Técnica da USP melhora absorção de droga quimioterápica pela pele

Pesquisadores encapsularam substância em partículas de gordura e aplicaram corrente elétrica

Luiza Caires, da Agência USP

01 Setembro 2010 | 19h12

SÃO PAULO - Uma linha de pesquisa da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP), da USP, estuda o uso de novos métodos para aplicação de medicamentos pela pele, em particular na quimioterapia contra o câncer de pele.

 

Veja também:

link Cardápio especial 'dribla' efeitos da quimioterapia

 

Os pesquisadores, liderados pela professora Renata Vianna Lopez, encapsularam a droga quimioterápica doxorrubicina em pequenas partículas de gordura (nanopartículas lipídicas sólidas) e testaram in vitro a iontoforese, técnica que envolve a aplicação, próxima à pele, de uma corrente elétrica de baixa intensidade para aumentar a entrada da substância.

 

Os resultados, segundo Renata, são animadores, já que a droga chegou em doses seis vezes maiores até as camadas profundas. Em estudos em cultura de células cancerosas, os pesquisadores observaram ainda que a associação iontoforese-nanopartícula aumentou não só a entrada da droga na pele, mas também a entrada dentro das células tumorais, matando assim mais células doentes.

 

Estrato córneo

 

A pele é o nosso órgão mais extenso, cobrindo em média dois metros quadrados de superfície. Uma das funções da camada externa, chamada de estrato córneo, é justamente limitar a absorção de substâncias tóxicas do ambiente, além de manter estáveis a temperatura e a quantidade de água no organismo. Mas essa barreira pouco penetrável transforma-se em um problema quando a intenção é fazer dela uma via para a aplicação de medicamentos.

 

Renata explica que a administração por via endovenosa da droga doxorrubicina, por exemplo, tem de ser feita em altas doses para que o tumor seja atingido, o que provoca muitos efeitos adversos, principalmente no sistema cardíaco do paciente. O tratamento tópico, por sua vez, levaria o fármaco diretamente ao câncer e, deste modo, seriam necessárias doses menores.

 

Assim, a professora e sua equipe - que inclui alunos de pós-graduação da FCFRP - utilizaram em laboratório a iontoforese - técnica já conhecida para o tratamento da hiperidrose (suor excessivo) - na administração de anestésicos locais e na pesquisa de transdérmicos envolvendo substâncias diversas.

 

Na iontoforese, a corrente elétrica é fornecida por uma bateria e distribuída por meio de uma solução que contém a droga, com o auxílio de um eletrodo positivo e um negativo. A penetração da substância pode ocorrer de duas maneiras: por eletrorepulsão e por eletrosmose.

 

Na eletrorepulsão os íons positivos da droga são repelidos no eletrodo positivo quando a corrente elétrica é aplicada e, por conseguinte, são empurrados para dentro da pele. Já a eletrosmose é um fluxo de líquido que ocorre durante a iontoforese, que auxilia na penetração de substâncias neutras (sem carga) e de alta massa molecular.

 

Porém, no caso da doxorrubicina, mesmo com a aplicação da corrente, o medicamento ainda ficava interagindo no estrato córneo, e não ia completamente para as camadas mais profundas da pele, onde se localizam as células cancerosas. Foi então que os pesquisadores tiveram a ideia de encapsular a droga em pequenas partículas de gordura.

 

Consequências

 

A explicação para o bom resultado com as nanopartículas ainda está sendo investigada em outros estudos, dentro da mesma linha de pesquisa. Uma das razões cogitadas é o fato de elas protegerem o fármaco do contato direto com o estrato córneo, diminuindo a interação da droga com essa camada da pele. E a iontoforese atuaria forçando a entrada dessas partículas para camadas mais profundas, carregando o medicamento para o local desejado.

 

Um outro método para aumentar a penetração de substâncias na pele estudado pela professora, em pós-doutorado realizado no Massachusetts Institute of Technology (MIT), envolve a aplicação simultânea de ultrassom e de um composto tensoativo (substância que influencia na superfície de contato entre dois líquidos) na pele.

 

Esse pré-tratamento, feito antes da aplicação da droga, altera o estrato córneo e facilita a penetração de substâncias. Renata verificou, juntamente com o grupo dos professores Robert Langer e Daniel Blankschtein, ambos do MIT, que o método consegue fazer com que nanopartículas rígidas cheguem a camadas bem profundas da pele, podendo até atingir a circulação sanguínea.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.