São Paulo subiu 18% na última semana, segundo dados divulgados na segunda-feira, 16. 

Com o aumento, que abrange tanto a rede pública quanto a privada, o governo João Doria (PSDB) decidiu adiar em duas semanas a reclassificação do Plano São Paulo, que colocaria quase 90% do Estado na fase verde, de maior flexibilidade da quarentena e de reabertura econômica.

Nesta terça-feira, o Estado de São Paulo tinha 43,1% dos leitos de UTI para covid-19 ocupados - a ocupação de leitos de enfermaria era de 33,6%. Em um dia, foram feitas 1.067 novas internações. A maior parte das hospitalizações (658) ocorreu na Grande São Paulo, que tem 49,1% dos leitos de UTI ocupados e 45% de ocupação nos leitos de enfermaria.

Só nesta terça, foram registradas 107 mortes pela covid-19 no Estado - dessas, 49 ocorreram na capital paulista. 

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