Técnica de redução de estômago é usada contra diabete

Dois centros médicos paulistas, o Hospital das Clínicas (HC) e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), estão tentando comprovar cientificamente uma técnica inédita no País e ainda pouquíssimo estudada no mundo: tratar a diabete tipo 2 com técnicas de cirurgia bariátrica (redução de estômago) em pacientes não obesos. Hoje, a operação é indicada para os chamados obesos mórbidos, ou seja, pessoas que têm Índice de Massa Corpórea (IMC), referência usada na medicina para saber se o paciente está no peso normal, acima de 40. O cálculo é simples: peso (quilos) dividido pela altura (metros) ao quadrado. Na Unicamp, quatro pacientes foram operados nos últimos três meses. "Os resultados são bons. Um já não usa a insulina e três estão com 1/3 da dose, prestes a parar de usar", diz José Carlos Pareja, coordenador do Serviço de Cirurgia de Obesidade na Unicamp. "Mas é cedo. Estamos apenas no início de uma análise científica." O protocolo, que já passou por aprovação da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), vai envolver um total de 12 voluntários com IMC de até 31. Nas próximas semanas, o cirurgião Nilton Kawahara, coordenador do setor de Videolaparoscopia da Cirurgia Geral do HC, vai apresentar oficialmente o pedido de aprovação de abertura do protocolo ao Conselho de Ética da instituição para começar o trabalho com voluntários: 25 pessoas com mais de 18 anos, diagnóstico de diabete tipo 2 há cinco anos e IMC máximo de 35. O tipo de cirurgia usado pelos pesquisadores é o que cria um atalho para o alimento no aparelho digestivo. "Cerca de 50% do intestino delgado é desviado", explica Kawahara. O que a cirurgia faz é estimular um hormônio chamado incretina, que aumenta a fabricação de insulina - substância que leva a glicose até às células do corpo. As incretinas são fabricadas pelo aparelho digestivo quando nos alimentamos. Elas caem na corrente sanguínea e vão até o pâncreas, onde estimulam a fabricação de insulina. O desvio faz com que o alimento chegue mais rápido à parte final do intestino, lugar onde é produzido um tipo de incretina, a GLP1. No intestino delgado ocorre a parte mais importante da digestão, onde é absorvida a maior parte dos nutrientes. "Se a comida chega mais cedo, o hormônio é produzido mais rapidamente", explica o médico do HC. Em pacientes magros, o estômago não é reduzido - em obesos, retira-se de 70% a 95% do órgão. "Mesmo assim, o paciente perde um pouco a fome e emagrece um pouco", diz Pareja. Os voluntários que já foram operados perderam, em três meses, cerca de 3 quilos. O diabético tem elevação de cerca de 6% de incretinas quando se alimenta. Em uma pessoa saudável, a média é de 60%. O hormônio também tem sido um dos principais alvos de investimento da indústria farmacêutica - pelo menos três drogas de última geração estão prestes a chegar ao mercado brasileiro com ação justamente nas incretinas. O interesse médico em testar a técnica em pacientes não obesos veio com a constatação de que cerca de 80% dos obesos com diabete tipo 2 operados voltavam a ter índices de glicemia normais bem antes da perda significativa de peso. "Na maioria das vezes, em menos de um mês após a cirurgia, os índices de glicemia voltam ao normal", diz Kawahara. "No mesmo período, o paciente perde apenas cerca de 10% do que tem que emagrecer." A perda de peso ajuda na estabilização de glicose, já que o excesso de gordura nas células dificulta a entrada da insulina. Mas os médicos perceberam que não era bem o emagrecimento o principal responsável pela queda nos índices de glicemia no pós-operatório, e sim a maior produção de incretina. Por enquanto, poucos países estão envolvidos com o assunto. "No México e no Chile, já há estudos em humanos", diz Pareja. Na Itália, de onde surgiu um dos principais trabalhos com cobaias (todos os camundongos da pesquisa com diabete tipo 2 tiveram índices de glicose normalizados), o estudo em humanos está em fase de aprovação.

Agencia Estado,

08 de agosto de 2006 | 10h07

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