Técnica inédita contra infertilidade com células-tronco

Uma equipe de pesquisadores que trabalha no Brasil afirma ter criado óvulos e espermatozóides maduros de camundongos a partir de células-tronco cultivadas de um embrião do animal - e de uma vez só, um procedimento inédito. O trabalho foi apresentado em Praga (República Checa) na semana passada, durante o encontro anual da Sociedade Européia de Reprodução Humana e Embriologia, pela pesquisadora russa naturalizada brasileira Irina Kerkis, do Instituto Butantã. Se o método receber o aval de uma revista científica - promessa dos autores para os próximos meses - e se o experimento for repetido por outros grupos, essa será a primeira vez que células sexuais maduras são formadas artificialmente com as células-tronco em uma única fornada. Como as células de camundongo são parecidas com as humanas, o trabalho abre a possibilidade de experimentar a técnica para o tratamento de problemas de fertilidade em humanos. O caminho, porém, pode incitar um debate ético quente. Primeiro, pela forma de obtenção das células-tronco, que exige a destruição do embrião. A prática é permitida no Brasil sob determinadas regras, mas nem por isso é largamente aceita. Segundo, pelo próprio ato de se criar artificialmente células sexuais, passo visto por grupos conservadores como uma inversão da natureza. Irina e o marido, Alexandre Kerkis, que trabalha no Centro de Pesquisa Roger Abdelmassih (onde ela presta consultoria), preferem nem pensar em aplicações práticas do feito por enquanto, pelo menos em pessoas. Ele fala que o trabalho não foi pensado para tratar a infertilidade humana e sim como uma maneira de se conhecer melhor a biologia celular. Ela já visualiza o uso veterinário. ?A ciência também existe para ser útil?, diz Irina. Os dois observaram o surgimento dos gametas em uma mesma placa de Petri, usada em laboratório para cultivar as células-tronco, que têm o potencial de formar qualquer tecido do corpo: sexual, muscular, ósseo, neural... Para conseguir os gametas, eles deram um ambiente com nutrientes e soro, para as células crescerem e se proliferarem, e ácido retinóico (o precursor da vitamina A) para induzir a transformação. O resultado é que, após duas semanas, oócitos e espermatozóides cresceram na placa a partir de um corpo embrionário (um aglomerado de células-tronco no início do processo de diferenciação). Eles repetiram o teste, e repetiram novamente, com o mesmo final. Como não basta observação em ciência, eles fizeram testes que mostraram expressão dos mesmos genes de gametas naturais, e presença de DNA. O próximo passo é saber se as células são realmente capazes de fecundar e ser fecundadas. Em Praga, Irina deu uma pista de que elas funcionam perfeitamente, como indica o site de notícias da revista científica Nature. Óvulos se desenvolveram em blastocistos, precursores dos embriões. Ela afirma que eles podem ter surgido por partenogênese - quando um óvulo se desenvolve sem fertilização. Porém, como havia espermatozóides maduros no mesmo ambiente, ela admite que pode ter havido fertilização. A questão, além de outras levantadas pelos especialistas na reunião, serão respondidas quando o trabalho for publicado, promete o casal. O que não pode demorar muito, uma vez que há outros grupos no mundo que trabalham na mesma direção, como Niels Geijsen, da Escola de Medicina da Universidade Harvard, nos Estados Unidos: ?Escutei que esse trabalho está para sair. Ele parece muito estimulante e espero avidamente a publicação desses resultados. Você sabe quando sai??

Agencia Estado,

28 de junho de 2006 | 10h35

Tudo o que sabemos sobre:
notícia

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.